Sujeito e controlo nas orações infinitivas
Explora como o sujeito não expresso de uma oração infinitiva é interpretado através do controlo exercido pelo verbo principal da frase. Nível C1.
Um sujeito que nem sempre aparece
Uma oração infinitiva pode não apresentar sujeito expresso e, ainda assim, ser interpretada com um participante definido.
A Leonor prometeu ao Rui telefonar à noite.
Quem telefona é a Leonor, não o Rui. Diz-se que o sujeito de prometeu controla o sujeito não expresso de telefonar. A proximidade linear não decide a referência; contam o verbo principal, a estrutura e o significado.
O controlo responde à pergunta quem realiza o infinitivo?. É distinto da questão morfológica de usar ou não uma terminação pessoal.
Controlo pelo sujeito
Certos verbos associam normalmente o sujeito da oração principal ao sujeito do infinitivo.
| Frase | Sujeito de ambos os predicados |
|---|---|
| A Ana tentou abrir a porta. | a Ana tenta; a Ana abre |
| Os técnicos decidiram repetir o teste. | os técnicos decidem; os técnicos repetem |
| Prometemos ao cliente responder hoje. | nós prometemos; nós respondemos |
| A Marta conseguiu terminar a tempo. | a Marta consegue; a Marta termina |
Verbos como querer, tentar, conseguir, decidir e prometer favorecem este padrão. Em A Marta prometeu ao João sair cedo, ao João é destinatário da promessa; não passa a ser o sujeito de sair.
Não escolhas o referente por ser o nome mais próximo. Com prometer, o sujeito controla o infinitivo: A diretora prometeu aos técnicos rever o plano significa que a diretora o reverá.
Uma paráfrase finita torna a relação mais visível: A diretora prometeu aos técnicos rever o plano equivale a A diretora prometeu que ela reveria o plano. O pronome ela retoma a diretora, não os técnicos.
Controlo por um complemento
Outros verbos fazem com que um complemento da oração principal seja interpretado como sujeito do infinitivo.
| Frase | Quem realiza o infinitivo? |
|---|---|
| A diretora obrigou os técnicos a rever o plano. | os técnicos |
| A médica proibiu o doente de conduzir. | o doente |
| O professor ensinou os alunos a usar o programa. | os alunos |
| Disse ao Rui para fechar a janela. | o Rui |
As preposições fazem parte da construção selecionada: obrigar alguém a, proibir alguém de, ensinar alguém a, dizer a alguém para. O tipo de controlo é uma propriedade lexical e sintática do verbo, não uma preferência geral por sujeito ou complemento.
A Leonor prometeu ao Rui sair. — a Leonor sai: controlo pelo sujeito.
A Leonor autorizou o Rui a sair. — o Rui sai: controlo pelo complemento.
A posição dos participantes é semelhante, mas o verbo principal estabelece relações diferentes.
Graus de dependência do contexto
Nem todas as construções estabelecem a referência com o mesmo grau de rigidez.
- O diretor falou com o assessor antes de sair liga normalmente sair ao diretor; para atribuir a ação ao assessor, escreve-se antes de o assessor sair;
- A Marta pediu à Joana para sair mais cedo pode significar que a Marta pediu autorização para ela própria sair ou que pediu à Joana que saísse;
- O Rui trouxe o relatório para discutir na reunião pode deixar implícito se ele ou um grupo mais amplo o discutirá.
Nestes casos, explicita o sujeito ou reformula: antes de o assessor sair; pediu à Joana autorização para ela própria sair; para a equipa discutir na reunião.
Se uma oração infinitiva admitir dois controladores plausíveis, não esperes que a flexão resolva tudo. Dois antecedentes plurais continuam ambíguos em antes de saírem. Nomeia o participante.
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Sujeito próprio e referência arbitrária
Nem todo o sujeito de infinitivo é controlado por um argumento da oração principal.
| Tipo | Exemplo | Interpretação |
|---|---|---|
| sujeito próprio expresso | Saí antes de os convidados chegarem. | os convidados chegam |
| sujeito próprio implícito na flexão | É melhor sairmos agora. | nós saímos |
| referência genérica | Viajar sozinho exige prudência. | qualquer pessoa que viaje |
| referência contextual | É importante verificar os dados. | as pessoas responsáveis no contexto |
Na referência arbitrária, o sujeito não corresponde obrigatoriamente a uma expressão anterior; recebe uma leitura genérica ou institucional. É proibido fumar aplica-se a qualquer pessoa abrangida pela regra.
