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Escalas de obrigação, possibilidade e evidência

Distingue normas, graus de certeza e fontes de informação para exprimir obrigação, possibilidade e evidência com precisão em português.

By the flumi team About 7 min read 10 vocabulary wordsPercurso de gramática: Modo, cortesia e escalas modais

Três perguntas diferentes

A modalidade mostra a posição de quem fala perante uma situação. Para a analisar, convém separar normas, graus de certeza e fontes de informação.

Domínio Pergunta central Exemplo
modalidade deôntica o que é obrigatório, permitido ou proibido? A equipa tem de entregar o relatório.
modalidade epistémica quão provável é a situação? A equipa deve estar a terminar o relatório.
evidencialidade em que fonte ou indício se baseia a informação? Segundo a coordenadora, a equipa já terminou.

Uma fonte direta não garante certeza absoluta, e uma inferência indireta pode ser muito forte. Por isso, evidência e confiança devem ser avaliadas em escalas separadas.

Ao encontrar dever ou poder, não atribuas imediatamente uma categoria. Pergunta se a frase regula uma ação, estima a sua probabilidade ou descreve a capacidade de alguém.

Da obrigação à opção

A força de uma formulação deôntica depende da expressão, do género textual e de quem tem autoridade para estabelecer a norma.

Força pretendida Formulações possíveis Exemplo
obrigação explícita é obrigatório, tem de, é necessário O candidato tem de apresentar identificação.
necessidade prática ou instrução formal ser preciso, precisar de, haver de, futuro injuntivo É preciso entregar o pedido; o candidato apresentará identificação.
dever normativo deve O formulário deve ser assinado.
recomendação deveria, convém, é aconselhável Convém guardar uma cópia.
permissão pode, é permitido Pode consultar as notas.
ausência de obrigação não tem de, não é necessário Não tem de imprimir o documento.
proibição não pode, é proibido Não pode entrar nesta área.

Em leis, regulamentos e normas, deve pode ter força obrigatória porque o próprio género lhe dá esse valor. Numa conversa, devias descansar é normalmente um conselho. Se a distinção tiver consequências práticas, prefere é obrigatório, é permitido ou é proibido.

No português europeu, ter de é muito frequente para necessidade externa ou prática: Tenho de renovar o passe. Ter que também ocorre, com distribuição variável entre registos e variedades.

Não uses uma escala de cortesia como se fosse uma escala jurídica. Deveria enviar o pedido pode suavizar uma recomendação, mas é inadequado para comunicar uma obrigação cujo incumprimento tem consequências.

Da possibilidade à forte probabilidade

Na modalidade epistémica, o falante calibra o compromisso com a verdade da proposição. As expressões abaixo formam tendências, não percentagens fixas.

Grau aproximado Recursos Exemplo
certeza apresentada é certo, sem dúvida, certamente É certo que a sessão começa às nove.
forte probabilidade deve, é muito provável A sessão deve começar às nove.
probabilidade provavelmente, é provável É provável que comece às nove.
possibilidade pode, é possível, talvez A sessão pode começar às nove.
impossibilidade não pode, é impossível É impossível que comece antes das oito.

O padrão modal influencia o modo verbal: É certo que a sessão começa apresenta o conteúdo como assumido; É provável que a sessão comece e É possível que comece selecionam o conjuntivo (subjuntivo no português brasileiro). Com negação, Não é certo que comece às nove retira a certeza e favorece igualmente o conjuntivo.

No português europeu, deve + infinitivo exprime normalmente uma norma: Deve entregar o relatório. Dever de + infinitivo é uma pista útil para a inferência: Deve de estar a chegar. A distinção não elimina todos os contextos ambíguos, mas ajuda a separar obrigação e probabilidade.

Para uma hipótese passada, o infinitivo composto localiza a situação antes do presente: Ele pode ter saído exprime possibilidade; Ele deve ter saído exprime inferência provável. Devia ter saído aponta normalmente uma obrigação ou expectativa passada; teria saído apresenta, em geral, um relato não confirmado.

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1
A modalidade regula o que é obrigatório, permitido ou proibido; a modalidade avalia a probabilidade; a indica a fonte da informação.

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Indicar a base da informação

O português não obriga cada frase a marcar gramaticalmente a origem da informação, mas dispõe de muitos recursos evidenciais.

Base da informação Recursos Exemplo
observação direta vi, ouvi, constatei Vi que a porta estava aberta.
relato atribuído segundo, de acordo com, afirmou que Segundo o relatório, houve uma falha.
informação não confirmada alegadamente, ao que consta Ao que consta, o acordo foi assinado.
inferência por indícios pelos sinais, ao que tudo indica, dever As luzes estão apagadas; devem ter saído.
aparência aparentemente, parece que Aparentemente, o sistema voltou a funcionar.

O futuro pode marcar conjetura: A esta hora, já terão chegado. O condicional ocorre em relatos não confirmados: O ministro teria apresentado a demissão. Estas formas não dispensam a identificação da fonte num texto jornalístico ou profissional.

Segundo a proteção civil, o incêndio está dominado.

Pela ausência de fumo, o incêndio deve estar dominado.

A primeira frase atribui a informação a uma entidade; a segunda apresenta uma inferência. Ambas podem transmitir confiança elevada, mas assentam em tipos de evidência diferentes.

Negação e alcance modal

Com verbos modais, mudar a posição da negação pode transformar obrigação em opção ou possibilidade em proibição.

Frase Leitura principal
Tem de entrar. a entrada é obrigatória
Não tem de entrar. a entrada não é obrigatória
Não pode entrar. a entrada é proibida ou impossível
Pode não entrar. é possível ou permitido que não entre
Não deve entrar. recomenda-se ou determina-se que não entre, ou é provável que não entre
É obrigatório não entrar. existe obrigação explícita de ficar fora

Não tem de entrar não significa tem de não entrar. A primeira frase elimina a obrigação; a segunda, pouco natural, colocaria a negação dentro do conteúdo obrigatório. Para uma regra clara, escreve É proibido entrar.

Também há diferença entre não é provável que venha e é provável que não venha. A primeira rejeita uma previsão positiva; a segunda apresenta a ausência como previsão provável. Em muitos contextos, aproximam-se, mas o foco argumentativo não é idêntico.

Calibrar a linguagem ao género

Uma formulação adequada torna explícitos o grau de força e a base da afirmação.

  • em regulamentos, distingue obrigatório, facultativo e proibido;
  • em textos académicos, reserva demonstra para provas fortes e usa sugere ou indica quando os dados são limitados;
  • em notícias, atribui alegações e não uses o condicional como substituto de uma fonte;
  • em pareceres, separa o que foi observado do que foi inferido;
  • na conversa informal europeia, se calhar marca possibilidade, mas pode ser inadequado num relatório.

Antes de concluir, verifica:

  1. se a frase regula uma conduta ou avalia uma probabilidade;
  2. quem estabelece a obrigação e que autoridade possui;
  3. se dever significa dever normativo ou inferência;
  4. se a negação incide no modal ou no conteúdo;
  5. qual é a fonte e se está claramente atribuída;
  6. se o verbo escolhido corresponde à força real das provas.

Em síntese, obrigação, possibilidade e evidência não formam uma única escala. Uma comunicação rigorosa indica separadamente o que se exige, quão provável é e como se sabe.

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Modo, cortesia e escalas modais

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Escalas de obrigação, possibilidade e evidência

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Last updated August 30, 2026