C1 · AdvancedLesson 2 of 3

Colocação avançada dos clíticos em orações complexas

Aprofunda a colocação dos clíticos em orações complexas do português europeu, incluindo os contextos de próclise e de ênclise, nível C1 avançado.

Cada oração cria um domínio

No português europeu contemporâneo, a ênclise é o padrão básico numa oração principal afirmativa: A diretora entregou-lhe o processo. A próclise surge quando, dentro da mesma oração, existe um elemento que a desencadeia: A diretora não lhe entregou o processo.

Numa frase complexa, não basta procurar uma palavra atratora em qualquer ponto do período. É necessário identificar a oração a que pertencem o clítico e o verbo.

Quando me telefonou, a diretora explicou-me a decisão.

Na subordinada temporal, quando desencadeia a próclise: me telefonou. Na oração principal afirmativa, esse quando já não atua, e temos ênclise: explicou-me.

Subordinação e relativos

As orações subordinadas finitas apresentam geralmente próclise. O clítico fica antes do verbo da oração introduzida por uma conjunção, um relativo ou uma palavra interrogativa:

  • Disseram que me enviariam a ata.
  • Embora lhe tenham explicado o procedimento, manteve a dúvida.
  • Este é o relatório que nos pediram.
  • Li um artigo cujo título me surpreendeu.
  • Não sei quem te contou a novidade.

O elemento introdutor pode estar separado do clítico por outros constituintes: O relatório que ontem me enviaram estava incompleto. A distância linear não elimina a relação dentro da oração.

Uma data ou um constituinte inicial não é automaticamente um atrator. Em português europeu, dizemos Em 2025, publicou-se o relatório, se não houver outro elemento que exija próclise.

Outros atratores de próclise

Além da negação, vários elementos na própria oração favorecem a próclise:

Grupo Exemplos
advérbios lhe disse; ainda o não vi; sempre me apoiou; só me avisaram ontem; também o li; talvez lhe telefone.
quantificadores e indefinidos Todos me viram; alguém te procurou; poucos o sabem.
optativas e exclamativas Deus te ajude! Quanto me custou!
comparativas Ele trabalha mais do que me parece. / Ele trabalha mais do que parece a mim.

Nas comparativas, a próclise é a opção normal quando que introduz uma oração finita; uma expressão forte como a mim permite reformular a frase. Em todos os casos, o atrator só atua sobre o verbo da sua própria oração.

Coordenação: reavaliar a cada verbo

As conjunções e e mas não impõem, por si sós, próclise. Cada oração coordenada deve ser analisada de acordo com os seus próprios elementos:

Estrutura Colocação
Telefonou-me e explicou-me o problema. duas principais afirmativas: ênclise
Telefonou-me, mas não me deixou mensagem. a negação desencadeia próclise apenas na segunda oração
Quando me telefonou e me explicou o problema, percebi tudo. quando enquadra os dois verbos coordenados da subordinada
Disse que o analisaria e que me responderia. cada oração introduzida por que apresenta próclise
Disse que o analisaria e me responderia. o segundo que está elidido, mas os dois verbos pertencem à mesma subordinada
Disse que o analisaria e a chefe respondeu-me no dia seguinte. a segunda oração tem sujeito próprio e é uma principal afirmativa: ênclise

Não se deve transportar mecanicamente a colocação do primeiro verbo para o segundo. Em A Marta recebeu-o e não o leu, a mudança de posição resulta da negação, não da conjunção e.

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Numa oração principal afirmativa sem atrator, .

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Infinitivos introduzidos por preposição

Em muitas orações infinitivas simples introduzidas por preposição, o português europeu admite próclise e ênclise:

  • Tive dificuldade em a explicar. / Tive dificuldade em explicá-la.
  • Fez isso para me ajudar. / Fez isso para ajudar-me.
  • Saiu sem o cumprimentar. / Saiu sem cumprimentá-lo.
  • Calou-se para não o magoar. / Calou-se para não magoá-lo.
  • Antes de o enviar. / Antes de enviá-lo.