Um infinitivo flexionado pode ainda ter o mesmo referente da oração principal — saímos cedo para apanharmos o comboio. Portanto, flexão e controlo interagem, mas não são a mesma relação.
Quando flexionar o infinitivo
| Situação | Forma habitual em português europeu | Exemplo |
|---|---|---|
| sujeito próprio expresso | flexão necessária para concordar com esse sujeito | Saí antes de os convidados chegarem. |
| mesmo sujeito da oração principal | flexão opcional, conforme a clareza ou a ênfase | Saímos cedo para apanhar / apanharmos o comboio. |
| causativas e percetivas com o participante integrado | infinitivo não flexionado | Vimo-los entrar; mandámos os técnicos sair. |
A flexão não substitui a análise do controlo: pode tornar um referente visível, mas não altera a relação selecionada pelo verbo principal. Nas construções causativas e percetivas, não se diz vimo-los entrarem nem mandámo-los saírem neste padrão.
Controlo ou elevação
Com verbos de controlo, o sujeito participa semanticamente nas duas situações: em A Ana tentou sair, ela é quem tenta e quem sai.
Com parecer, o sujeito pertence semanticamente sobretudo à oração infinitiva:
- A Ana parece estar cansada — a Ana está cansada; parecer apresenta essa avaliação;
- Os dados parecem confirmar a hipótese — os dados confirmam; a confirmação é apresentada como aparente;
- Parece haver um erro — não é necessário introduzir uma pessoa ou coisa que “pareça”.
Este padrão chama-se elevação. O teste com haver ajuda: parece haver é possível, mas a Ana tentou haver um erro não é uma estrutura paralela. Também funciona a paráfrase finita: A Ana parece estar cansada corresponde a Parece que a Ana está cansada; em contraste, A Ana tentou sair não corresponde a «Tentou que a Ana saísse». Além de parecer, começar a, acabar por, costumar e ser capaz de podem apresentar comportamentos de elevação em construções adequadas. Distinguir elevação de controlo evita atribuir ao sujeito um papel que o verbo principal não lhe dá.
Para produzir frases claras, não é necessário dominar toda a análise formal da elevação. Basta reconhecer que parecer não seleciona um agente que decida ou tente realizar o infinitivo.
Causativos, percetivos e pronomes
Em Vimos os atletas entrar e mandámos os técnicos sair, os grupos os atletas e os técnicos são interpretados como sujeitos das ações infinitivas, embora ocorram na posição de complemento do verbo principal.
Com pronome átono, essa relação continua:
- Vimo-los entrar — eles entram;
- Mandámo-los sair — eles saem;
- Deixaram-me esperar — eu espero.
O caso do pronome e a posição junto do primeiro verbo não mudam quem realiza a ação encaixada. Estas construções têm integração mais forte do que para eles entrarem e favorecem o infinitivo não flexionado no português europeu; por isso, a flexão é bloqueada neste padrão.
Esta é uma descrição do português europeu. No português do Brasil, construções como A Marta pediu para a Joana sair são muito correntes, e as condições de uso do infinitivo flexionado não coincidem inteiramente com as do português europeu.
Diagnosticar a referência
Segue este percurso:
- coloca entre parênteses a oração infinitiva;
- procura um sujeito expresso ou uma terminação pessoal dentro dela;
- se o sujeito for nulo, identifica os participantes exigidos pelo verbo principal;
- testa se o verbo controla pelo sujeito ou por um complemento;
- considera uma leitura genérica ou dependente do contexto;
- distingue controlo de elevação com verbos como parecer;
- cria uma paráfrase finita e confirma quem pratica cada ação;
- explicita o sujeito se restarem duas leituras.
Assim, prometeu sair retoma quem promete; obrigou-o a sair atribui a saída ao complemento; é importante sair deixa o agente genérico ou contextual. O diagnóstico parte da arquitetura da frase, não da palavra mais próxima.
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Last updated August 23, 2026