Elipse, repetição, substituição e paralelismo
Aprende a decidir o que repetir, o que substituir e o que omitir num texto coeso, usando elipse, substituição e paralelismo com correção, no nível C1.
Entre dizer de novo e deixar implícito
Um texto coeso não evita toda a repetição: decide o que repetir, o que substituir e o que omitir. Compara:
| Estratégia | Exemplo | Efeito principal |
|---|---|---|
| repetição | O relatório define três critérios. Os critérios aplicam-se a todos os casos. | mantém um termo preciso |
| substituição | O relatório define três critérios. Estes aplicam-se a todos os casos. | retoma sem repetir o nome |
| elipse | A equipa analisou os dados; a direção, os custos. | omite material recuperável |
| elipse nominal | A versão longa e a Ø curta foram revistas. | omite um nome já recuperável |
| paralelismo | O plano visa reduzir custos, simplificar processos e melhorar prazos. | torna relações equivalentes visíveis |
Estas estratégias não são ornamentos independentes. A elipse e a substituição pressupõem uma fonte interpretável; o paralelismo ajuda o leitor a reconstruir o que falta; a repetição intervém quando omitir ou variar criaria ambiguidade.
Nesta página, o símbolo Ø marca a posição de material omitido. É apenas uma marca de análise: não se escreve na frase.
A elipse depende da recuperabilidade
Na elipse, um constituinte não é pronunciado nem escrito, mas a estrutura e o contexto permitem recuperá-lo. O português omite frequentemente o sujeito: Entregámos o artigo e Ø aguardamos a decisão. A terminação verbal identifica a primeira pessoa do plural.
Também se pode omitir um predicado partilhado:
- A Leonor escolheu a versão longa; o Miguel, a curta. — recupera-se escolheu;
- Uns defendem a reforma; outros, a manutenção do sistema. — recupera-se defendem;
- A primeira fase durou seis meses e a segunda, apenas dois. — recupera-se durou.
Esta elipse do verbo é produtiva em comparações, quadros de resultados e enumerações contrastivas. Distingue-se da elipse do sujeito: aqui, omite-se um predicado partilhado. A vírgula pode assinalar o lugar do predicado omitido, mas não cria, por si só, uma interpretação clara.
Também ocorre em comparações: A Ana leu mais páginas do que o Rui Ø. Depois de o Rui, recupera-se leu.
Também se pode omitir um nome já expresso quando os determinantes e adjetivos permitem recuperá-lo: a versão longa e a curta; o meu carro e o teu; as propostas aprovadas e as rejeitadas.
Não omitas informação apenas porque ela apareceu antes. Em A equipa entrevistou os gestores depois de os técnicos analisarem os dados e Ø apresentarem as conclusões, o sujeito de apresentarem é incerto. Repõe os técnicos ou os gestores, conforme o sentido.
Substituir uma expressão ou uma ação
Pronomes, demonstrativos e expressões substitutivas evitam a repetição de segmentos recuperáveis.
| Elemento | Retoma típica | Exemplo |
|---|---|---|
| o/a/os/as | grupo nominal definido | Revimos a proposta e aprovámo-la. |
| lhe/lhes | complemento introduzido por a | Expusemos o problema à direção e pedimos-lhe apoio. |
| este/esse/isso | entidade ou conteúdo discursivo | O prazo foi alargado. Isso permitiu novas candidaturas. |
| fazê-lo | ação ou processo | A comissão prometeu publicar os dados e fê-lo ontem. |
| assim | modo ou configuração | Decidiram numerar os casos por data de entrada e organizaram todo o anexo assim. |
| sim/não | resposta a uma proposição | Perguntaram se aceitava e respondeu que sim. |
Em português europeu, os pronomes átonos obedecem às regras de colocação: aprovámo-la, mas não a aprovámos. Fazê-lo pode retomar uma ação, mas não substitui automaticamente uma afirmação inteira. Por exemplo, em Afirmou que o problema estava resolvido e afirmou-o de novo na reunião, afirmou-o retoma o conteúdo da afirmação; e fê-lo de novo não torna esse conteúdo suficientemente explícito.
No português europeu, dizemos normalmente Comprei o livro e li-o. No português do Brasil, é frequente omitir esse objeto quando ele já é claro: Comprei o livro e li. A fronteira entre elipse e substituição depende, por isso, da variedade.
