Anáfora, catáfora e cadeias referenciais
Construir continuidade referencial
Um texto introduz entidades e volta a elas por meio de nomes, pronomes, omissões e descrições. O conjunto de expressões que remetem para o mesmo referente forma uma cadeia referencial:
Uma investigadora portuguesa apresentou o projeto. A linguista explicou que Ø recolhera os dados em três escolas. Segundo ela, o estudo continuará no próximo ano.
Uma investigadora portuguesa, a linguista, o sujeito omitido de recolhera e ela referem a mesma pessoa. O projeto e o estudo podem ou não coincidir: essa relação precisa de ser estabelecida pelo contexto, não apenas pela proximidade.
Anáfora, catáfora e referência situacional
A direção da interpretação permite distinguir três relações.
| Relação | Onde está a informação identificadora? | Exemplo |
|---|---|---|
| anáfora | antes da expressão | A proposta foi rejeitada. Essa decisão surpreendeu-nos. |
| catáfora | depois da expressão | Só defendemos isto: que os dados sejam públicos. |
| deixis | na situação de comunicação | Este documento deve ser assinado hoje. |
Na anáfora, o leitor olha para trás; na catáfora, adia a identificação até encontrar o segmento anunciado. Na deixis, a expressão pode depender do objeto mostrado, do lugar, do momento ou dos participantes da interação.
Uma forma não pertence exclusivamente a uma relação. Isto pode apontar para algo presente ou anunciar conteúdo; isso pode retomar uma frase anterior. É o funcionamento no contexto que determina a análise.
Da menção plena à forma reduzida
Em geral, uma entidade nova recebe uma expressão informativa: uma nova diretora do laboratório. Enquanto continuar acessível, pode ser retomada por a diretora, ela ou por um sujeito nulo. A redução acompanha a acessibilidade:
- introdução: Uma nova diretora assumiu o laboratório;
- manutenção: A diretora apresentou o plano;
- continuidade imediata: Ø anunciou também duas bolsas;
- reativação após uma digressão: A nova diretora voltou então a intervir.
Não se trata de uma escala automática. Se houver dois referentes compatíveis, a forma reduzida pode deixar de ser suficiente.
Em A diretora falou com a coordenadora quando ela chegou, ela admite duas leituras. A proximidade não resolve necessariamente a referência. Escreve quando a diretora chegou ou quando a coordenadora chegou.
Sujeitos nulos e pronomes átonos
O português europeu permite omitir sujeitos quando a flexão verbal e o contexto os tornam recuperáveis: Os peritos analisaram o processo. Ø Pediram novos documentos. A terceira pessoa do plural e a continuidade favorecem os peritos como sujeito de pediram.
Se outra entidade plural intervier, a cadeia enfraquece:
Os peritos reuniram com os advogados. Ø Pediram novos documentos.
Quem pediu os documentos? A forma verbal não distingue os dois grupos. A repetição de os peritos ou os advogados é informativamente necessária.
Os pronomes átonos marcam a função, mas não identificam sempre o referente: A diretora entregou a proposta à ministra e informou-a do prazo retoma normalmente a ministra; entregou-lhe a proposta apresenta-a como destinatária. Com vários nomes femininos singulares, porém, até a ou lhe pode exigir uma menção plena.
Retomar e ao mesmo tempo classificar
Uma anáfora nominal pode acrescentar uma interpretação ao conteúdo anterior.
| Segmento anterior | Retoma | Classificação introduzida |
|---|---|---|
| O município encerrou a biblioteca. | Esta decisão gerou protestos. | ato deliberado |
| Os resultados variaram entre amostras. | Esta instabilidade exige cautela. | avaliação do padrão |
| Talvez o método favoreça grupos maiores. | Essa hipótese será testada. | estatuto epistémico |
| A equipa perdeu metade dos registos. | O incidente atrasou o estudo. | acontecimento problemático |
Estas anáforas encapsuladoras transformam uma oração ou sequência num objeto de discurso. A escolha do nome orienta o argumento: chamar falha ao que antes se descreveu apenas como alteração acrescenta uma avaliação que deve ser justificada.
O prazo foi reduzido sem consulta e os critérios mudaram depois da abertura do concurso. Estas alterações impediram vários candidatos de concluir o processo.
Estas alterações reúne dois acontecimentos numa só entidade plural. Já esta irregularidade apresentaria os mesmos factos como violação de uma norma e exigiria fundamento adicional.
Relações associativas não são correferência
Nem toda a retoma designa exatamente a mesma entidade. Em Entrámos num teatro. O palco estava vazio, o palco é interpretável por associação com um teatro, mas não é o mesmo referente. Esta relação é frequentemente chamada anáfora associativa ou indireta.
Compara:
- Comprei um livro. A obra ganhou um prémio. — duas expressões podem referir o mesmo objeto;
- Comprei um livro. O autor ganhou um prémio. — relação associativa;
- Analisei um relatório. O documento tinha 80 páginas. — correferência provável;
- Analisei um relatório. A conclusão era frágil. — relação parte–todo.
O artigo definido apresenta o novo elemento como identificável, mas a associação tem de ser plausível. Entrei num edifício. A incubadora estava vazia não funciona sem conhecimento contextual que ligue essa incubadora ao edifício.
Catáfora: anunciar sem desorientar
A catáfora cria expectativa e pode destacar uma formulação posterior:
- Há duas condições: que o pedido seja entregue hoje e que inclua os anexos;
- A conclusão é esta: o modelo não explica os dados;
- Quando ele entrou na sala, o presidente do júri pediu silêncio.
Nos dois primeiros casos, dois-pontos ou uma construção identificadora delimitam claramente o conteúdo anunciado. No terceiro, o pronome precede o grupo nominal e obriga a uma interpretação provisória. Este padrão é possível, mas torna-se pesado se houver outros referentes masculinos ou uma grande distância.
Usa a catáfora quando o anúncio preparar uma unidade curta e bem delimitada. Se o referente só aparecer várias linhas depois, apresenta primeiro o nome completo.
Demonstrativos e distância discursiva
Em português europeu, este, esse e aquele podem organizar contrastes, mas o seu valor textual não se reduz mecanicamente a “mais perto” e “mais longe”. Em A Marta escreveu à Joana, mas esta não respondeu, esta tende a selecionar a entidade mencionada em último lugar. Esta solução é cuidada, mas nem sempre soa natural e pode falhar em cadeias longas.
Isso retoma facilmente uma proposição: A taxa aumentou. Isso afetou a procura. Isto introduz com frequência o que se segue: Importa esclarecer isto: a taxa não é um imposto. São tendências de uso, não instruções para resolver qualquer ambiguidade.
Repetir o nome é muitas vezes mais transparente do que obrigar o leitor a calcular a posição de cada antecedente.
Auditar uma cadeia referencial
Para rever um parágrafo:
- assinala a primeira menção de cada entidade;
- liga cada pronome, sujeito nulo e descrição ao referente pretendido;
- verifica concordância, função sintática e compatibilidade semântica;
- procura concorrentes do mesmo género e número;
- distingue correferência, relação associativa e retoma de uma proposição;
- confirma se nomes como decisão, falha ou progresso acrescentam avaliação;
- encurta catáforas demasiado longas;
- reintroduz uma expressão nominal plena depois de uma mudança de tópico.
Uma cadeia eficaz permite saber de quem ou de quê se fala e também perceber como esse referente é recategorizado ao longo do argumento. A variedade formal só é vantajosa enquanto essa continuidade permanecer nítida.
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Vocabulary in this lesson
Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.
Last updated July 20, 2026