[{"data":1,"prerenderedAt":-1},["ShallowReactive",2],{"grammar-page-pt-regencia-historica-literaria-e-variavel":3,"grammar-exercises-by-page-019f7f71-bf84-76f9-9bee-7e1da7af05e7":23},{"id":4,"title":5,"slug":6,"seoDescription":7,"content":8,"language":9,"level":10,"displayOrder":11,"grammarTopics":12,"createdAt":19,"updatedAt":20,"generatorCategories":21,"readyImages":22},"019f7f71-bf84-76f9-9bee-7e1da7af05e7","Regência histórica, literária e variável","regencia-historica-literaria-e-variavel","Explora como a regência verbal muda consoante a época, a variedade e o registo, do português histórico ao literário e coloquial atual. Nível C2.","## Tratar a regência como parte da construção\n\nA **regência** liga um verbo, nome ou adjetivo aos seus complementos. Essa ligação não é uma propriedade eterna de uma palavra isolada: pertence a uma construção com determinado sentido, numa época, variedade e situação.\n\n| Fator | Pergunta útil | Exemplo de contraste |\n| --- | --- | --- |\n| sentido lexical | Que significado tem o verbo? | *assistir **ao debate*** \u002F *assistir **o doente*** |\n| estrutura argumental | Quem experiencia e o que é lembrado? | *esqueci o nome* \u002F *esqueceu-me o nome* |\n| época | A construção era corrente no período? | uma regência antiga pode ter recuado |\n| variedade | Que norma e comunidade orientam o uso? | *chegar **a** Lisboa* \u002F *chegar **em** Brasília* |\n| género e registo | A forma é neutra, técnica ou literária? | *cabe-nos analisar* \u002F *cumpre-nos analisar* |\n\nEm *assistir ao debate*, **assistir a** significa presenciar. Em *assistir o doente*, o verbo direto significa prestar assistência. Não há apenas troca de preposição: há duas construções e dois sentidos.\n\n:::note\nUma forma antiga, regional ou literária pode ser plenamente interpretável sem ser a escolha neutra para um relatório contemporâneo. **Descrição histórica**, **aceitabilidade atual** e **recomendação editorial** são perguntas diferentes.\n:::\n\n## Ler a regência no seu tempo\n\nAo encontrar uma preposição inesperada num texto antigo, há pelo menos quatro hipóteses:\n\n1. o verbo tinha uma construção hoje rara ou perdida;\n2. o sentido lexical era diferente do atual;\n3. a obra representa uma variedade regional ou social;\n4. a edição conservou, modernizou ou regularizou a sintaxe da fonte.\n\nUma sequência antiga como *obedecer o rei* deve ser analisada como construção direta no texto em que ocorre. Inserir silenciosamente **a** — *obedecer ao rei* — produz uma modernização, não uma simples correção tipográfica. Para compreender o original, importa saber quem obedece, qual é a função de *o rei* e se a mesma regência aparece noutros textos do período.\n\nTambém uma preposição familiar pode ter outro valor. *Servir a alguém*, *servir alguém* e *servir para algo* distribuem participantes e sentidos diferentes. A semelhança lexical não autoriza a projetar automaticamente a construção contemporânea sobre a antiga.\n\n:::tip\nConsulta um dicionário histórico ou um corpus datado pela combinação completa — **verbo + preposição + tipo de complemento**. Uma ocorrência isolada mostra uma possibilidade; uma série contextualizada permite avaliar frequência e função.\n:::\n\n## Reconhecer construções que sobrevivem em nichos\n\nAlguns padrões antigos não desapareceram: concentram-se em fórmulas, escrita literária ou registos institucionais.\n\n| Construção | Organização sintática | Perfil atual aproximado |\n| --- | --- | --- |\n| **Esqueci o nome.** | experienciador como sujeito; objeto direto | corrente |\n| **Esqueci-me do nome.** | verbo pronominal; complemento com **de** | corrente no português europeu |\n| **Esqueceu-me o nome.** | o nome é sujeito; **me** é experienciador | literário ou marcado para muitos falantes |\n| **Cumpre-nos reconhecer o erro.