C1 · AdvancedLesson 3 of 3

Ambiguidade entre se impessoal e se apassivante

Distingue o se impessoal do se apassivante em português e percebe por que razão certas frases com um nome singular geram ambiguidade, nível C1 avançado.

A mesma forma, duas estruturas

O se impessoal e o se apassivante afastam o agente humano, mas organizam a frase de maneira diferente.

Regra prática para a escrita cuidada europeia: com um verbo transitivo direto seguido de um grupo nominal sem preposição, esse grupo é sujeito paciente; no plural, o verbo concorda com ele: publicam-se os resultados. Com complemento preposicionado, o verbo fica no singular: precisa-se de revisores.

Estrutura Exemplo Análise
impessoal Precisa-se de intérpretes. sujeito humano indeterminado; verbo no singular
apassivante Contratam-se intérpretes. intérpretes é sujeito paciente; verbo no plural

Nos exemplos plurais, a preposição e a concordância tornam o contraste visível. Com um nome singular, porém, a forma verbal deixa de ajudar: Vende-se a casa pode receber uma paráfrase passiva — a casa é vendida — e uma paráfrase ativa genérica — alguém vende a casa.

Esta página não procura esconder essa zona de sobreposição. O objetivo é combinar critérios e escolher uma redação inequívoca quando a análise importa.

Começar pela construção do verbo

Os casos mais claros dependem da transitividade e da forma dos complementos.

Tipo de verbo Exemplo Diagnóstico de base
intransitivo Vive-se bem aqui. impessoal
copulativo É-se mais prudente com a idade. impessoal
complemento preposicionado Confia-se nos peritos. impessoal
transitivo direto Publicaram-se os resultados. passivo; os resultados é sujeito paciente

Em confia-se nos peritos, a preposição em impede que os peritos seja sujeito da passiva. Em publicaram-se os resultados, o grupo sem preposição recebe a ação e concorda com o verbo.

A presença de uma entidade humana não decide a análise. Contratam-se técnicos é passiva; precisa-se de técnicos é impessoal. O fator decisivo é a estrutura exigida pelo verbo, não a animacidade do nome.

O plural revela o contraste

Com um sujeito paciente plural, a concordância torna visível a construção passiva:

  • Analisa-se a amostra;
  • Analisam-se as amostras;
  • Considera-se válida a conclusão;
  • Consideram-se válidas as conclusões.

Na última frase, tanto o verbo como o predicativo válidas concordam com as conclusões. A paráfrase confirma a estrutura: as conclusões são consideradas válidas.

Também se encontram construções como analisa-se as amostras, nas quais se é interpretado como impessoal e as amostras como complemento direto. Essa análise é defendida em descrições contemporâneas e tem distribuição variável. Na escrita cuidada de base europeia, a opção não marcada é analisam-se as amostras.

Uma forma atestada pode receber análises e avaliações normativas diferentes. Ao editar um texto, importa distinguir a descrição do uso da convenção escolhida para esse texto.

Por que o singular permanece ambíguo

Em várias frases, os testes semânticos apontam em duas direções.

Frase Paráfrase passiva Paráfrase impessoal
Vende-se pão. pão é vendido as pessoas vendem pão
Ouve-se o sino. o sino é ouvido alguém ouve o sino
Considera-se a proposta viável. a proposta é considerada viável alguém considera a proposta viável

A concordância singular serve as duas leituras, e a ideia de agente indeterminado está presente em ambas. A diferença está na função atribuída ao grupo nominal: sujeito paciente na passiva, complemento direto na impessoal.

Na análise escolar e editorial do português europeu, um verbo transitivo direto com este grupo nominal é normalmente tratado como passiva. Contudo, o significado genérico pode aproximar muito as interpretações. Se a distinção tiver consequências — por exemplo, numa análise sintática —, explicita os critérios adotados.

Consideram-se insuficientes os dados disponíveis.

Os dados disponíveis é sujeito paciente plural; consideram e insuficientes concordam com ele.

Considera-se que os dados são insuficientes.

Aqui, apresenta-se uma opinião sem identificar quem a sustenta. A construção com a oração introduzida por que é impessoal e o verbo permanece no singular.

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1
Em "Necessita-se de mediadores", o grupo preposicionado não é sujeito paciente; a construção é .