Expressões como o mesmo e a mesma são adequadas quando significam “a mesma entidade” ou “a mesma ação”: A Rita escolheu a opção B e o Paulo fez o mesmo. Evita usá-las como simples substitutos burocráticos de ele, ela ou isso.
Repetir pode ser a escolha mais precisa
A variação lexical excessiva pode sugerir uma mudança de referente. Num texto jurídico ou científico, alternar participantes, inquiridos, respondentes e sujeitos só para não repetir pode levar o leitor a procurar distinções inexistentes.
A repetição é especialmente útil quando:
- mantém um termo técnico estável;
- reabre uma cadeia depois de várias frases;
- distingue dois referentes do mesmo género e número;
- marca as etapas de uma demonstração;
- produz ênfase deliberada.
Sem critérios públicos, não há avaliação verificável. Sem critérios públicos, também não há possibilidade de contestar a decisão.
A repetição inicial cria paralelismo e apresenta duas consequências no mesmo plano. Se não houver intenção argumentativa, pode condensar-se: Sem critérios públicos, não há avaliação verificável nem possibilidade de contestação.
Quick check
Try one question now.
Check your answer when you are ready. No sign-in needed.
O paralelismo mostra equivalência
Elementos coordenados devem ter uma forma compatível quando desempenham a mesma função. O paralelismo ajuda a reconhecer essa equivalência.
| Estrutura desequilibrada | Estrutura paralela |
|---|---|
| O estudo procura analisar os dados e a identificação das causas. | O estudo procura analisar os dados e identificar as causas. |
| A medida é útil, de baixo custo e pode aplicar-se rapidamente. | A medida é útil, económica e rápida de aplicar. |
| Os candidatos devem entregar o formulário, que paguem a taxa e comparecer à entrevista. | Os candidatos devem entregar o formulário, pagar a taxa e comparecer à entrevista. |
Não é obrigatório que todos os membros tenham o mesmo número de palavras. É essencial que a coordenação não force o leitor a mudar de análise a meio da sequência.
Pares correlativos e alcance lógico
Construções como não só... mas também, quer... quer, tanto... como e por um lado... por outro criam uma expectativa de simetria. Os elementos ligados devem começar no mesmo nível.
- equilibrado: A reforma alterou não só os critérios, mas também os prazos;
- equilibrado: A reforma não só alterou os critérios, mas também reduziu os prazos;
- desequilibrado: A reforma não só alterou os critérios, mas também os prazos.
Na última frase, a primeira parte contém um predicado, mas a segunda apresenta apenas um grupo nominal. A posição de não só deve revelar exatamente o contraste pretendido.
Depois de cada membro do par correlativo, sublinha a unidade coordenada. Se sublinhares um verbo de um lado e um nome do outro, reposiciona o primeiro marcador ou reconstrói a frase.
Quando a omissão altera o sentido
Uma elipse pode distribuir de forma inesperada a negação, a modalidade ou um complemento:
| Formulação | Leitura provável |
|---|---|
| A Ana não reviu o texto, nem o Rui. | nenhum dos dois reviu o texto |
| A Ana pode rever o texto e o Rui, os anexos. | pode rever aplica-se aos dois |
| A Ana enviou o texto ao editor e o Rui, ao autor. | recupera-se enviou o texto |
Se apenas parte do predicado for comum, a reconstrução pode falhar. Em O sistema associou o ficheiro à pasta e o programa, à etiqueta, o programa pode ser outro elemento associado à etiqueta ou o sujeito de uma nova oração que associa o ficheiro à etiqueta. Se essa diferença importar, repõe o verbo ou o objeto. A economia formal deixa de compensar a ambiguidade.
Rever a arquitetura da frase
Na revisão de um texto:
- identifica o antecedente de cada pronome ou expressão substitutiva;
- reconstrói em voz alta todo o material omitido;
- confirma que sujeito, tempo, modalidade e negação se mantêm;
- compara a forma dos elementos coordenados;
- verifica o alcance de pares como não só... mas também;
- repõe o termo técnico quando a variação sugere uma diferença falsa;
- conserva a repetição que organiza o raciocínio ou produz ênfase;
- elimina apenas a redundância que não ajuda a interpretar.
A coesão madura não se mede pelo menor número de palavras repetidas. Resulta de uma alternância controlada entre presença e ausência, capaz de preservar relações sintáticas, referentes e contrastes.
You reached the end
You reached the endNow make it stick.
Save your progress, or start the exercises. Practice with detailed feedback after you submit, or save your progress and come back.
Was this lesson helpful?
Last updated October 11, 2026