Pretérito mais-que-perfeito simples na narração
Um passado anterior a outro passado
O pretérito mais-que-perfeito situa uma ação antes de outro momento já passado. A forma simples aparece sobretudo na escrita literária, histórica ou formal.
Quando a Leonor chegou à estação, o comboio já partira.
Primeiro, o comboio partiu. Depois, a Leonor chegou.
O ponto de referência é a Leonor chegou, no pretérito perfeito. A forma partira recua a partir desse ponto e apresenta o acontecimento anterior.
| Acontecimento mais antigo | Ponto passado de referência |
|---|---|
| o comboio partira | a Leonor chegou |
| eles tinham fechado a loja | nós aparecemos |
| a chuva começara | os caminhantes procuraram abrigo |
Formar o tempo simples
Podemos partir da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito, retirar -am e acrescentar as terminações do mais-que-perfeito.
| Pessoa | falar | beber | partir |
|---|---|---|---|
| eu | falara | bebera | partira |
| tu | falaras | beberas | partiras |
| ele / ela | falara | bebera | partira |
| nós | faláramos | bebêramos | partíramos |
| vós | faláreis | bebêreis | partíreis |
| eles / elas | falaram | beberam | partiram |
O mesmo processo ajuda com verbos irregulares: fizeram → fizera, disseram → dissera, vieram → viera, puseram → pusera, foram → fora.
As formas de nós e vós levam acento: faláramos, faláreis. Esse acento distingue faláramos de falaramos, que não é uma forma correta.
Forma simples e forma composta
O mais-que-perfeito simples e o composto exprimem normalmente a mesma relação temporal.
| Forma simples | Forma composta corrente |
|---|---|
| A sessão já começara. | A sessão já tinha começado. |
| Ela nunca vira o mar. | Ela nunca tinha visto o mar. |
| O anfitrião terminara o discurso. | O anfitrião tinha terminado o discurso. |
Na língua contemporânea, tinha + particípio é a escolha mais natural na conversa e é também muito frequente na escrita. Havia + particípio ocorre em registos cuidados: a sessão havia começado. A forma simples cria um tom mais condensado, literário ou formal.
Escolher chegara em vez de tinha chegado não torna a ação mais antiga. A relação temporal é a mesma; muda principalmente o registo e o efeito estilístico.
Organizar recuos na narrativa
Numa narrativa, este tempo permite interromper a sequência principal para recuperar informação anterior.
O inspetor entrou no gabinete e viu a janela aberta. Alguém retirara os documentos e deixara a luz acesa. Na véspera, a secretária fechara tudo antes de sair.
Os verbos entrou e viu fazem avançar a ação principal. Retirara, deixara e fechara explicam o estado encontrado pelo inspetor e reconstituem acontecimentos anteriores.
Este recuo pode cumprir várias funções:
- explicar uma consequência visível no momento narrado;
- revelar a causa de uma decisão;
- recordar uma promessa ou informação anterior;
- introduzir brevemente uma história dentro da história.
Contrastar sequência e anterioridade
A escolha do tempo altera a ordem interpretada.
- Quando a Rita entrou, o Rui desligou a música. — o Rui desligou-a nesse momento ou depois da entrada.
- Quando a Rita entrou, o Rui já desligara a música. — a música foi desligada antes da entrada.
- A diretora leu o relatório e telefonou ao autor. — os acontecimentos avançam em sequência.
- A diretora telefonou ao autor, que esquecera uma página. — o esquecimento é anterior ao telefonema.
Palavras como já, antes, na véspera e até então tornam a relação mais transparente, embora o próprio tempo verbal já marque a anterioridade.
Reconhecer formas ambíguas
Na terceira pessoa do plural, a forma simples coincide graficamente com o pretérito perfeito: falaram, fizeram, partiram. É o contexto que decide o valor.
- Ontem eles partiram cedo. — pretérito perfeito; acontecimento principal.
- Quando chegámos ao cais, eles já partiram. — esta leitura como mais-que-perfeito é possível, mas hoje soa pouco natural; prefere-se já tinham partido.
Fora também exige atenção: pode ser uma forma de ser ou ir no mais-que-perfeito, mas também o advérbio oposto a dentro. Em Quando regressou, percebeu que fora enganado, a construção passiva significa tinha sido enganado.
Não use muitas formas simples apenas para tornar o texto “mais elegante”. Num texto neutro contemporâneo, a repetição de chegara, dissera e fizera pode criar um tom arcaizante não pretendido.
Síntese para ler e escrever
Ao encontrar ou usar este tempo:
- localize o ponto passado de referência;
- identifique o acontecimento que ocorreu antes dele;
- confirme a forma a partir do pretérito perfeito plural;
- escolha entre a forma simples, mais literária ou formal, e a composta, mais corrente;
- use marcadores temporais quando a ordem puder ficar ambígua.
Assim, Ao abrir a porta, percebeu que alguém entrara equivale temporalmente a Ao abrir a porta, percebeu que alguém tinha entrado, mas as duas versões produzem registos diferentes.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026