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Ambiguidade e desambiguação da referência pronominal

By the flumi team About 7 min read Practice exercises

Quando um pronome encontra vários referentes

Um pronome é ambíguo quando o contexto permite associá-lo a mais de um referente plausível. Em A Rita falou com a Joana quando ela saiu, ela concorda com os dois nomes e nenhuma regra isolada determina quem saiu.

O leitor combina várias pistas:

Pista Pergunta
género e número que candidatos são compatíveis com a forma?
estrutura sintática alguma relação gramatical exclui um candidato?
significado que interpretação faz sentido na situação?
foco discursivo quem é o tópico ativo?
proximidade qual foi a menção recente?

A proximidade ajuda, mas não vence automaticamente as outras pistas. Num texto informativo, se duas leituras continuarem razoáveis, a frase precisa de ser reescrita.

Sujeito expresso e sujeito omitido

O português permite omitir o pronome sujeito porque a flexão verbal e o contexto frequentemente o recuperam. Contudo, a omissão pode ocultar uma escolha:

  • A Marta falou com a Joana quando saiu — qualquer uma pode ter saído;
  • A Marta falou com a Joana quando ela saiuela continua compatível com ambas;
  • A Marta falou com a Joana quando a Joana saiu — a repetição resolve a referência.

Introduzir ele ou ela não basta quando os candidatos têm o mesmo género e número. O pronome expresso pode ainda sugerir mudança de tópico ou contraste, mas esse efeito depende do contexto e não constitui uma identificação segura.

Não presumas que o sujeito omitido retoma sempre o sujeito da oração anterior, nem que um pronome expresso retoma sempre o complemento. São preferências discursivas possíveis, não regras de referência.

Onde nasce a ambiguidade

Diferentes formas de retoma criam problemas próprios.

Forma Exemplo ambíguo Leituras possíveis
pronome pessoal A mãe chamou a filha porque ela estava atrasada. a mãe ou a filha
possessivo O diretor falou com o assessor sobre o seu gabinete. gabinete do diretor, do assessor ou do interlocutor
clítico O Rui falou do Tiago ao diretor, que disse que o contrataria. contratar o Rui ou o Tiago
relativo Li a crítica do romance que recebeu o prémio. a crítica ou o romance recebeu o prémio
demonstrativo neutro Adiaram a obra e reduziram o orçamento. Isso causou protestos. uma medida ou o conjunto das duas

O género pode excluir candidatos em A Ana encontrou o Rui quando ele saiu, mas não é uma pista infalível. Nomes como a testemunha ou a vítima podem designar pessoas de qualquer sexo, e uma cadeia pode mudar de descrição: a vítima → o condutor → ele. Segue o referente, não apenas a terminação das palavras.

A gramática limita algumas leituras

Nem toda a interpretação compatível com o mundo é compatível com a estrutura. Em A Rita disse que a Joana se criticou, o pronome reflexo se está ligado ao sujeito da sua oração, a Joana. Já em A Rita disse à Joana que precisava de apoio, o sujeito não expresso de precisava tem de ser recuperado pelo contexto e pode permanecer ambíguo.

Os relativos também exigem análise estrutural. Em a crítica do romance que recebeu o prémio, que pode ligar-se a dois nomes. Acrescentar uma vírgula não escolhe magicamente o antecedente: muda a relativa de restritiva para explicativa, mas pode conservar a dúvida sobre qual grupo nominal está a ser comentado.

Ambígua: Trouxe o casaco do Pedro que estava no carro.

O casaco estava no carro: Trouxe do carro o casaco do Pedro.

O Pedro estava no carro: Enquanto o Pedro continuava no carro, fui buscar-lhe o casaco.

A reordenação e a escolha de um predicado semanticamente claro permitem reconstruir uma única relação.

Reparações que podem falhar

Algumas estratégias apenas deslocam o problema:

  • trocar sujeito nulo por ele/ela falha perante antecedentes com a mesma concordância;
  • trocar seu por dele/dela falha se houver dois terceiros do mesmo género;
  • usar este/aquele exige que o leitor reconstrua a ordem das menções e pode soar artificial;
  • aproximar o pronome de um nome favorece uma leitura, mas não elimina necessariamente a outra;
  • inserir uma vírgula antes de que altera o valor da relativa, não garante o antecedente.

Por exemplo, em O Rui apresentou o Pedro ao chefe e elogiou o trabalho dele, dele ainda pode referir-se ao Rui, ao Pedro ou ao chefe. É preferível escrever o trabalho do Pedro.

Estratégias robustas de desambiguação

Escolhe a reparação que conserva o sentido e o foco pretendidos.

Estratégia Reescrita clara
repetir o nome A Rita falou com a Joana quando a Rita saiu.
usar uma função ou descrição O diretor falou com o assessor sobre o gabinete da direção.
mudar a ordem Quando a Joana saiu, a Marta falou com ela.
separar acontecimentos A Marta terminou o relatório. Depois, falou com a Joana.
nomear a ideia retomada A obra foi adiada. Esse adiamento causou protestos.
reformular a relação Li a crítica ao romance premiado.

Repetir não é falta de elegância quando evita uma leitura errada. Em cadeias longas, uma descrição como a investigadora, o segundo candidato ou a decisão de adiar pode recuperar o referente e recordar ao leitor a sua função.

Depois de reescrever, confirma que não alteraste involuntariamente o agente, o possuidor, o momento dos acontecimentos ou o caráter restritivo da informação.

Referência entre frases e parágrafos

Um pronome pode ser gramaticalmente claro numa frase isolada e tornar-se vago no texto completo. Quando entram várias pessoas numa narrativa, o tópico muda ou a última menção fica distante, reintroduz o nome.

Com demonstrativos neutros, delimita a extensão da retoma:

  • esse adiamento retoma uma medida;
  • essa redução orçamental retoma outra;
  • essas duas decisões retoma ambas;
  • essa situação pode condensar o resultado global, desde que já esteja claro.

Uma cadeia referencial eficaz alterna formas curtas e expressões lexicais sem fazer o leitor regressar várias linhas para descobrir quem ou o que está em causa.

Diagnosticar antes de entregar

Segue este percurso:

  1. sublinha cada pronome, sujeito omitido e demonstrativo neutro;
  2. lista todos os referentes compatíveis em género, número e sentido;
  3. aplica as restrições sintáticas relevantes;
  4. verifica se tópico, proximidade e conhecimento do mundo apontam para a mesma leitura;
  5. se restar mais de uma interpretação plausível, explicita o referente;
  6. relê o parágrafo, não apenas a frase.

Na literatura, a ambiguidade pode ser deliberada. Em instruções, contratos, notícias ou textos académicos, porém, a referência deve permitir uma reconstrução estável, e não apenas uma interpretação provável.

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Last updated July 20, 2026

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