Sequências de clíticos e alomorfia pronominal
Uma função, várias formas
Os pronomes clíticos são formas átonas ligadas ao verbo. Alomorfia pronominal significa que a mesma função e a mesma referência podem ser expressas por formas diferentes, condicionadas pelo contexto fonológico.
O objeto direto masculino singular, por exemplo, mantém-se em todas estas frases:
- Eu vi-o ontem.
- Quero vê-lo amanhã.
- Eles viram-no à entrada.
o, -lo e -no não são três pronomes com sentidos diferentes. São realizações do mesmo clítico, ajustadas à terminação verbal que as precede.
Esta página trata da forma dos clíticos e da ordem entre eles. A escolha entre próclise, ênclise e mesóclise pertence ao domínio da colocação e é estudada separadamente.
O, a, os e as depois de vogal
Depois de uma forma verbal terminada em vogal oral, usam-se normalmente o, a, os, as:
| Grupo completo | Com clítico |
|---|---|
| Vi o relatório. | Vi-o. |
| Comprou a revista. | Comprou-a. |
| Li os anexos. | Li-os. |
| Levou as caixas. | Levou-as. |
Na ênclise, o hífen liga graficamente o clítico ao verbo. Na próclise, a forma básica surge separada: Não o vi; Quando as levou, a sala ficou vazia.
O género e o número são determinados pelo referente, não pela pessoa que fala: Vi a diretora → Vi-a; Vi os diretores → Vi-os.
L depois de r, s e z
Quando a forma verbal termina em -r, -s ou -z, essa consoante desaparece e o clítico assume as formas -lo, -la, -los, -las:
- comprar + o → comprá-lo;
- fazer + a → fazê-la;
- compor + os → compô-los;
- fazemos + o → fazemo-lo;
- fiz + o → fi-lo;
- fez + a → fê-la.
O acento gráfico que aparece em comprá-lo, fazê-la ou compô-los preserva as regras de acentuação da forma verbal depois da queda de -r. Não é o clítico que recebe o acento.
Partimos de Quero rever as condições.
- as condições é objeto direto feminino plural: as;
- rever termina em -r, que desaparece;
- as assume a variante -las;
- o resultado é Quero revê-las.
N depois de terminação nasal
Depois de uma forma verbal com terminação nasal, o, a, os, as tornam-se -no, -na, -nos, -nas:
- Eles encontram o documento. → Encontram-no.
- Os técnicos põem a máquina em funcionamento. → Põem-na em funcionamento.
- Os jurados dão os prémios. → Dão-nos.
- As testemunhas viram as fotografias. → Viram-nas.
Em dão-nos, o contexto é essencial: a sequência pode corresponder a dão os prémios (-nos, objeto direto masculino plural) ou conter o pronome de primeira pessoa nos, como em dão-nos tempo. A forma escrita é igual, mas a análise gramatical e a referência são diferentes.
Reconstrua sempre o grupo nominal completo. Se -nos retoma os prémios, é uma variante de os; se significa a nós, é o clítico pessoal nos.
Dois objetos numa forma combinada
Com verbos que selecionam objeto indireto e objeto direto, os clíticos podem formar uma unidade. O dativo aparece primeiro e o acusativo depois.
| Combinação | Resultado | Exemplo |
|---|---|---|
| me + o | mo | Deu-me o livro. → Deu-mo. |
| te + a | ta | Mostrei-te a carta. → Mostrei-ta. |
| lhe + os | lhos | Enviei-lhe os dados. → Enviei-lhos. |
| nos + a | no-la | Leram-nos a mensagem. → Leram-no-la. |
| vos + as | vo-las | Entreguei-vos as cópias. → Entreguei-vo-las. |
O mesmo bloco mantém-se antes do verbo quando existe próclise: Não mo deram; Quem ta mostrou?; Disse que lhos enviaria. Não se inverte a ordem para sequências como o-me ou os-lhe.
Lho pode esconder singular e plural
As combinações de lhe ou lhes com o, a, os, as produzem as mesmas formas: lho, lha, lhos, lhas. Assim, Entreguei-lho informa que o objeto direto é masculino singular, mas não revela se o destinatário é uma pessoa ou várias.
- Entreguei o parecer ao diretor. → Entreguei-lho.
- Entreguei o parecer aos diretores. → Entreguei-lho.
Esta neutralização pode causar ambiguidade. Se o número dos destinatários for relevante, mantenha o grupo completo ou acrescente um reforço contrastivo: Entreguei-lho a eles. Em textos técnicos, repetir aos diretores é muitas vezes a solução mais transparente.
Nem todos os clíticos podem ser combinados livremente por analogia. Use as formas estabelecidas e evite criar sequências apenas porque cada pronome seria possível isoladamente.
Registo e variação lusófona
As formas alomórficas fazem parte da norma escrita das diferentes variedades, mas a sua frequência não é uniforme. No português europeu, vi-o, encontraram-no e combinações como disse-mo ocorrem tanto na escrita como na fala, embora os blocos menos transparentes sejam evitados quando causam dúvida.
No português brasileiro informal, é frequente recorrer a um nome, a uma forma tónica ou à omissão do objeto onde a escrita formal usaria um clítico: vou comprar o livro, vou comprar ele em certos usos regionais, ou simplesmente vou comprar. As normas formais brasileiras também registam formas como comprá-lo e entregou-lho, mas estas podem soar mais monitorizadas.
Nas variedades africanas, a escrita formal conserva amplamente este sistema, enquanto os usos orais apresentam padrões próprios. Para um público pluricêntrico, a prioridade deve ser a transparência:
- use a forma combinada quando os dois referentes estão próximos;
- repita o nome se lho/lha/lhos/lhas ocultar uma distinção importante;
- mantenha a mesma norma de colocação ao longo do texto;
- não confunda menor frequência oral com incorreção morfológica.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026