Ambiguidade e desambiguação da referência pronominal
Quando um pronome encontra vários referentes
Um pronome é ambíguo quando o contexto permite associá-lo a mais de um referente plausível. Em A Rita falou com a Joana quando ela saiu, ela concorda com os dois nomes e nenhuma regra isolada determina quem saiu.
O leitor combina várias pistas:
| Pista | Pergunta |
|---|---|
| género e número | que candidatos são compatíveis com a forma? |
| estrutura sintática | alguma relação gramatical exclui um candidato? |
| significado | que interpretação faz sentido na situação? |
| foco discursivo | quem é o tópico ativo? |
| proximidade | qual foi a menção recente? |
A proximidade ajuda, mas não vence automaticamente as outras pistas. Num texto informativo, se duas leituras continuarem razoáveis, a frase precisa de ser reescrita.
Sujeito expresso e sujeito omitido
O português permite omitir o pronome sujeito porque a flexão verbal e o contexto frequentemente o recuperam. Contudo, a omissão pode ocultar uma escolha:
- A Marta falou com a Joana quando saiu — qualquer uma pode ter saído;
- A Marta falou com a Joana quando ela saiu — ela continua compatível com ambas;
- A Marta falou com a Joana quando a Joana saiu — a repetição resolve a referência.
Introduzir ele ou ela não basta quando os candidatos têm o mesmo género e número. O pronome expresso pode ainda sugerir mudança de tópico ou contraste, mas esse efeito depende do contexto e não constitui uma identificação segura.
Não presumas que o sujeito omitido retoma sempre o sujeito da oração anterior, nem que um pronome expresso retoma sempre o complemento. São preferências discursivas possíveis, não regras de referência.
Onde nasce a ambiguidade
Diferentes formas de retoma criam problemas próprios.
| Forma | Exemplo ambíguo | Leituras possíveis |
|---|---|---|
| pronome pessoal | A mãe chamou a filha porque ela estava atrasada. | a mãe ou a filha |
| possessivo | O diretor falou com o assessor sobre o seu gabinete. | gabinete do diretor, do assessor ou do interlocutor |
| clítico | O Rui falou do Tiago ao diretor, que disse que o contrataria. | contratar o Rui ou o Tiago |
| relativo | Li a crítica do romance que recebeu o prémio. | a crítica ou o romance recebeu o prémio |
| demonstrativo neutro | Adiaram a obra e reduziram o orçamento. Isso causou protestos. | uma medida ou o conjunto das duas |
O género pode excluir candidatos em A Ana encontrou o Rui quando ele saiu, mas não é uma pista infalível. Nomes como a testemunha ou a vítima podem designar pessoas de qualquer sexo, e uma cadeia pode mudar de descrição: a vítima → o condutor → ele. Segue o referente, não apenas a terminação das palavras.
A gramática limita algumas leituras
Nem toda a interpretação compatível com o mundo é compatível com a estrutura. Em A Rita disse que a Joana se criticou, o pronome reflexo se está ligado ao sujeito da sua oração, a Joana. Já em A Rita disse à Joana que precisava de apoio, o sujeito não expresso de precisava tem de ser recuperado pelo contexto e pode permanecer ambíguo.
Os relativos também exigem análise estrutural. Em a crítica do romance que recebeu o prémio, que pode ligar-se a dois nomes. Acrescentar uma vírgula não escolhe magicamente o antecedente: muda a relativa de restritiva para explicativa, mas pode conservar a dúvida sobre qual grupo nominal está a ser comentado.
Ambígua: Trouxe o casaco do Pedro que estava no carro.
O casaco estava no carro: Trouxe do carro o casaco do Pedro.
O Pedro estava no carro: Enquanto o Pedro continuava no carro, fui buscar-lhe o casaco.
A reordenação e a escolha de um predicado semanticamente claro permitem reconstruir uma única relação.
Reparações que podem falhar
Algumas estratégias apenas deslocam o problema:
- trocar sujeito nulo por ele/ela falha perante antecedentes com a mesma concordância;
- trocar seu por dele/dela falha se houver dois terceiros do mesmo género;
- usar este/aquele exige que o leitor reconstrua a ordem das menções e pode soar artificial;
- aproximar o pronome de um nome favorece uma leitura, mas não elimina necessariamente a outra;
- inserir uma vírgula antes de que altera o valor da relativa, não garante o antecedente.
Por exemplo, em O Rui apresentou o Pedro ao chefe e elogiou o trabalho dele, dele ainda pode referir-se ao Rui, ao Pedro ou ao chefe. É preferível escrever o trabalho do Pedro.
Estratégias robustas de desambiguação
Escolhe a reparação que conserva o sentido e o foco pretendidos.
| Estratégia | Reescrita clara |
|---|---|
| repetir o nome | A Rita falou com a Joana quando a Rita saiu. |
| usar uma função ou descrição | O diretor falou com o assessor sobre o gabinete da direção. |
| mudar a ordem | Quando a Joana saiu, a Marta falou com ela. |
| separar acontecimentos | A Marta terminou o relatório. Depois, falou com a Joana. |
| nomear a ideia retomada | A obra foi adiada. Esse adiamento causou protestos. |
| reformular a relação | Li a crítica ao romance premiado. |
Repetir não é falta de elegância quando evita uma leitura errada. Em cadeias longas, uma descrição como a investigadora, o segundo candidato ou a decisão de adiar pode recuperar o referente e recordar ao leitor a sua função.
Depois de reescrever, confirma que não alteraste involuntariamente o agente, o possuidor, o momento dos acontecimentos ou o caráter restritivo da informação.
Referência entre frases e parágrafos
Um pronome pode ser gramaticalmente claro numa frase isolada e tornar-se vago no texto completo. Quando entram várias pessoas numa narrativa, o tópico muda ou a última menção fica distante, reintroduz o nome.
Com demonstrativos neutros, delimita a extensão da retoma:
- esse adiamento retoma uma medida;
- essa redução orçamental retoma outra;
- essas duas decisões retoma ambas;
- essa situação pode condensar o resultado global, desde que já esteja claro.
Uma cadeia referencial eficaz alterna formas curtas e expressões lexicais sem fazer o leitor regressar várias linhas para descobrir quem ou o que está em causa.
Diagnosticar antes de entregar
Segue este percurso:
- sublinha cada pronome, sujeito omitido e demonstrativo neutro;
- lista todos os referentes compatíveis em género, número e sentido;
- aplica as restrições sintáticas relevantes;
- verifica se tópico, proximidade e conhecimento do mundo apontam para a mesma leitura;
- se restar mais de uma interpretação plausível, explicita o referente;
- relê o parágrafo, não apenas a frase.
Na literatura, a ambiguidade pode ser deliberada. Em instruções, contratos, notícias ou textos académicos, porém, a referência deve permitir uma reconstrução estável, e não apenas uma interpretação provável.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026