** | experienciador\u002Fparticipante em dativo | formal e institucional |\n| **Apraz-me comunicar a decisão.** | conteúdo como sujeito; experienciador em dativo | cerimonioso ou literário |\n| **Pesa-me admitir o resultado.** | conteúdo como sujeito; experienciador em dativo | expressivo e cuidado |\n\n:::example\n*Esqueceu-me o nome da autora.*\n\nNão equivale estruturalmente a uma frase em que um sujeito omitido “esqueceu alguém”. **O nome da autora** é aquilo que se apagou da memória e controla a terceira pessoa de *esqueceu*; **me** identifica quem sofre essa falha de memória.\n:::\n\nEstas construções podem ser escolhidas para criar distância, ritmo ou uma voz de época. O facto de serem marcadas não as torna agramaticais; o facto de serem gramaticais não as torna neutras.\n\n## Distinguir alternância de mudança de sentido\n\nCertos verbos admitem mais de uma regência porque a estrutura altera o sentido ou a perspetiva.\n\n- **lembrar algo:** *Lembrei a data no momento certo.* — recuperar mentalmente ou trazer à memória, conforme o contexto;\n- **lembrar-se de algo:** *Lembrei-me da data.* — experienciar a recordação;\n- **lembrar algo a alguém:** *Lembrei o prazo à equipa.* — fazer alguém recordar;\n- **resultar de algo:** *O atraso resultou de uma falha.* — origem;\n- **resultar em algo:** *A falha resultou num atraso.* — consequência;\n- **concordar com alguém:** *Concordo com a relatora.* — partilhar posição com uma pessoa;\n- **concordar com algo:** *Concordo com a proposta.* — aceitar um conteúdo;\n- **concordar em algo:** *Concordaram em adiar a votação.* — chegar a acordo sobre uma ação.\n\nAs alternativas não devem ser tratadas como preposições livremente permutáveis. Em *resultar*, a troca inverte a direção causal; em *lembrar*, pode reorganizar sujeito, objeto e experienciador.\n\n:::warning\nNão escolhas uma preposição apenas por analogia com um sinónimo. *Recordar algo* e *lembrar-se de algo* aproximam-se no sentido, mas não têm a mesma estrutura.\n:::\n\n## Avaliar aceitabilidade em camadas\n\nEntre “neutro” e “impossível” existem vários estatutos:\n\n| Estatuto | Exemplo de situação | Decisão editorial possível |\n| --- | --- | --- |\n| norma europeia corrente | *assistir ao filme* | manter |\n| variante estável noutra norma | *assistir o filme* no português brasileiro | manter num texto brasileiro coerente |\n| construção literária ou formular | *apraz-me informar* | manter se o tom for intencional |\n| inovação ou uso oral variável | omissão de uma preposição selecionada | avaliar público e género |\n| cruzamento pouco reconhecível | mistura de duas regências | reformular |\n\nA escolarização, a profissão e o grau de monitorização influenciam os juízos, mas não criam uma fronteira única. Um falante pode compreender e usar uma construção na conversa, evitá-la numa candidatura e rejeitá-la num contrato.\n\nAs fontes de consulta também têm funções diferentes. Um dicionário descreve sentidos e construções registadas; uma gramática de referência analisa o sistema; um guia de estilo toma decisões para uma instituição. Nenhuma ocorrência literária isolada estabelece, por si só, a norma atual.\n\n## Construir uma voz literária sem imitação mecânica\n\nNa literatura, a regência pode caracterizar narrador, personagem, época ou ritmo. *Aprazia-lhe recordar aqueles dias* cria uma voz diferente de *Gostava de recordar aqueles dias*. Uma construção dativa como *doía-lhe abandonar a casa* põe a experiência no participante sem o transformar em sujeito gramatical.\n\nUm autor contemporâneo pode recuperar uma construção antiga de propósito. Esse **arcaísmo estilístico** funciona melhor quando se articula com léxico, ordem de palavras e formas de tratamento; uma preposição antiga isolada pode parecer erro ou afetação.