B2 · Upper IntermediateLesson 1 of 3

Concordância temporal no discurso indireto

Aprende a concordância temporal necessária ao passar do discurso direto para o discurso indireto em português, integrando o conteúdo relatado, nível B2.

Mudar o ponto de referência

No discurso direto, reproduzimos as palavras a partir da situação original. No discurso indireto, integramos o conteúdo na perspetiva de quem relata.

Discurso direto: A Leonor disse: «Estou cansada.»

Discurso indireto: A Leonor disse que estava cansada.

A mudança de estou para estava mostra que o estado é observado a partir do momento passado de disse. A isto chama-se concordância ou sequência temporal.

Não se trata de concordância em pessoa ou número. Trata-se da relação entre o tempo do verbo introdutor e o tempo da informação relatada.

Esta página usa como base a norma europeia. Em muitas variedades do português brasileiro, também se ouve falar que e me perguntou se; o gerúndio é igualmente mais frequente em certas construções, como ele estava falando.

Verbo introdutor no presente

Se o verbo de comunicação está no presente, os tempos podem manter-se porque o relato parte do momento atual.

Discurso direto Discurso indireto
«Estou ocupada.» Ela diz que está ocupada.
«Terminei o relatório.» Ela afirma que terminou o relatório.
«Chegarei amanhã.» Ela diz que chegará amanhã.

Também são possíveis formas correntes como Ela diz que vai chegar amanhã. A escolha depende da maneira como o falante apresenta o futuro.

Verbo introdutor no passado

Com disse, explicou, afirmou, respondeu, é frequente deslocar os tempos para uma perspetiva passada.

Discurso direto Discurso indireto depois de disse que
presente: «Estou cansado.» imperfeito: estava cansado
pretérito perfeito: «Terminei.» mais-que-perfeito composto: tinha terminado
futuro: «Chegarei.» condicional: chegaria
futuro composto: «Terei terminado.» condicional composto: teria terminado
presente do conjuntivo: «Espero que estejas bem.» imperfeito do conjuntivo: esperava que eu estivesse bem
imperfeito: «Estava cansado.» imperfeito: estava cansado
mais-que-perfeito composto: «Já tinha terminado.» mais-que-perfeito composto: já tinha terminado

«Enviei o ficheiro e amanhã telefonarei.»

Ela disse que tinha enviado o ficheiro e que telefonaria no dia seguinte.

«Espero que estejas bem», disse a Marta. → A Marta disse que esperava que eu estivesse bem. Também: «Talvez seja tarde.» → Disse que talvez fosse tarde.

O imperfeito e o mais-que-perfeito não recuam mais: mantêm-se no relato. A mudança só é necessária quando a nova perspetiva temporal a pede.

O relato pode ter mais de um nível: Ela disse que ele lhe tinha prometido que telefonaria. A promessa é anterior ao ato de dizer (tinha prometido), e o telefonema é apresentado como posterior a essa promessa (telefonaria).

No registo escrito cuidado, o mais-que-perfeito simples também aparece: enviara e terminara podem alternar com tinha enviado e tinha terminado. Na fala, as formas compostas são mais frequentes.

Na fala europeia, o imperfeito também pode apresentar um futuro planeado: Ela disse que chegava no dia seguinte.

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A concordância temporal relaciona com ; não é uma concordância de .

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Perguntas, ordens e pedidos

Uma pergunta total passa frequentemente a ser introduzida por se; uma pergunta parcial conserva a palavra interrogativa.

  • «Já enviaste a candidatura?» → Perguntou-me se já tinha enviado a candidatura.
  • «Quando chegarás?» → Perguntou-me quando chegaria.
  • «Onde está o Pedro?» → Perguntou onde estava o Pedro. Também é possível: Perguntou onde o Pedro estava. Numa interrogativa indireta, o sujeito pode vir depois ou antes do verbo.
  • «O que é que fizeste?» → Perguntou o que eu tinha feito.

O imperativo transforma-se normalmente numa oração com conjuntivo ou numa construção de infinitivo.

  • «Fecha a porta.» → Pediu-lhe que fechasse a porta.
  • «Esperem aqui.» → Pediu-lhes para esperarem ali.

Pedir que + conjuntivo (Pediu que fechassem a porta) e pedir para + infinitivo flexionado (Pediu para os alunos fecharem a porta) são escolhas de regência verbal. São úteis neste contexto, mas não constituem uma mudança de tempo.

Escolhe um verbo introdutor que mantenha a intenção: dizer/afirmar para declarações, perguntar para perguntas e pedir/ordenar para diretivas.

Pessoas, lugares e expressões de tempo

Além dos verbos, podem mudar pronomes, possessivos, demonstrativos e expressões dêiticas.

Situação original Perspetiva posterior
hoje naquele dia
ontem no dia anterior / na véspera
amanhã no dia seguinte
agora naquele momento / então
aqui ali / lá
este esse / aquele, conforme a distância

Os verbos de movimento também podem mudar com a perspetiva. Por exemplo: «Vem cá amanhã», disse a Marta. → A Marta pediu-me para eu ir lá no dia seguinte. A alternância entre vir e ir depende do lugar de referência, não da sequência temporal.

Não faças substituições cegas. Se o relato ocorre no mesmo dia e lugar, hoje e aqui podem continuar adequados.

Na frase «Eu levo-te o meu livro amanhã», disse a Inês ao Rui, cada mudança tem uma razão:

No discurso direto No discurso indireto Razão
te lhe o destinatário, Rui, passa a ser referido na terceira pessoa
o meu livro o livro dela o livro pertence à Inês, que passa a ser referida na terceira pessoa
amanhã no dia seguinte o ponto de referência passa para o momento em que a Inês falou

Assim: A Inês disse ao Rui que lhe levaria o livro dela no dia seguinte.

A oração introduzida por que atrai o pronome para antes do verbo: Levo-te o livro → Disse que te levava o livro. Não escrevas Disse que levava-te o livro.

Quando os tempos se mantêm

A sequência tradicional não é mecânica. O presente pode manter-se se a informação continua válida:

  • O professor disse que a Terra gira à volta do Sol.
  • A Marta disse que vive em Braga. — o relator apresenta a situação como atual.
  • A Marta disse que vivia em Braga. — o relator limita a situação à perspetiva passada, sem afirmar que ainda vive lá.

O pretérito perfeito também pode manter-se quando o relator ancora claramente o facto num momento passado: Ela disse agora mesmo que chegou ontem. A forma tinha chegado destaca, em vez disso, que a chegada é anterior ao ato de dizer.

Para rever, identifica primeiro o momento da fala original, depois o momento do relato e, finalmente, aquilo que ainda é válido. A concordância temporal serve a perspetiva e o sentido; não é uma tabela de trocas obrigatórias.

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Last updated October 11, 2026