Verbos causativos e percetivos com infinitivo
Aprende a usar verbos causativos como fazer e percetivos como ver e ouvir seguidos de infinitivo, para mostrar quem provoca ou percebe uma ação.
Causar uma ação ou percecioná-la
Os verbos causativos apresentam uma entidade que provoca, ordena ou permite uma ação. Os verbos percetivos apresentam alguém que vê, ouve ou sente essa ação.
| Grupo | Verbos frequentes | Exemplo |
|---|---|---|
| causa | fazer | O frio fez-nos entrar. |
| ordem ou encargo | mandar | A diretora mandou verificar o sistema. |
| permissão | deixar | O segurança deixou-nos passar. |
| perceção | ver, ouvir, sentir | Senti o chão tremer. |
A música fez a criança dançar. — a música causa a dança.
A mãe viu a criança dançar. — a mãe observa a dança, mas não a causa.
Em ambos os grupos, a ação causada ou percecionada forma uma oração de infinitivo que funciona como complemento do primeiro verbo.
Também podemos usar uma oração com que + conjuntivo quando queremos apresentar a consequência ou dar permissão de forma menos compacta: A chuva fez com que o jogo fosse adiado; Deixa que eu trate disso. Com fazer e deixar + infinitivo, a atenção recai mais diretamente sobre a ação: A chuva fez adiar o jogo; Deixa-me tratar disso.
Dois participantes e duas situações
Estas construções não são simples tempos compostos. O sujeito do primeiro verbo e quem realiza o infinitivo podem ser diferentes.
| Primeiro participante | Verbo | Realizador do infinitivo | Ação |
|---|---|---|---|
| a diretora | mandou | os técnicos | rever o plano |
| o ruído | fez | o bebé | acordar |
| o professor | deixou | os alunos | sair |
| nós | vimos | a equipa | entrar |
Na frase A diretora mandou os técnicos rever o plano, a diretora dá a ordem, mas são os técnicos que reveem. O grupo os técnicos rever o plano representa a situação causada.
Faz duas perguntas: “Quem causa ou percebe?” e “Quem realiza o infinitivo?”. Se as respostas forem diferentes, tens os dois participantes da construção.
Infinitivo não flexionado ou flexionado
O infinitivo não flexionado é muito frequente depois destes verbos, mesmo quando o seu sujeito semântico é plural.
- Mandei os técnicos verificar o sistema.
- Deixaram as crianças brincar no jardim.
- Vimos os atletas entrar no estádio.
- Ouvimos as portas bater.
Com um grupo nominal explícito, também pode ocorrer o infinitivo pessoal: Vimos os atletas entrarem; Mandei os técnicos verificarem o sistema. A flexão torna mais visível a autonomia do sujeito da oração infinitiva.
Há critérios úteis. Um sujeito nominal afastado do primeiro verbo ou colocado depois do infinitivo favorece a flexão: Vimos entrarem os atletas no estádio. Quando os dois verbos estão próximos, é mais natural a forma não flexionada: Vimos os atletas entrar no estádio. Um clítico bloqueia a flexão: ✓ Vi-os entrar; ✗ vi-os entrarem. Para uma produção segura, o infinitivo não flexionado é muito corrente depois de fazer, mandar, deixar, ver, ouvir e sentir.
O participante como pronome átono
Quando o realizador do infinitivo é retomado por pronome, o pronome fica junto do verbo causativo ou percetivo. O infinitivo não flexionado é a escolha mais neutra.
| Com nome | Com pronome |
|---|---|
| A notícia fez a Ana sorrir. | A notícia fê-la sorrir. |
| O diretor mandou os técnicos sair. | O diretor mandou-os sair. |
| A professora deixou a aluna entrar. | A professora deixou-a entrar. |
| Vi os músicos chegar. | Vi-os chegar. |
Com um infinitivo transitivo, encontras estas construções no português europeu:
| Construção | Observação |
|---|---|
| Fiz o João ler o texto. | João aparece como complemento direto. |
| Fiz ler o texto ao João. | A pessoa aparece com a; é uma construção corrente. |
| Fi-lo ler o texto. | O pronome retoma João; é uma forma mais formal. |
Em todas, é João que lê o texto.
Não flexiones automaticamente o infinitivo depois do pronome átono. Vi-os entrar e mandou-os esperar são padrões claros e naturais no português europeu.
As regras que colocam o pronome antes ou depois do verbo principal continuam a aplicar-se: Não os vimos entrar. Também há próclise depois de uma conjunção subordinativa e de certos advérbios: Quando os vimos entrar, a sala silenciou; Já os vimos entrar nesta sala muitas vezes. O pronome mantém a sua relação semântica com a ação do infinitivo.
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Perceber o evento inteiro ou em curso
Com ver e ouvir, o português europeu permite contrastar o infinitivo simples com a + infinitivo.
| Construção | Perspetiva | Exemplo |
|---|---|---|
| ver/ouvir + infinitivo | evento tomado como unidade | Vi a Ana atravessar a rua. |
| ver/ouvir + a + infinitivo | ação observada em desenvolvimento | Vi a Ana a atravessar a rua. |
| pronome + infinitivo | evento | Ouvi-os discutir. |
| pronome + a + infinitivo | processo em curso | Ouvi-os a discutir. |
A diferença não é sempre rígida, mas a + infinitivo aproxima a perceção de uma cena em progresso. Com os causativos, esta construção não está disponível: dizemos mandar alguém atravessar, não mandar alguém a atravessar.
No português do Brasil, a ideia de ação em curso aparece muitas vezes com gerúndio: ao português europeu Vi a Ana a atravessar a rua corresponde Vi a Ana atravessando a rua.
Perceção direta ou informação
O infinitivo apresenta normalmente perceção direta da situação. Uma oração com que pode apresentar o conteúdo como facto inferido ou informação adquirida.
- Vi a Marta sair. — observei a saída;
- Vi que a Marta tinha saído. — constatei o resultado ou compreendi o facto;
- Ouvi o Rui cantar. — percecionei a voz;
- Vi os atletas entrar em campo. — observei essa ação diretamente;
- Ouvi dizer que o Rui vai cantar. — recebi essa informação de outras pessoas.
Esta diferença explica por que ver alguém fazer não é uma simples forma abreviada de ver que alguém fez.
Realizador omitido e revisão
Com mandar e fazer, o realizador pode ficar implícito quando interessa sobretudo o serviço ou o resultado.
- Mandei reparar o computador. — alguém o reparou por minha indicação;
- A empresa fez construir um novo armazém. — a empresa causou a construção;
- Mandámos entregar as encomendas de manhã. — o serviço de entrega realizou a ação.
Para rever a construção:
- identifica causa, ordem, permissão ou perceção;
- localiza quem realiza o infinitivo;
- escolhe uma forma flexionada apenas quando quiseres realçar o sujeito nominal;
- com pronome átono, prefere o infinitivo não flexionado;
- distingue perceção direta de informação com que.
Em síntese, fê-los sair causa a saída; viu-os sair perceciona-a; viu-os a sair destaca o processo. A estrutura é compacta, mas contém dois participantes e duas relações semânticas.
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Verbos causativos e percetivos
13 wordsLast updated October 11, 2026