Colocação avançada dos clíticos em orações complexas
Aprofunda a colocação dos clíticos em orações complexas do português europeu, incluindo os contextos de próclise e de ênclise, nível C1 avançado.
Cada oração cria um domínio
No português europeu contemporâneo, a ênclise é o padrão básico numa oração principal afirmativa: A diretora entregou-lhe o processo. A próclise surge quando, dentro da mesma oração, existe um elemento que a desencadeia: A diretora não lhe entregou o processo.
Numa frase complexa, não basta procurar uma palavra atratora em qualquer ponto do período. É necessário identificar a oração a que pertencem o clítico e o verbo.
Quando me telefonou, a diretora explicou-me a decisão.
Na subordinada temporal, quando desencadeia a próclise: me telefonou. Na oração principal afirmativa, esse quando já não atua, e temos ênclise: explicou-me.
Subordinação e relativos
As orações subordinadas finitas apresentam geralmente próclise. O clítico fica antes do verbo da oração introduzida por uma conjunção, um relativo ou uma palavra interrogativa:
- Disseram que me enviariam a ata.
- Embora lhe tenham explicado o procedimento, manteve a dúvida.
- Este é o relatório que nos pediram.
- Li um artigo cujo título me surpreendeu.
- Não sei quem te contou a novidade.
O elemento introdutor pode estar separado do clítico por outros constituintes: O relatório que ontem me enviaram estava incompleto. A distância linear não elimina a relação dentro da oração.
Uma data ou um constituinte inicial não é automaticamente um atrator. Em português europeu, dizemos Em 2025, publicou-se o relatório, se não houver outro elemento que exija próclise.
Outros atratores de próclise
Além da negação, vários elementos na própria oração favorecem a próclise:
| Grupo | Exemplos |
|---|---|
| advérbios | Já lhe disse; ainda o não vi; sempre me apoiou; só me avisaram ontem; também o li; talvez lhe telefone. |
| quantificadores e indefinidos | Todos me viram; alguém te procurou; poucos o sabem. |
| optativas e exclamativas | Deus te ajude! Quanto me custou! |
| comparativas | Ele trabalha mais do que me parece. / Ele trabalha mais do que parece a mim. |
Nas comparativas, a próclise é a opção normal quando que introduz uma oração finita; uma expressão forte como a mim permite reformular a frase. Em todos os casos, o atrator só atua sobre o verbo da sua própria oração.
Coordenação: reavaliar a cada verbo
As conjunções e e mas não impõem, por si sós, próclise. Cada oração coordenada deve ser analisada de acordo com os seus próprios elementos:
| Estrutura | Colocação |
|---|---|
| Telefonou-me e explicou-me o problema. | duas principais afirmativas: ênclise |
| Telefonou-me, mas não me deixou mensagem. | a negação desencadeia próclise apenas na segunda oração |
| Quando me telefonou e me explicou o problema, percebi tudo. | quando enquadra os dois verbos coordenados da subordinada |
| Disse que o analisaria e que me responderia. | cada oração introduzida por que apresenta próclise |
| Disse que o analisaria e me responderia. | o segundo que está elidido, mas os dois verbos pertencem à mesma subordinada |
| Disse que o analisaria e a chefe respondeu-me no dia seguinte. | a segunda oração tem sujeito próprio e é uma principal afirmativa: ênclise |
Não se deve transportar mecanicamente a colocação do primeiro verbo para o segundo. Em A Marta recebeu-o e não o leu, a mudança de posição resulta da negação, não da conjunção e.
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Infinitivos introduzidos por preposição
Em muitas orações infinitivas simples introduzidas por preposição, o português europeu admite próclise e ênclise:
- Tive dificuldade em a explicar. / Tive dificuldade em explicá-la.
- Fez isso para me ajudar. / Fez isso para ajudar-me.
- Saiu sem o cumprimentar. / Saiu sem cumprimentá-lo.
- Calou-se para não o magoar. / Calou-se para não magoá-lo.
