Regência verbal avançada
Aprende regência verbal avançada e como a preposição escolhida depois de um verbo pode alterar completamente o seu sentido final na frase. Nível B2.
O verbo seleciona a relação
A regência verbal determina se um complemento se liga diretamente ao verbo ou por meio de uma preposição. Num nível avançado, a escolha pode também alterar o sentido do verbo.
No fim desta lição, vais poder:
- distinguir complementos diretos de complementos com preposição;
- escolher a construção de acordo com o sentido do verbo;
- manter a preposição em orações com que e em pronomes relativos.
| Construção | Sentido | Exemplo |
|---|---|---|
| aspirar algo | inalar | Evite aspirar o fumo. |
| aspirar a algo | ambicionar | Ela aspira a um cargo internacional. |
| proceder a algo | realizar | Procederam à revisão dos dados. |
| proceder de algo | ter origem | O ruído procede do motor. |
| resultar de algo | indicar a causa | O atraso resultou de uma avaria. |
| resultar em algo | indicar o efeito | A avaria resultou num atraso. |
Aprende verbo + construção + sentido como uma unidade. Memorizar apenas a preposição não basta quando o mesmo verbo admite várias estruturas.
Regências que mudam o significado
Outros verbos apresentam contrastes semelhantes.
- implicar algo: pressupor ou acarretar — A mudança implica custos.
- implicar alguém em algo: envolver — Implicaram o funcionário no caso.
- implicar com alguém: provocar ou embirrar — Ele implica sempre com o irmão.
- recorrer a alguém/algo: pedir ajuda ou usar um recurso — Recorremos a um especialista.
- recorrer de uma decisão: apresentar recurso jurídico — A defesa recorreu da sentença.
- reclamar algo: exigir — Os trabalhadores reclamaram melhores condições.
- reclamar de/contra algo: queixar-se — Reclamaram do serviço.
No sentido de acarretar, em português europeu cuidado usa-se normalmente implicar algo, sem em: A medida implica custos. No português do Brasil, implicar em com este sentido é comum; no padrão europeu, é geralmente evitado.
Alguns contrastes clássicos mostram como a construção pode mudar o sentido:
| Construção | Sentido | Exemplo |
|---|---|---|
| assistir a algo / assistir alguém | ver / prestar assistência | Assistimos ao filme. / A enfermeira assistiu o doente. |
| esquecer algo / esquecer-se de algo | construção direta, sem pronome / construção pronominal com de | Esqueci a carteira. / Esqueci-me da carteira. |
| lembrar algo / lembrar-se de algo | evocar / recordar-se | A fotografia lembra a infância. / Lembro-me da infância. |
| visar algo / visar a algo | autenticar / ter como objetivo | O funcionário visou o documento. / A medida visa à redução de custos. |
No uso atual, visar algo, com o sentido de “ter por objetivo”, também é amplamente aceite: A medida visa a redução de custos.
Pessoa, coisa e preposição
Alguns verbos organizam dois complementos com funções diferentes.
| Estrutura | Exemplo |
|---|---|
| informar alguém de/sobre algo | Informei a equipa da alteração. |
| informar algo a alguém | Informei a alteração à equipa. |
| avisar alguém de algo | Avisaram-nos do risco. |
| convencer alguém de algo | Convenceu-me da necessidade da mudança. |
| induzir alguém a algo | O anúncio induziu os clientes a comprar. |
| agradecer algo a alguém | Agradeci a ajuda à Marta. |
| preferir X a Y | Prefiro o comboio ao avião. |
O pronome mantém a função da pessoa: Informei-o da alteração; Agradeci-lhe a ajuda.
Nas frases afirmativas independentes em português europeu, estes pronomes aparecem normalmente depois do verbo: Avisaram-nos do risco; Convenceu-me da necessidade; Informei-o da alteração. Com um fator de próclise, a posição muda: Não me convenceu da necessidade.
Esta página segue o padrão europeu, em que informar alguém de/sobre algo e Informei-o da alteração são construções correntes. No português do Brasil, encontra-se com frequência informar a alguém e informei-lhe, sobretudo quando se destaca a pessoa informada.
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Preposição antes de uma oração
Se o verbo exige preposição, ela mantém-se quando o complemento é uma oração introduzida por que.
- Insistiu em que revíssemos o contrato.
- Duvido que a proposta seja aceite. / Duvido de que a proposta seja aceite.
- Certificou-se de que todas as portas estavam fechadas.
- Opôs-se a que alterassem o regulamento.
Nome: Duvido dessa informação.
Oração: Duvido que essa informação esteja correta. / Duvido de que essa informação esteja correta.
Não elimines a preposição quando o verbo a exige. A queda da preposição antes de que é chamada frequentemente queísmo. Porém, com duvidar, duvido que e duvido de que são ambas formas aceites no português europeu culto; de que pode soar mais explícito ou formal.
O movimento contrário chama-se dequeísmo: acrescentar de quando o verbo não o pede. São incorretas formas como ✗ Penso de que a reunião começa cedo e ✗ Disse-me de que chegaria tarde. Diz Penso que… e Disse-me que….
Relativos e substituições
A preposição aparece também antes de um pronome relativo:
- É o objetivo a que ela aspira.
- É o objetivo de que ela duvida.
- É o objetivo em que ela insiste.
Escolhe o pronome segundo a função do complemento:
| Função | Substituição | Exemplo |
|---|---|---|
| complemento direto | o/a/os/as | Informei o diretor da alteração → Informei-o da alteração. |
| complemento indireto de pessoa | lhe/lhes | Agradeci a ajuda à Marta → Agradeci-lhe a ajuda. |
| complemento oblíquo com a | a ele/a ela; a isso | Recorremos ao técnico → Recorremos a ele; recorrer a esse método → recorrer a isso. |
| complemento oblíquo com de | dele/dela; disso | Duvido da proposta → Duvido dela. |
| complemento oblíquo com em | nele/nela; nisso | Insistiu no prazo → Insistiu nisso. |
Nem todo complemento preposicionado pode ser substituído por lhe. Em proceder à análise, dizemos proceder a ela ou reformulamos; não dizemos proceder-lhe com o sentido de realizar.
Também podes usar nisso para retomar em + algo: Insistiu no prazo → Insistiu nisso.
Rever pela estrutura e pelo uso
Para confirmar uma regência:
- identifica o sentido exato do verbo;
- separa a pessoa, a coisa, a causa e o resultado;
- conserva a preposição perante que ou um relativo;
- faz as contrações necessárias: ao cargo, da sentença, num atraso;
- consulta um dicionário quando houver variação de norma ou de registo.
Há variação concreta entre norma e uso. Em texto europeu cuidado, a construção recomendada é preferir X a Y: Prefiro o comboio ao avião. Na fala coloquial, também se ouve preferir X do que Y. Num texto formal, a coerência com o sentido e com a variedade escolhida é mais segura do que aplicar uma lista sem contexto.
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Construções de regência verbal avançada
29 wordsLast updated October 11, 2026