B2 · Upper IntermediatePortuguese

Pronomes de objeto na fala e na escrita

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Identificar a função do pronome

Os pronomes de objeto retomam pessoas ou coisas já identificadas. A escolha da forma depende da função sintática, mas também do registo e da variedade do português.

Função Formas de terceira pessoa Exemplo
objeto direto o, a, os, as Encontrei a Joana e cumprimentei-a.
objeto indireto lhe, lhes Telefonei aos clientes e expliquei-lhes a situação.
complemento com outra preposição ele, ela, eles, elas Falei com eles; pensei nela.

As formas me, te, nos e vos podem representar um objeto direto ou indireto: Ela viu-me; Ela deu-me o relatório. É o verbo e o restante contexto que revelam a função.

No português europeu padrão, lhe e lhes representam normalmente o objeto indireto. Em Vi a diretora e cumprimentei-a, a é objeto direto; em Telefonei à diretora e expliquei-lhe o problema, lhe é objeto indireto.

O padrão europeu neutro

Na escrita cuidada e em muitos contextos orais europeus, os pronomes átonos são frequentes. A sua posição segue o tipo de oração:

  • Encontrei o Rui ontem. → Encontrei-o ontem.
  • Entreguei a carta à Marta. → Entreguei-lhe a carta.
  • Não encontrei o Rui. → Não o encontrei.
  • Quando encontrei o Rui, falei com ele. → Quando o encontrei, falei com ele.
  • Vou entregar o relatório amanhã. → Vou entregá-lo amanhã.

Numa oração afirmativa principal, é habitual a ênclise: encontrei-o. Elementos como não, quando, quem e certas conjunções atraem o pronome para antes do verbo: não o encontrei, quando o encontrei. Aqui, o objetivo é reconhecer a escolha adequada ao contexto; as regras completas de colocação pronominal são tratadas separadamente.

O pronome não substitui automaticamente qualquer grupo introduzido por a. Em fui a Lisboa, a Lisboa indica destino, não um objeto indireto; por isso, não se retoma com lhe.

Na conversa: omitir, repetir ou destacar

Na fala, os interlocutores partilham a situação e podem dispensar um objeto facilmente recuperável:

— Já leste o relatório?

— Já li.

O objeto de li não aparece, mas ambos os interlocutores sabem que se trata do relatório.

Também é natural repetir o nome quando um pronome poderia criar dúvida: Vi a Ana e o Miguel, mas não cumprimentei o Miguel. A repetição é preferível a um pronome cuja referência não seja clara.

As formas tónicas com preposição dão contraste:

  • Entreguei o convite a ela, não a ele.
  • Contaram-lhe a novidade a ele, mas não a mim.

No segundo exemplo, lhe marca o objeto indireto e a ele reforça ou contrasta a referência. Esta duplicação é marcada e exige um contexto que justifique o destaque.

Na escrita: coesão sem ambiguidade

Na escrita, os pronomes evitam repetições, mas o leitor não pode pedir imediatamente uma explicação. A referência deve ser inequívoca.

Compare:

  • A Marta entregou o processo à advogada e ela reviu-o.ela refere-se provavelmente à advogada; o retoma o processo.
  • A Marta falou com a advogada quando a diretora a chamou.a pode retomar a Marta ou a advogada.

Na segunda frase, é melhor repetir o nome relevante: A Marta falou com a advogada quando a diretora chamou a Marta. Uma ligeira repetição é menos problemática do que uma interpretação errada.

Antes de usar o, a, lhe ou lhes, procure todos os referentes compatíveis na frase anterior. Se houver dois, repita o nome ou reorganize a frase.

Combinar dois objetos

Quando um verbo tem objeto indireto e direto, os dois pronomes podem combinar-se:

Grupos completos Com um pronome Com dois pronomes
Deu o livro a mim. Deu-me o livro. Deu-mo.
Mostrei a fotografia a ti. Mostrei-te a fotografia. Mostrei-ta.
Entreguei as chaves à Ana. Entreguei-lhe as chaves. Entreguei-lhas.

As formas mo, ta e lhas são corretas e compactas, mas podem ser difíceis de interpretar fora de contexto. Na fala descontraída, muitos falantes preferem manter o nome: Entreguei-lhe as chaves. Em documentos ou textos formais, a forma combinada é útil quando os dois referentes já estão claros.

Registo e variedades do português

Não existe um único padrão oral em todo o espaço lusófono. No português europeu, construções como vi-o e telefonei-lhe são correntes. No português brasileiro informal, são frequentes, conforme a região e a situação, construções como vi ele, vi você, eu te vi ou a omissão do objeto. Na escrita formal brasileira, os pronomes átonos e certas reformulações mantêm um papel importante.

As variedades africanas também combinam normas escritas próximas do padrão europeu com usos orais próprios. A frequência e a posição dos pronomes variam entre países, regiões e falantes; uma forma comum numa conversa não é, por isso, automaticamente a mais adequada a um relatório académico.

Ao escrever para públicos de várias variedades, podem ajudar soluções transparentes:

  • repetir um nome quando a referência é incerta;
  • usar a ele ou a ela para um contraste explícito;
  • evitar cadeias longas de pronomes sem antecedente próximo;
  • manter coerente a variedade escolhida no conjunto do texto.

Escolher a melhor solução

Primeiro, identifique se o complemento é direto, indireto ou introduzido por outra preposição. Depois, considere três perguntas:

  1. O referente está claro?
  2. O contexto é uma conversa informal ou um texto cuidado?
  3. Que variedade do português orienta o texto?

Em português europeu neutro, Entreguei-lhe o formulário e pedi-lhe que o assinasse é coeso e natural. Numa conversa, Entreguei o formulário e pedi para assinar pode ser compreendido pelo contexto, mas deixa implícita a pessoa que deve assinar. A escolha não consiste apenas em evitar repetições: consiste em equilibrar correção, clareza e adequação.

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Last updated July 20, 2026

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