C1 · AdvancedLesson 1 of 3

Sequências de clíticos e alomorfia pronominal

Explora como as sequências de clíticos e a alomorfia pronominal alteram a forma dos pronomes átonos conforme o contexto fonológico. Nível C1.

Uma função, várias formas

Os pronomes clíticos são formas átonas ligadas ao verbo. Alomorfia pronominal significa que a mesma função e a mesma referência podem ser expressas por formas diferentes, condicionadas pelo contexto fonológico.

No fim desta lição, vais poder:

  • reconhecer as variantes -lo e -no;
  • combinar um dativo com um acusativo;
  • distinguir as alterações que dependem da terminação verbal.

O objeto direto masculino singular, por exemplo, mantém-se em todas estas frases:

  • Eu vi-o ontem.
  • Quero vê-lo amanhã.
  • Eles viram-no à entrada.

o, -lo e -no não são três pronomes com sentidos diferentes. São realizações do mesmo clítico, ajustadas à terminação verbal que as precede.

Esta página trata da forma dos clíticos e da ordem entre eles. A escolha entre próclise, ênclise e mesóclise pertence ao domínio da colocação e é estudada separadamente.

O, a, os e as depois de vogal

Depois de uma forma verbal terminada em vogal oral, usam-se normalmente o, a, os, as:

Frase com o grupo nominal Com clítico
Vi o relatório. Vi-o.
Comprou a revista. Comprou-a.
Li os anexos. Li-os.
Levou as caixas. Levou-as.

Na ênclise, o hífen liga graficamente o clítico ao verbo. Na próclise, a forma básica surge separada: Não o vi; Quando as levou, a sala ficou vazia.

O género e o número são determinados pelo referente, não pela pessoa que fala: Vi a diretora → Vi-a; Vi os diretores → Vi-os.

L depois de r, s e z

Quando a forma verbal termina em -r, -s ou -z, essa consoante desaparece e o clítico assume as formas -lo, -la, -los, -las:

  • comprar + o → comprá-lo;
  • fazer + a → fazê-la;
  • compor + os → compô-los;
  • fazemos + o → fazemo-lo;
  • fiz + o → fi-lo;
  • fez + a → fê-la.

O acento gráfico que aparece em comprá-lo, fazê-la ou compô-los preserva as regras de acentuação da forma verbal depois da queda de -r. Não é o clítico que recebe o acento.

Partimos de Quero rever as condições.

  1. as condições é objeto direto feminino plural: as;
  2. rever termina em -r, que desaparece;
  3. as assume a variante -las;
  4. o resultado é Quero revê-las.

Alomorfia na mesóclise

Quando a mesóclise é exigida pelo registo formal, a forma do clítico segue as mesmas alterações: comprar + o + futuro → comprá-lo-ei. Já com uma forma combinada, não há queda de -r: dar + lho + condicional → dar-lho-ia.

N depois de terminação nasal

Depois de uma forma verbal com terminação nasal, o, a, os, as tornam-se -no, -na, -nos, -nas:

  • Ele tem o livro. → Tem-no.
  • Põe a mesa no lugar. → Põe-na no lugar.
  • Levaram as cadeiras. → Levaram-nas.
  • Eles encontram o documento. → Encontram-no.
  • Os técnicos põem a máquina em funcionamento. → Põem-na em funcionamento.
  • Os jurados dão os prémios. → Dão-nos.
  • As testemunhas viram as fotografias. → Viram-nas.

Em dão-nos, o contexto é essencial: a sequência pode corresponder a dão os prémios (-nos, objeto direto masculino plural) ou conter o pronome de primeira pessoa nos, como em dão-nos tempo. A forma escrita é igual, mas a análise gramatical e a referência são diferentes.

Reconstrói sempre o grupo nominal completo. Se -nos retoma os prémios, é uma variante de os; se significa a nós, é o clítico pessoal nos.

A alteração é condicionada pela nasalidade da terminação verbal, e não pelo tempo: ocorre, por exemplo, em -ão (dão-no), -am (encontram-no), -em (têm-no), -õe (põe-na) e -õem (põem-na). Nas formas do futuro terminadas em -ão, sem elemento de próclise, a norma usa mesóclise: darão o relatório → dá-lo-ão, não darão-no. Em próclise, não há variante em -no: Não o encontram.

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Dois objetos numa forma combinada

Com verbos que selecionam objeto indireto e objeto direto, os clíticos podem formar uma unidade. O dativo aparece primeiro e o acusativo depois.

