Próclise e ênclise nas variedades do português
Descobre como a posição dos pronomes átonos, em próclise ou ênclise, varia entre Portugal, o Brasil e outras variedades do português. Nível B2.
Uma língua, vários padrões
A posição dos pronomes átonos é uma das diferenças mais visíveis entre as variedades do português. Uma frase natural em Lisboa pode soar formal no Brasil; uma ordem corrente em Luanda pode não coincidir com o modelo escolar europeu.
| Contexto neutro | Português europeu | Português brasileiro coloquial |
|---|---|---|
| afirmação | A Rita contou-me tudo. | A Rita me contou tudo. |
| início da frase | Disseram-me a verdade. | Me disseram a verdade. |
| imperativo afirmativo | Diz-me depois. | Me diz depois. |
As duas posições não indicam falta de lógica: pertencem a sistemas de uso diferentes.
“Português africano” não designa uma variedade única. Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau têm histórias sociolinguísticas e padrões próprios.
A base europeia
No português europeu, a ênclise é neutra em orações principais afirmativas sem fator de próclise:
- Ela explicou-me o problema.
- Os convidados sentaram-se.
- Entrega-lhe esta carta.
A próclise surge com os fatores sintáticos adequados: Ela não me explicou; Sei que se sentaram; Quem lhe entregou a carta? Começar uma oração independente pelo clítico é evitado: usa-se Telefonaram-me, não Me telefonaram.
| Fator de próclise | Exemplos |
|---|---|
| negação | Não me chamou; nunca me escreveu; nada me disseram. |
| advérbios | Já lhe disse; ainda o não vi; também me chamou; só me avisaram; sempre me apoiou. |
| quantificadores e indefinidos | Todos me viram; alguém te procurou; ninguém o sabe; tudo se resolveu. |
| oração subordinada | Se me chamarem, vou; sei que se sentaram. |
| interrogativa ou exclamativa | Quem lhe contou? Como me assustou! |
Estes fatores atuam dentro da sua própria oração. Sem eles, numa principal afirmativa, a ênclise é a escolha europeia neutra.
Complexos verbais nas duas variedades
Quando há auxiliar ou infinitivo, as duas variedades tornam a diferença especialmente visível:
| Estrutura | Português europeu | Português brasileiro coloquial |
|---|---|---|
| tempo composto | tinha-me dito | tinha me dito |
| futuro próximo | vou dizer-te / vou-te dizer | vou te dizer |
| estar a / estar + gerúndio | está a ver-me | está me vendo |
No português europeu, a posição pode variar em alguns complexos; no brasileiro coloquial, a próclise junto do auxiliar é muito frequente.
Formas do clítico depois do verbo
Com o, a, os, as, a posição depois do verbo pode mudar a forma do pronome. Depois de -r, -s, -z, usa-se -lo/-la/-los/-las: comprá-lo, fá-lo, fi-lo. Depois de terminação nasal, usa-se -no/-na/-nos/-nas: dão-no, põem-na.
Estas formas fazem parte da norma europeia com ênclise. Na próclise brasileira, mantém-se normalmente a forma simples antes do verbo: me viu, o comprou.
Reconhecer brevemente a mesóclise
Com o futuro e o condicional, sem fator de próclise, a norma escrita europeia usa a mesóclise: dir-lhe-ei e contar-me-ia. Esta posição coloca o pronome dentro da forma verbal.
Com negação, o par é dir-lhe-ei / não lhe direi. A mesóclise é rara na conversa quotidiana e especialmente pouco comum no português brasileiro coloquial. Neste nível, basta reconhecê-la; o estudo detalhado pertence a uma lição própria.
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O uso brasileiro
Na fala brasileira, a próclise é muito mais ampla e pode funcionar como posição habitual, mesmo sem um fator tradicional.
Portugal: A Joana encontrou-me ontem.
Brasil: A Joana me encontrou ontem.
Portugal: Conta-me o que aconteceu.
Brasil, uso coloquial: Me conta o que aconteceu.
Na escrita brasileira cuidada, a próclise depois de um sujeito expresso — A Joana me encontrou — está bem estabelecida. O início absoluto com clítico é muito corrente na fala e na escrita informal, mas manuais escolares e contextos muito formais podem preferir Conte-me ou Disseram-me.
O contraste central é, portanto, a posição neutra numa afirmação sem outro fator: o português europeu tende para A Joana encontrou-me, enquanto o português brasileiro usa normalmente A Joana me encontrou. Com negação, as duas variedades usam próclise: A Joana não me encontrou.
Variedades africanas
Na escrita formal de muitos contextos africanos, o modelo de referência aproxima-se tradicionalmente do europeu. Nos usos falados e literários, porém, encontra-se também próclise alargada:
- padrão próximo do europeu: A Ana explicou-me.
- próclise alargada: A Ana me explicou.
Em Angola e Moçambique, estas escolhas não têm necessariamente a mesma frequência nem aparecem nos mesmos contextos. Para o nível B2, o essencial é reconhecer que a norma escrita, a fala e a literatura podem mostrar padrões diferentes sem atribuir uma única regra aos dois países.
Não transformes esta tendência numa regra continental. Uma forma registada em Angola não deve ser atribuída automaticamente a Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé.
Norma, registo e identidade
A colocação pode sinalizar simultaneamente variedade e registo. Compara:
| Forma | Leitura provável |
|---|---|
| Ajuda-me, por favor. | neutra em Portugal; formal ou monitorizada no Brasil |
| Me ajuda, por favor. | coloquial no Brasil; também possível em usos africanos específicos |
| Nunca me ajudaram. | natural nas diferentes normas, devido à negação |
| A Ana me explicou. | em Angola, possível em usos orais ou literários; não representa automaticamente Moçambique nem todas as situações angolanas |
| A Ana explicou-me. | em Angola ou Moçambique, pode ocorrer na escrita formal de padrão tradicional próximo da norma europeia; o uso real varia |
Ao escrever para um público definido, mantém um padrão coerente. Ao ouvir ou ler outras variedades, reconhece primeiro o sistema do falante antes de avaliar a colocação.
Adaptar sem hierarquizar
Neste curso, produzimos como base europeia vi-o, disseram-me e conta-me. Para compreender a diversidade, deves reconhecer me viu, me disseram e me conta nos contextos em que são naturais.
Para comparar exemplos:
- confirma se existe um fator como negação ou subordinação;
- identifica a variedade e o registo;
- distingue a fala espontânea da norma escrita ensinada;
- evita classificar uma inovação estável como simples “erro”;
- não suponhas que todos os países africanos partilham o mesmo padrão.
A variação na posição do clítico é estruturada: reflete gramáticas, tradições normativas e identidades linguísticas diferentes.
Decidir na prática
Ao escrever em português europeu, segue este percurso:
- Há negação, subordinador, interrogativo, advérbio ou outro fator de próclise? Usa próclise: Não me viu; Quando me viu, sorriu.
- Não há fator e a oração é principal afirmativa? Usa ênclise: Viu-me ontem.
- É futuro ou condicional num registo escrito? Usa mesóclise: Dir-lhe-ei amanhã.
- Há um complexo verbal? Verifica se o pronome fica no auxiliar ou no infinitivo: Vou-te dizer / vou dizer-te.
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Last updated August 23, 2026