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Testes úteis, mas não absolutos

Nenhum teste isolado resolve todos os exemplos.

  1. Paráfrase com ser + particípio: favorece a passiva, mas pode soar pouco natural por razões de uso, não de sintaxe.
  2. Paráfrase com alguém/as pessoas: favorece a leitura impessoal, mas também explicita o agente implícito de muitas passivas.
  3. Concordância no plural: é a pista formal mais forte para a passiva.
  4. Preposição exigida pelo verbo: favorece o impessoal, pois o grupo preposicionado não se torna sujeito paciente.
  5. Agente expresso: na passiva com se, o agente não pode ser introduzido por por: diz-se vendem-se casas, mas não vendem-se casas pelo proprietário. Com ser + particípio, é possível: as casas são vendidas pelo proprietário.
  6. Tipo de texto: anúncios e regulamentos favorecem passivas com informação nova depois do verbo; generalizações sobre comportamento favorecem leituras impessoais.

Por isso, procuram-se voluntários é claramente passiva, enquanto trabalha-se com voluntários é impessoal. Já vende-se pão exige que se explicitem os critérios se a classificação for relevante.

Colocação de se

Com palavras que atraem o pronome, usa-se próclise: não se vendem casas, onde se analisam as amostras e quando se publicaram os resultados. Com um infinitivo flexionado sem elemento atrativo, usa-se ênclise: é preciso analisarem-se as amostras. A posição do pronome não altera a distinção entre impessoal e passiva, mas a concordância mantém-se: analisarem-se concorda com as amostras.

Não confundir com média e anticausativa

Uma aparente oposição entre passiva e impessoal pode ocultar uma terceira leitura.

Exemplo Leitura principal
Estes livros leem-se facilmente. média: são fáceis de ler
Na bilheteira, venderam-se todos os bilhetes em duas horas. passiva: os bilhetes foram vendidos, sem agente expresso
Com esta campanha, os bilhetes vendem-se depressa. média: têm boa aceitação comercial
A porta fechou-se com o vento. anticausativa: mudança de estado
Trata-se de um erro técnico. construção lexicalizada com tratar-se de

Advérbios como facilmente, bem, mal e o presente genérico favorecem propriedades médias. Uma causa não humana, como com o vento, favorece a mudança sem agente. A simples possibilidade de uma paráfrase passiva não deve apagar estas diferenças aspetuais.

Antes de escolher entre impessoal e passivo, confirma que excluíste os valores reflexo, recíproco, inerente, médio e anticausativo de se.

Variação e escolha editorial

Em textos de diferentes épocas e variedades, pode aparecer o verbo no singular perante um nome plural: vende-se casas. No português brasileiro falado e na escrita informal, a forma é frequente e muitas descrições analisam-na como impessoal. Também ocorre no uso coloquial em Portugal. Na norma-padrão escolar e na escrita formal, em Portugal e nas recomendações tradicionais no Brasil, a forma recomendada é vendem-se casas.

Para produzir escrita formal de base europeia:

  • usa vendem-se casas, aceitam-se propostas e divulgam-se resultados;
  • mantém o singular com complementos preposicionados: precisa-se de casas, confia-se nas propostas;
  • se pretenderes destacar pessoas em geral, escreve as pessoas, quem trabalha ou outra expressão explícita;
  • evita alternar as duas análises dentro do mesmo documento sem motivo.

Esta opção editorial não obriga a classificar como incompreensível toda a variação encontrada noutros textos.

Um percurso de decisão

Ao analisar uma ocorrência:

  1. exclui a conjunção e os outros valores pronominais de se;
  2. identifica a construção do verbo e as preposições exigidas;
  3. testa o nome no plural e observa a concordância;
  4. tenta as paráfrases passiva e ativa genérica;
  5. verifica se a frase descreve evento, prática ou propriedade;
  6. considera a variedade e a convenção editorial;
  7. se a ambiguidade prejudicar o texto, reformula.

Assim, precisa-se de revisores é impessoal; contratam-se revisores é passiva; contrata-se um revisor tem forma singular compatível com análises concorrentes, embora a leitura passiva seja a opção-padrão na escrita cuidada europeia.

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Last updated August 23, 2026