Dativo + acusativo Formas combinadas
me + o/a/os/as mo, ma, mos, mas
te + o/a/os/as to, ta, tos, tas
lhe/lhes + o/a/os/as lho, lha, lhos, lhas
nos + o/a/os/as no-lo, no-la, no-los, no-las
vos + o/a/os/as vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las

Por exemplo: Deu-me o livro → Deu-mo; Mostrei-te a carta → Mostrei-ta; Enviei-lhe os dados → Enviei-lhos; Leram-nos a mensagem → Leram-no-la; Entreguei-vos as cópias → Entreguei-vo-las.

O mesmo bloco mantém-se antes do verbo quando existe próclise: Não mo deram; Quem ta mostrou?; Disse que lhos enviaria. Não se inverte a ordem para sequências como o-me ou os-lhe.

Antes de o/a/os/as, nos e vos perdem o -s: nos + a → no-la; vos + as → vo-las.

A queda de -r/-s/-z não se aplica a todos os clíticos: comprar + o → comprá-lo, mas comprar + lho → comprar-lho; fazer + mo → fazer-mo.

O caso particular de se

O clítico se é central, mas não entra na tabela como se fosse simplesmente outro dativo. No uso reflexo ou recíproco, já realiza o complemento que recai sobre o próprio sujeito: A investigadora revê-se no relatório; Os colegas cumprimentam-se. Por isso, não se acrescenta por analogia um segundo acusativo: *cumprimentam-se-os não é uma sequência da norma-padrão.

Com se apassivante, o nome que parece objeto é o sujeito paciente: Vendem-se casas. Com se indeterminador, não há complemento direto: Vive-se bem aqui. Nenhum destes valores cria combinações como *se-lo, *se-lha ou *se-lhos. As formas mo, to, lho, no-lo e vo-lo continuam, portanto, reservadas às combinações dativo + acusativo apresentadas na tabela; para distinguir os valores de se em pormenor, consulta a lição sobre os valores de se.

Quando a terminação nasal encontra uma forma combinada

As duas regras podem ocorrer na mesma sequência. A forma combinada conserva-se e liga-se ao verbo terminado em nasal: deram + no-lo → deram-no-lo; dão + mo → dão-mo. Não se cria por isso uma forma como deram-nono-lo ou dão-no-mo: a nasalidade já está representada na ligação verbal, e a combinação dativo + acusativo mantém a sua forma própria.

Formas em -mos antes de nos

Há uma alteração diferente quando a forma verbal termina em -mos e é seguida pelo clítico nos: perde-se o -s da desinência -mos. Assim, fazemos + nos → fazemo-nos, sentamos + nos → sentamo-nos e vamos + nos → vamo-nos. Não é a queda de -r/-s/-z descrita para o, a, os, as.

Lho pode esconder singular e plural

As combinações de lhe ou lhes com o, a, os, as produzem as mesmas formas: lho, lha, lhos, lhas. Assim, Entreguei-lho informa que o objeto direto é masculino singular, mas não revela se o destinatário é uma pessoa ou várias.

  • Entreguei o parecer ao diretor. → Entreguei-lho.
  • Entreguei o parecer aos diretores. → Entreguei-lho.

Esta neutralização pode causar ambiguidade. Se o número dos destinatários for relevante, mantém o grupo completo ou acrescenta um reforço contrastivo: Entreguei-lho a eles. Em textos técnicos, repetir aos diretores é muitas vezes a solução mais transparente.

Nem todos os clíticos podem ser combinados livremente por analogia: não existem combinações como me + te ou lhe + lhe. Usa as formas estabelecidas.

Registo e variação lusófona

As formas alomórficas fazem parte da norma escrita das diferentes variedades, mas a sua frequência não é uniforme. No português europeu, formas simples como vi-o e encontraram-no continuam vivas na escrita e também na fala cuidada. Já blocos dativo + acusativo como mo, ta e lho são hoje sobretudo próprios da escrita formal e de registos muito monitorizados; na oralidade corrente, é comum preferir um grupo nominal explícito.

No português brasileiro informal, é frequente recorrer a um nome, a uma forma tónica ou à omissão do objeto onde a escrita formal usaria um clítico: vou comprar o livro, vou comprar ele em certos usos regionais, ou simplesmente vou comprar. As normas formais brasileiras também registam formas como comprá-lo e entregou-lho, mas estas podem soar mais monitorizadas.

Nas variedades africanas, a escrita formal conserva amplamente este sistema, enquanto os usos orais apresentam padrões próprios. Para um público pluricêntrico, a prioridade deve ser a transparência:

  • usa a forma combinada quando os dois referentes estão próximos;
  • repete o nome se lho/lha/lhos/lhas ocultar uma distinção importante;
  • mantém a mesma norma de colocação ao longo do texto;
  • não confundas menor frequência oral com incorreção morfológica.

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Last updated October 11, 2026