Subida do clítico em locuções verbais
Um pronome, dois verbos
Numa locução verbal, um verbo finito combina-se com infinitivo, gerúndio ou particípio. O pronome átono pode depender semanticamente do verbo principal, mas ligar-se ao verbo mais alto.
Quero explicar-lhe a situação.
Quero-lhe explicar a situação.
Na segunda frase, lhe é complemento de explicar, mas aparece junto de quero. Este movimento é chamado subida do clítico.
Para descobrir a função do pronome, pergunta qual verbo seleciona o complemento: explica-se algo a alguém. A posição gráfica não muda essa relação.
Com e sem subida
No português europeu, vários verbos modais, temporais e aspetuais admitem as duas posições.
| Sem subida | Com subida |
|---|---|
| Posso dizer-lhe a verdade. | Posso-lhe dizer a verdade. |
| Vou encontrá-lo amanhã. | Vou-o encontrar amanhã. |
| Quero vê-la hoje. | Quero-a ver hoje. |
| A Marta começou a sentir-se melhor. | A Marta começou-se a sentir melhor. |
Com o, a, os, as, a ligação ao infinitivo altera a forma: ver + a → vê-la. Se o clítico sobe, liga-se ao verbo finito: quero-a ver.
O efeito dos fatores de próclise
Quando o clítico sobe, a sua posição em relação ao verbo finito segue as regras normais. Sem fator, aparece em ênclise; com negação, relativo ou interrogativo, aparece em próclise.
Sem fator: Posso-lhe explicar o problema.
Com negação: Não lhe posso explicar o problema.
Com relativo: O problema que lhe quero explicar é urgente.
Também é possível manter o clítico no infinitivo: Não posso explicar-lhe o problema; O problema que quero explicar-lhe é urgente. Assim, o fator de próclise não obriga o pronome a subir.
Infinitivo, preposição e limites
A subida é frequente com verbos como poder, dever, querer, ir, começar a e estar a:
- Estou-me a preparar / Estou a preparar-me;
- Devo-lhe responder / Devo responder-lhe;
- Vamo-nos encontrar / Vamos encontrar-nos.
Nem toda a sequência de dois verbos forma um domínio que permita subida. Se o infinitivo constituir uma oração mais independente, o pronome fica junto dele: Prometi ajudar-te. A frase Prometi-te ajudar também existe, mas nela te é o destinatário da promessa, não o complemento de ajudar. Certas preposições bloqueiam a subida: Acabou por encontrá-lo, não acabou-o por encontrar.
Não apliques a subida apenas porque há dois verbos. A construção tem de formar um complexo verbal compatível com esse processo.
O particípio não recebe o clítico
Nos tempos compostos com particípio, o pronome liga-se ao auxiliar, porque o particípio não funciona como hospedeiro do clítico.
| Correto | Incorreto |
|---|---|
| Tenho-o visto muitas vezes. | Tenho visto-o muitas vezes. |
| Já lhe tinham contado tudo. | Já tinham contado-lhe tudo. |
Com um fator de próclise, o pronome fica antes do auxiliar: Nunca o tinha visto; Sei que lhe tinham contado. Aqui, a posição alta não é uma alternativa estilística livre: o particípio não aceita ênclise.
Variação no espaço lusófono
No português europeu, a subida é produtiva: vou-te contar alterna com vou contar-te. No português brasileiro falado, é muito comum colocar o pronome antes do verbo principal: vou te contar, sem hífen. A escrita formal brasileira pode escolher outras soluções conforme a norma e o pronome usado.
Nas variedades africanas, coexistem padrões próximos do europeu e extensões da próclise, com diferenças entre países e falantes. Podem surgir tanto construções com subida como sequências semelhantes a vou te contar.
Para analisar uma locução:
- identifica o verbo de que o pronome é complemento;
- verifica se os verbos formam um complexo compatível;
- escolhe manter o clítico em baixo ou fazê-lo subir;
- se subir, aplica ao verbo finito os fatores de próclise;
- nunca ligues o clítico por ênclise a um particípio.
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Last updated July 20, 2026