- Antes de o enviar. / Antes de enviá-lo.
Com a e com, a ênclise é o padrão: Começou a observá-lo; Ficou satisfeito com revê-la. Com infinitivo flexionado e sujeito expresso, a próclise é a solução europeia neutra: Para eles o fazerem, precisam de autorização.
Com verbos causativos e de perceção, o clítico pode ligar-se ao verbo finito: deixou-me sair, mandou-o entrar, viu-a chegar. Em complexos com negação, há também mais de uma posição possível: Não lhe quero telefonar / Não quero telefonar-lhe.
Não aplique aos infinitivos uma lista de atratores pensada apenas para verbos finitos. A preposição, a flexão do infinitivo e a estrutura do complexo verbal condicionam as opções.
Complexos verbais e subida do clítico
Em certos complexos, o clítico que funciona como complemento do verbo principal pode ligar-se ao verbo superior. Este fenómeno chama-se subida do clítico:
- Vou-lhe enviar o ficheiro. — O clítico sobe e liga-se a vou.
- Vou enviar-lhe o ficheiro. — O clítico permanece junto do infinitivo.
A possibilidade depende da construção. Compare:
- Passou-se a incluir uma nota. / Passou a incluir-se uma nota.
- Acabou de me telefonar. / Acabou de telefonar-me.
- O plano passou por dar-lhe apoio. / ✗ Não aceite: O plano passou-lhe por dar apoio.
No último par, por bloqueia a subida para o verbo passou. A marca ✗ indica uma frase que não pertence ao padrão descrito.
Tempos compostos e futuro
Nos tempos compostos, o clítico não se liga ao particípio. Liga-se ao auxiliar finito:
- Tenho-o visto na biblioteca.
- Não o tenho visto na biblioteca.
- ✗ Não aceite: Tenho visto-o na biblioteca.
Com o futuro e o condicional numa oração principal afirmativa, a norma tradicional europeia admite a mesóclise: Dir-lhe-ei amanhã; Enviar-lhe-ia os dados. Se houver um atrator, surge próclise: Não lhe direi; Disse que lhe enviaria os dados.
Na fala e em muitos textos contemporâneos, uma perífrase evita uma forma excessivamente solene: Vou dizer-lhe amanhã; Podia enviar-lhe os dados. A formação e o valor estilístico da mesóclise são tratados numa página própria.
Não ligue o clítico ao particípio e não use mesóclise quando já existe um contexto de próclise. A forma não dir-lhe-ei não corresponde ao padrão europeu.
Registo e normas pluricêntricas
No português europeu, contrastes como telefonou-me / não me telefonou são produtivos na fala e na escrita. No português brasileiro informal, a próclise é muito mais ampla: Ela me telefonou e, em muitos contextos orais, Me telefonaram. A escrita formal brasileira pode seguir convenções mais conservadoras, mas não reproduz em todos os casos a distribuição europeia.
No Brasil, a subida do clítico é menos produtiva na fala, a mesóclise é muito rara fora de registos solenes e pronomes fortes surgem com frequência onde o padrão europeu prefere um clítico: Vi ele em vez de Vi-o. Estas diferenças não se reduzem, portanto, à próclise; devem ser estudadas em conjunto com a página dedicada aos clíticos no português europeu e no português brasileiro.
As variedades africanas também apresentam distribuições próprias, apesar da influência histórica do padrão europeu na escrita. Por isso, avaliar uma colocação exige saber qual é a variedade, o género textual e o grau de formalidade.
Ao rever um texto orientado pelo padrão europeu:
- delimite cada oração e cada complexo verbal;
- localize negação, subordinadores, relativos, interrogativos e focalizadores;
- verifique se o clítico pertence ao verbo finito ou ao infinitivo;
- confirme se a subida é permitida pela construção;
- escolha uma alternativa clara quando duas posições forem possíveis.
A colocação não é decoração estilística: torna visíveis relações entre o clítico, o verbo e a estrutura da frase.
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Last updated August 23, 2026