Com a e com, a ênclise é o padrão: Começou a observá-lo; Ficou satisfeito com revê-la. Com infinitivo flexionado e sujeito expresso, a próclise é a solução europeia neutra: Para eles o fazerem, precisam de autorização.

Com verbos causativos e de perceção, o clítico pode ligar-se ao verbo finito: deixou-me sair, mandou-o entrar, viu-a chegar. Em complexos com negação, há também mais de uma posição possível: Não lhe quero telefonar / Não quero telefonar-lhe.

Não aplique aos infinitivos uma lista de atratores pensada apenas para verbos finitos. A preposição, a flexão do infinitivo e a estrutura do complexo verbal condicionam as opções.

Complexos verbais e subida do clítico

Em certos complexos, o clítico que funciona como complemento do verbo principal pode ligar-se ao verbo superior. Este fenómeno chama-se subida do clítico:

  • Vou-lhe enviar o ficheiro. — O clítico sobe e liga-se a vou.
  • Vou enviar-lhe o ficheiro. — O clítico permanece junto do infinitivo.

A possibilidade depende da construção. Compare:

  • Passou-se a incluir uma nota. / Passou a incluir-se uma nota.
  • Acabou de me telefonar. / Acabou de telefonar-me.
  • O plano passou por dar-lhe apoio. / ✗ Não aceite: O plano passou-lhe por dar apoio.

No último par, por bloqueia a subida para o verbo passou. A marca ✗ indica uma frase que não pertence ao padrão descrito.

Tempos compostos e futuro

Nos tempos compostos, o clítico não se liga ao particípio. Liga-se ao auxiliar finito:

  • Tenho-o visto na biblioteca.
  • Não o tenho visto na biblioteca.
  • Não aceite: Tenho visto-o na biblioteca.

Com o futuro e o condicional numa oração principal afirmativa, a norma tradicional europeia admite a mesóclise: Dir-lhe-ei amanhã; Enviar-lhe-ia os dados. Se houver um atrator, surge próclise: Não lhe direi; Disse que lhe enviaria os dados.

Na fala e em muitos textos contemporâneos, uma perífrase evita uma forma excessivamente solene: Vou dizer-lhe amanhã; Podia enviar-lhe os dados. A formação e o valor estilístico da mesóclise são tratados numa página própria.

Não ligue o clítico ao particípio e não use mesóclise quando já existe um contexto de próclise. A forma não dir-lhe-ei não corresponde ao padrão europeu.

Registo e normas pluricêntricas

No português europeu, contrastes como telefonou-me / não me telefonou são produtivos na fala e na escrita. No português brasileiro informal, a próclise é muito mais ampla: Ela me telefonou e, em muitos contextos orais, Me telefonaram. A escrita formal brasileira pode seguir convenções mais conservadoras, mas não reproduz em todos os casos a distribuição europeia.

No Brasil, a subida do clítico é menos produtiva na fala, a mesóclise é muito rara fora de registos solenes e pronomes fortes surgem com frequência onde o padrão europeu prefere um clítico: Vi ele em vez de Vi-o. Estas diferenças não se reduzem, portanto, à próclise; devem ser estudadas em conjunto com a página dedicada aos clíticos no português europeu e no português brasileiro.

As variedades africanas também apresentam distribuições próprias, apesar da influência histórica do padrão europeu na escrita. Por isso, avaliar uma colocação exige saber qual é a variedade, o género textual e o grau de formalidade.

Ao rever um texto orientado pelo padrão europeu:

  1. delimite cada oração e cada complexo verbal;
  2. localize negação, subordinadores, relativos, interrogativos e focalizadores;
  3. verifique se o clítico pertence ao verbo finito ou ao infinitivo;
  4. confirme se a subida é permitida pela construção;
  5. escolha uma alternativa clara quando duas posições forem possíveis.

A colocação não é decoração estilística: torna visíveis relações entre o clítico, o verbo e a estrutura da frase.

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Last updated August 23, 2026