B2 · Upper IntermediateLesson 4 of 4

Subida do clítico em locuções verbais

Aprende a subida do clítico em locuções verbais portuguesas, quando o pronome átono se liga ao verbo principal em vez do infinitivo. Nível B2.

Um pronome, dois verbos

Numa locução verbal, um verbo finito combina-se com infinitivo, gerúndio ou particípio. O pronome átono pode depender semanticamente do verbo principal, mas ligar-se ao verbo mais alto.

Quero explicar-lhe a situação.

Quero-lhe explicar a situação.

Na segunda frase, lhe é complemento de explicar, mas aparece junto de quero. Este movimento é chamado subida do clítico.

Para descobrir a função do pronome, pergunta qual verbo seleciona o complemento: explica-se algo a alguém. A posição gráfica não muda essa relação.

Com e sem subida

No português europeu, vários verbos modais, temporais e aspetuais admitem as duas posições.

Sem subida Com subida
Posso dizer-lhe a verdade. Posso-lhe dizer a verdade.
Vou encontrá-lo amanhã. Vou-o encontrar amanhã.
Quero vê-la hoje. Quero-a ver hoje.
A Marta começou a sentir-se melhor. A Marta começou-se a sentir melhor.

Com o, a, os, as, a ligação ao infinitivo altera a forma: ver + a → vê-la. Se o clítico sobe, liga-se ao verbo finito: quero-a ver.

O efeito dos fatores de próclise

Quando o clítico sobe, a sua posição em relação ao verbo finito segue as regras normais. Sem fator, aparece em ênclise; com negação, advérbios como já, nunca, sempre, só, também, ainda, quantificadores ou indefinidos como todos, ninguém, alguém, tudo, e conjunções subordinativas como que, quando, se, porque, aparece em próclise.

Sem fator: Posso-lhe explicar o problema.

Com negação: Não lhe posso explicar o problema.

Com relativo: O problema que lhe quero explicar é urgente.

Também é possível manter o clítico no infinitivo: Não posso explicar-lhe o problema; O problema que quero explicar-lhe é urgente. Assim, o fator de próclise não obriga o pronome a subir.

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Numa locução verbal, um verbo finito combina-se com

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Infinitivo, preposição e limites

A subida é frequente com verbos como poder, dever, querer, ir, começar a e estar a:

  • Estou-me a preparar / Estou a preparar-me;
  • Devo-lhe responder / Devo responder-lhe;
  • Vamo-nos encontrar / Vamos encontrar-nos.

Em vamo-nos, o -s final de vamos cai antes de nos: vamos + nos → vamo-nos.

Com a, a subida é possível: Começou-se a sentir melhor; Estou-me a preparar; Ando-te a procurar. Com por e de, o clítico fica no infinitivo: Acabou por encontrá-lo, não acabou-o por encontrar; Tenho de explicar-lhe; Hei de contar-te.

Nem toda a sequência de dois verbos forma um domínio que permita subida. Se o infinitivo constituir uma oração mais independente, o pronome fica junto dele: Prometi ajudar-te. A frase Prometi-te ajudar também existe, mas nela te é o destinatário da promessa, não o complemento de ajudar.

Não apliques a subida apenas porque há dois verbos. A construção tem de formar um complexo verbal compatível com esse processo.

O particípio não recebe o clítico

Nos tempos compostos com particípio, o único verbo que pode receber o clítico é o auxiliar. Por isso, não há aqui uma escolha estilística entre posição alta e baixa.

Correto Incorreto
Tenho-o visto muitas vezes. Tenho visto-o muitas vezes.
Tinham-lhe contado tudo. Tinham contado-lhe tudo.

Com um fator de próclise, o pronome fica antes do auxiliar: Já lhe tinham contado tudo; Nunca o tinha visto; Sei que lhe tinham contado. Aqui, a posição alta não é uma alternativa estilística livre: o particípio não aceita ênclise.

Com dois clíticos, a subida mantém as duas possibilidades: Quero dar-to / Quero-to dar. Se o verbo finito estiver no futuro ou no condicional, a norma escrita muito formal pode recorrer à mesóclise; a combinação de clíticos e a mesóclise são estudadas em detalhe em lições próprias.

Variação no espaço lusófono

No português europeu, a subida é produtiva: vou-te contar alterna com vou contar-te. No português brasileiro falado, é muito comum colocar o pronome antes do verbo principal: vou te contar, sem hífen. A escrita formal brasileira pode escolher outras soluções conforme a norma e o pronome usado.

Nas variedades africanas, coexistem padrões próximos do europeu e extensões da próclise, com diferenças entre países e falantes. Podem surgir tanto construções com subida como sequências semelhantes a vou te contar.

Para analisar uma locução:

  1. identifica o verbo de que o pronome é complemento;
  2. verifica se os verbos formam um complexo compatível;
  3. escolhe manter o clítico em baixo ou fazê-lo subir;
  4. se subir, aplica ao verbo finito os fatores de próclise;
  5. nunca ligues o clítico por ênclise a um particípio.

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Last updated October 11, 2026