\n\nAo editar literatura ou testemunho oral:\n\n- preserva a regência quando ela constrói voz ou identidade;\n- distingue erro de cópia de forma documentada;\n- acrescenta nota ou glossário se a interpretação não for recuperável;\n- não uniformiza falas de personagens segundo uma única norma;\n- assinala explicitamente qualquer modernização.\n\nModernizar *esqueceu-me o nome* para *esqueci-me do nome* conserva uma ideia geral, mas altera a arquitetura da experiência. Uma edição deve saber se pretende tradução intralinguística, atualização pedagógica ou reprodução filológica.\n\n## Situar padrões pluricêntricos\n\nAs regências distribuem-se de maneira diferente no espaço lusófono. Algumas tendências conhecidas podem orientar a leitura:\n\n- no português europeu cuidado, são neutros *assistir **ao** filme*, *chegar **a** Lisboa* e *obedecer **às** regras*;\n- no português brasileiro, *assistir o filme* e *chegar em Brasília* estão amplamente estabelecidos em muitos usos, embora guias formais possam recomendar outras formas;\n- a construção direta de *obedecer* também ocorre em diferentes usos brasileiros, ao lado de *obedecer a*;\n- nas variedades africanas, regências aprendidas pela tradição escolar coexistem com padrões locais e efeitos de contacto distintos em cada país.\n\nEsta distribuição não se resume a “Portugal conserva; Brasil inova”. Algumas variantes têm história antiga; outras expandiram-se de modo independente; outras resultam de reorganizações internas ou contacto. Para uma afirmação sobre Angola ou Moçambique, é necessário consultar dados dessas comunidades, não extrapolar de Portugal ou do Brasil.\n\n:::note\nNum texto dirigido a várias normas, uma reformulação lexical pode evitar que a regência se torne o centro da leitura: *ver o filme*, *chegar à cidade*, *cumprir as regras*. Isso é uma opção de comunicação, não uma declaração de que as variantes evitadas são erradas.\n:::\n\n## Rever sem apagar a história\n\nPara analisar ou editar uma regência:\n\n1. identifica a palavra regente e o sentido que ela tem no contexto;\n2. determina a função de cada complemento e participante;\n3. verifica época, variedade, género e perfil da voz;\n4. procura a construção completa em fontes adequadas;\n5. distingue alternância semântica de simples variação formal;\n6. decide se o objetivo é preservar, explicar ou modernizar;\n7. mantém coerência no texto contemporâneo sem corrigir citações;\n8. regista intervenções que alterem a sintaxe de uma fonte.\n\nUma leitura de C2 não pergunta apenas “qual é a preposição correta?”. Pergunta **correta para que sentido, em que sistema, em que momento e com que efeito**.","pt","C2",249,[13],{"id":14,"name":5,"level":10,"language":9,"isCompleted":15,"completionPercentage":16,"totalExercises":17,"completedExercises":16,"vocabularyLists":18},"019f7f71-bb47-79ea-95a1-99830abb1ff7",false,0,2,[],"2026-07-20T12:13:08+00:00","2026-07-20T12:15:37+00:00",[],[],[24,31],{"@id":25,"@type":26,"id":27,"grammarPage":28,"title":29,"instructions":30,"displayOrder":16,"isCompleted":15},"\u002Fapi\u002Fgrammar_exercises\u002F019f7f71-ef2a-72de-adb7-4f1ef7fe4f2a","GrammarExercise","019f7f71-ef2a-72de-adb7-4f1ef7fe4f2a","\u002Fapi\u002Fgrammar_pages\u002F019f7f71-bf84-76f9-9bee-7e1da7af05e7","Construção, história e dativos","Identifica a construção completa, interpreta regências históricas e distingue sujeitos, objetos e experienciadores.",{"@id":32,"@type":26,"id":33,"grammarPage":28,"title":34,"instructions":35,"displayOrder":36,"isCompleted":15},"\u002Fapi\u002Fgrammar_exercises\u002F019f7f71-ef51-7f48-b7c7-14267f0493fb","019f7f71-ef51-7f48-b7c7-14267f0493fb","Sentido, normas e edição","Distingue alternâncias semânticas, estatutos de aceitabilidade e decisões editoriais em diferentes normas e géneros.",1]