Seu, dele e desambiguação da posse
Aprende a usar dele, dela, deles e delas para desfazer a ambiguidade das formas seu, sua, seus e suas quando o possuidor não é claro. Nível B1.
As formas seu, sua, seus, suas podem apontar para diferentes possuidores. Quando o contexto não é claro, dele, dela, deles, delas identifica a pessoa com precisão.
No fim desta lição, vais poder:
- fazer a concordância de seu com o objeto possuído;
- reconhecer uma referência ambígua;
- escolher dele/dela/deles/delas para indicar o possuidor.
Seu concorda com aquilo que é possuído
Recorda: seu, sua, seus, suas concordam com o nome possuído, não com o possuidor: o seu livro, as suas chaves.
Em português europeu, usa-se normalmente o artigo definido: o seu livro, a sua mochila.
Porque é que seu pode ser ambíguo
Seu pode referir-se a ele, ela, eles, elas e também ao interlocutor tratado por você, o senhor ou a senhora.
A Ana falou com o Pedro sobre o seu projeto.
Esta frase permite várias leituras: o projeto pode ser da Ana, do Pedro ou da pessoa com quem o falante conversa.
O contexto resolve muitas dúvidas, mas uma frase importante não deve obrigar o leitor a adivinhar.
No português do Brasil, seu/sua refere-se muitas vezes a você; para a terceira pessoa, usa-se muito dele/dela. Esta distribuição torna o seu projeto particularmente ambíguo.
Posse de coisas e de seres não humanos
Para indicar posse de uma coisa, de + artigo + nome costuma ser a forma mais clara: o telhado da casa, as páginas do livro, a porta do carro. Também se usa com animais: a coleira do cão ou o dono dele. Num contexto inequívoco, também são possíveis a casa e o seu telhado ou comprei a casa e gostei do telhado dela.
Dele e dela identificam o possuidor
Dele resulta de de + ele; as outras formas seguem o género e o número do possuidor.
| Possuidor | Forma | Exemplo |
|---|---|---|
| ele | dele | o projeto dele |
| ela | dela | o projeto dela |
| eles | deles | o projeto deles |
| elas | delas | o projeto delas |
Estas formas não concordam com a coisa possuída: dizemos o carro dela e as chaves dela.
Depois do nome, podem aparecer com artigo definido ou indefinido: o carro dela / um amigo dela. A contração é obrigatória: diz dele, não de ele.
Cujo e de quem
Na escrita cuidada, cujo, cuja, cujos, cujas liga um possuidor ao nome possuído e concorda com esse nome: A Ana falou com o Pedro, cujo projeto foi aprovado; os alunos, cujas propostas foram escolhidas, receberam uma mensagem. Assim, fica claro que o projeto é do Pedro e que as propostas são dos alunos.
Para perguntar diretamente e desfazer a dúvida, usa de quem: De quem é o projeto? — É do Pedro. Ao contrário de cujo, de quem não concorda com o nome possuído.
Dele, dela, deles e delas referem-se apenas a terceiras pessoas. Não substituem o tratamento formal: o seu projeto, senhor Silva não é o mesmo que o projeto dele.
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Reescrever uma frase ambígua
| Intenção | Frase clara |
|---|---|
| o projeto pertence à Ana | A Ana falou com o Pedro sobre o projeto dela. |
| o projeto pertence ao Pedro | A Ana falou com o Pedro sobre o projeto dele. |
| há um projeto comum aos dois | A Ana falou com o Pedro sobre o projeto deles. |
| o projeto pertence ao interlocutor | Falaram sobre o seu projeto, senhor Silva. |
Além de trocar seu por dele/dela/deles/delas, há outras estratégias:
- Repetir o nome: em vez de A Ana falou com o Pedro sobre o seu projeto, escreve A Ana falou com o Pedro sobre o projeto da Ana.
- Usar próprio: A Ana pediu ao Pedro que defendesse o seu próprio projeto deixa claro que o projeto é do Pedro. Já A Ana pediu ao Pedro que defendesse o projeto dele pode precisar de contexto para sabermos de que homem se fala.
- Reorganizar a frase: O projeto da Ana foi o assunto da conversa entre a Ana e o Pedro apresenta primeiro o possuidor e evita a leitura dupla.
Na escrita cuidada, cujo, a repetição do nome e, em textos administrativos, do referido projeto são soluções naturais. O projeto dele é muito corrente na língua do dia a dia; num texto formal, pode soar demasiado coloquial, embora não esteja errado.
Se há duas ou mais pessoas possíveis, substitui mentalmente seu por dele/dela/deles/delas e escolhe a referência pretendida.
Teu, seu e vosso na interlocução
Na comunicação direta, a forma depende do tratamento.
- Com tu: Qual é o teu nome?
- Com você, o senhor ou a senhora: Qual é o seu nome?
- Com várias pessoas tratadas por vocês: Qual é a vossa opinião?
- Para falar de terceiros: Qual é a opinião deles?
O uso de vosso e seu varia no mundo lusófono. Em português europeu, vosso é uma forma corrente para vários interlocutores. No português do Brasil, diz-se normalmente a opinião de vocês; vosso é usado sobretudo em português europeu. Dele/dela continua útil para terceiros.
Numa carta, convém distinguir o interlocutor de uma terceira pessoa: Exmo. Senhor Rui, agradeço o seu parecer sobre a proposta. O Pedro enviou-me também o parecer dele; compararei o seu com o dele antes da reunião. Aqui, seu dirige-se ao Senhor Rui e dele refere-se ao Pedro.
Resumo prático
- Faz seu/sua/seus/suas concordar com o nome possuído.
- Procura todos os possuidores possíveis no contexto.
- Se houver ambiguidade, usa dele/dela/deles/delas.
- Com o interlocutor, respeita o tratamento: teu, seu ou vosso.
- Relê a frase e confirma que só permite a interpretação desejada.
Compara: Falámos sobre o seu projeto, senhor Silva. Aqui, seu refere-se ao interlocutor formal. Falámos com o senhor Silva sobre o projeto dela, da Ana. Aqui, o projeto é da Ana.
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Last updated October 11, 2026