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Colocação avançada dos clíticos em orações complexas

By the flumi team About 6 min read Practice exercises

Cada oração cria um domínio

No português europeu contemporâneo, a ênclise é o padrão básico numa oração principal afirmativa: A diretora entregou-lhe o processo. A próclise surge quando, dentro da mesma oração, existe um elemento que a desencadeia: A diretora não lhe entregou o processo.

Numa frase complexa, não basta procurar uma palavra atratora em qualquer ponto do período. É necessário identificar a oração a que pertencem o clítico e o verbo.

Quando me telefonou, a diretora explicou-me a decisão.

Na subordinada temporal, quando desencadeia a próclise: me telefonou. Na oração principal afirmativa, esse quando já não atua, e temos ênclise: explicou-me.

Subordinação e relativos

As orações subordinadas finitas apresentam geralmente próclise. O clítico fica antes do verbo da oração introduzida por uma conjunção, um relativo ou uma palavra interrogativa:

  • Disseram que me enviariam a ata.
  • Embora lhe tenham explicado o procedimento, manteve a dúvida.
  • Este é o relatório que nos pediram.
  • Li um artigo cujo título me surpreendeu.
  • Não sei quem te contou a novidade.

O elemento introdutor pode estar separado do clítico por outros constituintes: O relatório que ontem me enviaram estava incompleto. A distância linear não elimina a relação dentro da oração.

Uma data ou um constituinte inicial não é automaticamente um atrator. Em português europeu, dizemos Em 2025, publicou-se o relatório, se não houver outro elemento que exija próclise.

Coordenação: reavaliar a cada verbo

As conjunções e e mas não impõem, por si sós, próclise. Cada oração coordenada deve ser analisada de acordo com os seus próprios elementos:

Estrutura Colocação
Telefonou-me e explicou-me o problema. duas principais afirmativas: ênclise
Telefonou-me, mas não me deixou mensagem. a negação desencadeia próclise apenas na segunda oração
Quando me telefonou e me explicou o problema, percebi tudo. quando enquadra os dois verbos coordenados da subordinada
Disse que o analisaria e que me responderia. cada oração introduzida por que apresenta próclise

Não se deve transportar mecanicamente a colocação do primeiro verbo para o segundo. Em A Marta recebeu-o e não o leu, a mudança de posição resulta da negação, não da conjunção e.

Infinitivos introduzidos por preposição

Em muitas orações infinitivas simples introduzidas por preposição, o português europeu admite próclise e ênclise:

  • Tive dificuldade em a explicar. / Tive dificuldade em explicá-la.
  • Fez isso para me ajudar. / Fez isso para ajudar-me.
  • Saiu sem o cumprimentar. / Saiu sem cumprimentá-lo.
  • Calou-se para não o magoar. / Calou-se para não magoá-lo.

Com a e com, a ênclise é o padrão: Começou a observá-lo; Ficou satisfeito com revê-la. Com infinitivo flexionado e sujeito expresso, a próclise é a solução europeia neutra: Para eles o fazerem, precisam de autorização.

Não aplique aos infinitivos uma lista de atratores pensada apenas para verbos finitos. A preposição, a flexão do infinitivo e a estrutura do complexo verbal condicionam as opções.

Complexos verbais e subida do clítico

Em certos complexos, o clítico que funciona como complemento do verbo principal pode ligar-se ao verbo superior. Este fenómeno chama-se subida do clítico:

  • Vou-lhe enviar o ficheiro. — O clítico sobe e liga-se a vou.
  • Vou enviar-lhe o ficheiro. — O clítico permanece junto do infinitivo.

A possibilidade depende da construção. Compare:

  • Passou-se a incluir uma nota. / Passou a incluir-se uma nota.
  • Acabou de me telefonar. / Acabou de telefonar-me.
  • O plano passou por dar-lhe apoio. / O plano passou-lhe por dar apoio.

No último par, por bloqueia a subida para o verbo passou. O asterisco assinala que a frase não pertence ao padrão descrito.

Tempos compostos e futuro

Nos tempos compostos, o clítico não se liga ao particípio. Liga-se ao auxiliar finito:

  • Tenho-o visto na biblioteca.
  • Não o tenho visto na biblioteca.
  • Tenho visto-o na biblioteca.

Com o futuro e o condicional numa oração principal afirmativa, a norma tradicional europeia admite a mesóclise: Dir-lhe-ei amanhã; Enviar-lhe-ia os dados. Se houver um atrator, surge próclise: Não lhe direi; Disse que lhe enviaria os dados.

Na fala e em muitos textos contemporâneos, uma perífrase evita uma forma excessivamente solene: Vou dizer-lhe amanhã; Podia enviar-lhe os dados. A formação e o valor estilístico da mesóclise são tratados numa página própria.

Não ligue o clítico ao particípio e não use mesóclise quando já existe um contexto de próclise. Formas como não dir-lhe-ei não correspondem ao padrão europeu.

Registo e normas pluricêntricas

No português europeu, contrastes como telefonou-me / não me telefonou são produtivos na fala e na escrita. No português brasileiro informal, a próclise é muito mais ampla: Ela me telefonou e, em muitos contextos orais, Me telefonaram. A escrita formal brasileira pode seguir convenções mais conservadoras, mas não reproduz em todos os casos a distribuição europeia.

As variedades africanas também apresentam distribuições próprias, apesar da influência histórica do padrão europeu na escrita. Por isso, avaliar uma colocação exige saber qual é a variedade, o género textual e o grau de formalidade.

Ao rever um texto orientado pelo padrão europeu:

  1. delimite cada oração e cada complexo verbal;
  2. localize negação, subordinadores, relativos, interrogativos e focalizadores;
  3. verifique se o clítico pertence ao verbo finito ou ao infinitivo;
  4. confirme se a subida é permitida pela construção;
  5. escolha uma alternativa clara quando duas posições forem possíveis.

A colocação não é decoração estilística: torna visíveis relações entre o clítico, o verbo e a estrutura da frase.

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Last updated July 20, 2026

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