B2 · Upper IntermediateLesson 3 of 4

Próclise e ênclise nas variedades do português

Descobre como a posição dos pronomes átonos, em próclise ou ênclise, varia entre Portugal, o Brasil e outras variedades do português. Nível B2.

Uma língua, vários padrões

A posição dos pronomes átonos é uma das diferenças mais visíveis entre as variedades do português. Uma frase natural em Lisboa pode soar formal no Brasil; uma ordem corrente em Luanda pode não coincidir com o modelo escolar europeu.

Contexto neutro Português europeu Português brasileiro coloquial
afirmação A Rita contou-me tudo. A Rita me contou tudo.
início da frase Disseram-me a verdade. Me disseram a verdade.
imperativo afirmativo Diz-me depois. Me diz depois.

As duas posições não indicam falta de lógica: pertencem a sistemas de uso diferentes.

“Português africano” não designa uma variedade única. Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau têm histórias sociolinguísticas e padrões próprios.

A base europeia

No português europeu, a ênclise é neutra em orações principais afirmativas sem fator de próclise:

  • Ela explicou-me o problema.
  • Os convidados sentaram-se.
  • Entrega-lhe esta carta.

A próclise surge com os fatores sintáticos adequados: Ela não me explicou; Sei que se sentaram; Quem lhe entregou a carta? Começar uma oração independente pelo clítico é evitado: usa-se Telefonaram-me, não Me telefonaram.

Fator de próclise Exemplos
negação Não me chamou; nunca me escreveu; nada me disseram.
advérbios lhe disse; ainda o não vi; também me chamou; só me avisaram; sempre me apoiou.
quantificadores e indefinidos Todos me viram; alguém te procurou; ninguém o sabe; tudo se resolveu.
oração subordinada Se me chamarem, vou; sei que se sentaram.
interrogativa ou exclamativa Quem lhe contou? Como me assustou!

Estes fatores atuam dentro da sua própria oração. Sem eles, numa principal afirmativa, a ênclise é a escolha europeia neutra.

Complexos verbais nas duas variedades

Quando há auxiliar ou infinitivo, as duas variedades tornam a diferença especialmente visível:

Estrutura Português europeu Português brasileiro coloquial
tempo composto tinha-me dito tinha me dito
futuro próximo vou dizer-te / vou-te dizer vou te dizer
estar a / estar + gerúndio está a ver-me está me vendo

No português europeu, a posição pode variar em alguns complexos; no brasileiro coloquial, a próclise junto do auxiliar é muito frequente.

Formas do clítico depois do verbo

Com o, a, os, as, a posição depois do verbo pode mudar a forma do pronome. Depois de -r, -s, -z, usa-se -lo/-la/-los/-las: comprá-lo, fá-lo, fi-lo. Depois de terminação nasal, usa-se -no/-na/-nos/-nas: dão-no, põem-na.

Estas formas fazem parte da norma europeia com ênclise. Na próclise brasileira, mantém-se normalmente a forma simples antes do verbo: me viu, o comprou.

Reconhecer brevemente a mesóclise

Com o futuro e o condicional, sem fator de próclise, a norma escrita europeia usa a mesóclise: dir-lhe-ei e contar-me-ia. Esta posição coloca o pronome dentro da forma verbal.

Com negação, o par é dir-lhe-ei / não lhe direi. A mesóclise é rara na conversa quotidiana e especialmente pouco comum no português brasileiro coloquial. Neste nível, basta reconhecê-la; o estudo detalhado pertence a uma lição própria.

Quick check

Try one question now.

1
No português europeu, numa oração principal afirmativa e neutra, dizemos: «A Marta os documentos ontem.»

Check your answer when you are ready. No sign-in needed.

O uso brasileiro

Na fala brasileira, a próclise é muito mais ampla e pode funcionar como posição habitual, mesmo sem um fator tradicional.

Portugal: A Joana encontrou-me ontem.

Brasil: A Joana me encontrou ontem.

Portugal: Conta-me o que aconteceu.

Brasil, uso coloquial: Me conta o que aconteceu.

Na escrita brasileira cuidada, a próclise depois de um sujeito expresso — A Joana me encontrou — está bem estabelecida. O início absoluto com clítico é muito corrente na fala e na escrita informal, mas manuais escolares e contextos muito formais podem preferir Conte-me ou Disseram-me.

O contraste central é, portanto, a posição neutra numa afirmação sem outro fator: o português europeu tende para A Joana encontrou-me, enquanto o português brasileiro usa normalmente A Joana me encontrou. Com negação, as duas variedades usam próclise: A Joana não me encontrou.

Variedades africanas

Na escrita formal de muitos contextos africanos, o modelo de referência aproxima-se tradicionalmente do europeu. Nos usos falados e literários, porém, encontra-se também próclise alargada:

  • padrão próximo do europeu: A Ana explicou-me.
  • próclise alargada: A Ana me explicou.

Em Angola e Moçambique, estas escolhas não têm necessariamente a mesma frequência nem aparecem nos mesmos contextos. Para o nível B2, o essencial é reconhecer que a norma escrita, a fala e a literatura podem mostrar padrões diferentes sem atribuir uma única regra aos dois países.

Não transformes esta tendência numa regra continental. Uma forma registada em Angola não deve ser atribuída automaticamente a Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé.

Norma, registo e identidade

A colocação pode sinalizar simultaneamente variedade e registo. Compara:

Forma Leitura provável
Ajuda-me, por favor. neutra em Portugal; formal ou monitorizada no Brasil
Me ajuda, por favor. coloquial no Brasil; também possível em usos africanos específicos
Nunca me ajudaram. natural nas diferentes normas, devido à negação
A Ana me explicou. em Angola, possível em usos orais ou literários; não representa automaticamente Moçambique nem todas as situações angolanas
A Ana explicou-me. em Angola ou Moçambique, pode ocorrer na escrita formal de padrão tradicional próximo da norma europeia; o uso real varia

Ao escrever para um público definido, mantém um padrão coerente. Ao ouvir ou ler outras variedades, reconhece primeiro o sistema do falante antes de avaliar a colocação.

Adaptar sem hierarquizar

Neste curso, produzimos como base europeia vi-o, disseram-me e conta-me. Para compreender a diversidade, deves reconhecer me viu, me disseram e me conta nos contextos em que são naturais.

Para comparar exemplos:

  1. confirma se existe um fator como negação ou subordinação;
  2. identifica a variedade e o registo;
  3. distingue a fala espontânea da norma escrita ensinada;
  4. evita classificar uma inovação estável como simples “erro”;
  5. não suponhas que todos os países africanos partilham o mesmo padrão.

A variação na posição do clítico é estruturada: reflete gramáticas, tradições normativas e identidades linguísticas diferentes.

Decidir na prática

Ao escrever em português europeu, segue este percurso:

  1. Há negação, subordinador, interrogativo, advérbio ou outro fator de próclise? Usa próclise: Não me viu; Quando me viu, sorriu.
  2. Não há fator e a oração é principal afirmativa? Usa ênclise: Viu-me ontem.
  3. É futuro ou condicional num registo escrito? Usa mesóclise: Dir-lhe-ei amanhã.
  4. Há um complexo verbal? Verifica se o pronome fica no auxiliar ou no infinitivo: Vou-te dizer / vou dizer-te.

You reached the end

You reached the end

Now make it stick.

Save your progress, or start the exercises. Practice with detailed feedback after you submit, or save your progress and come back.

Practice exercises

Was this lesson helpful?

Last updated August 23, 2026