C1 · AdvancedLesson 2 of 4

Clíticos no português europeu e no português brasileiro

Compara a posição dos pronomes clíticos me, te, se, o e lhe no português europeu e no português brasileiro e percebe as suas diferenças, nível C1.

By the flumi team About 9 min read Percurso de gramática: Registo, variedades e cortesia

Introdução: comparar sistemas, não apenas posições

Os clíticos são pronomes átonos que dependem fonologicamente de um verbo: me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes. O português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) diferem não só na posição destes pronomes, mas também na sua frequência, nas formas preferidas e nas alternativas usadas para retomar um referente.

PE: A investigadora entregou-me o relatório e eu li-o ontem.

PB corrente: A pesquisadora me entregou o relatório e eu li ontem.

PB monitorizado: A pesquisadora me entregou o relatório e eu o li ontem.

Estas frases não representam todos os falantes nem todos os contextos. Mostram três possibilidades estruturadas: ênclise e clíticos de terceira pessoa produtivos no PE; próclise alargada no PB; omissão ou realização diferente do complemento em certos contextos brasileiros.

Formas de tratamento e paradigmas pronominais

A referência ao interlocutor organiza-se de maneira diferente conforme a região, a relação social e o registo. Por isso, o sujeito e o clítico nem sempre pertencem ao paradigma que uma tabela escolar faria prever.

Configuração Exemplo possível Observação
tu + segunda pessoa Tu sabes que te apoio. combinação regular e produtiva no PE e em várias regiões do PB
tratamento de terceira pessoa no PE A senhora quer que eu a acompanhe? no PE, o clítico concorda gramaticalmente com a terceira pessoa
você + te no PB Você sabe que eu te apoio. combinação corrente em muitos usos brasileiros
interlocutor retomado por lhe Envio-lhe os dados amanhã. PE de referência: lhe pode marcar o destinatário sem repetir a forma de tratamento

No PE, você não é uma escolha neutra em todas as relações e pode adquirir valores pragmáticos diferentes. No PB, é muito mais amplo, mas alterna com tu e com outras formas segundo a região. A sequência você + te não deve ser analisada automaticamente como distração ou erro: pode integrar um paradigma de uso estável.

As etiquetas “segunda pessoa” e “terceira pessoa” podem descrever duas dimensões diferentes. Você refere-se ao interlocutor, mas exige verbo na terceira pessoa: você sabe. A escolha dos clíticos acrescenta uma dimensão regional e social.

Próclise e ênclise em orações finitas

No padrão europeu, uma oração principal afirmativa sem fator de próclise apresenta geralmente ênclise: A Marta telefonou-me. Desencadeiam próclise, entre outros, a negação (A Marta não me telefonou), a subordinação (Sei que me telefonou), os relativos e interrogativos, advérbios como já, ainda, também, só, sempre (Já me disse), talvez (Talvez me diga amanhã) e quantificadores ou indefinidos em posição de sujeito, como todos, alguém, ninguém, alguns (Todos me viram).

No PB falado, a próclise é muito mais ampla e ocorre normalmente depois de um sujeito expresso: A Marta me telefonou. Em registos informais, também pode iniciar uma oração: Me avisa quando chegar. A escrita brasileira muito monitorizada conserva mais padrões prescritos, mas não reproduz simplesmente a distribuição europeia.

Contexto PE de referência PB corrente Observação
principal afirmativa Ela contou-me tudo. Ela me contou tudo. contraste frequente
início absoluto informal Conta-me tudo. Me conta tudo. no PB, a próclise inicial é corrente na fala informal
negação Ela não me contou. Ela não me contou. convergência: a negação atrai o clítico nas duas variedades
subordinada Espero que me conte. Espero que me conte. convergência: a subordinada atrai o clítico nas duas variedades

O contraste é, portanto, uma diferença de distribuição, não uma oposição absoluta. Há contextos de próclise partilhados e há variação interna nas duas variedades.

Os pronomes reflexos também não têm a mesma frequência. No PE, diz-se normalmente Levantei-me cedo e Esqueci-me disso. No PB corrente, é frequente omitir o reflexo nestes verbos: Levantei cedo e Esqueci disso.

Com se impessoal ou passivo, a diferença pode aparecer na concordância. No PE de referência, Alugam-se casas concorda com casas. No PB corrente, também se ouve Aluga-se casas, com se interpretado de forma impessoal; na escrita formal brasileira, a concordância no plural pode ser mantida.

Retomar um complemento de terceira pessoa

No PE, o, a, os, as são produtivos na fala e na escrita: Conheces a Ana? Conheço-a. No PB, estas formas são mais frequentes na escrita formal e em estilos monitorizados: Eu a conheço. Na conversa, há outras estratégias, cuja escolha depende da animacidade, do contexto e da região:

  • pronome forte: Eu conheço ela;
  • grupo preposicionado, sobretudo com complemento indireto: Entreguei o documento para ela;
  • complemento não expresso quando o referente é recuperável: Você já leu o relatório? Já li.;
  • repetição lexical ou demonstrativo: Já li o relatório; Já li isso.

Também lhe apresenta variação. Na norma de referência, marca complemento indireto: Entreguei-lhe o documento. Em certos usos brasileiros, pode referir-se ao interlocutor e ocorrer com verbos cujo complemento seria tradicionalmente direto: em fala regional ou pouco monitorizada, pode ouvir-se Eu lhe vi ontem ou Não lhe conheço. Estas formas não pertencem à norma escrita formal e a sua distribuição varia bastante entre regiões e grupos de falantes.

Alomorfia depois do verbo no PE

No PE, os clíticos de terceira pessoa mudam de forma quando seguem certos finais verbais. Depois de -r, -s ou -z, usam-se -lo, -la, -los, -las: comprar + o → comprá-lo; faz + o → fá-lo; fizemos + o → fizemo-lo; pus + o → pu-lo. Depois de um final nasal, usam-se -no, -na, -nos, -nas: põem + o → põem-no; dão + as → dão-nas. No PB, a próclise — eu o conheço — evita frequentemente estas formas, que são particularmente características da escrita e do padrão europeu.

Não substitua mecanicamente todo o/a europeu por ele/ela brasileiro, nem todo lhe por para ele/ela. A naturalidade depende da função sintática, do referente, do género textual e da região.

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Os clíticos são que dependem fonologicamente de ; entre eles contam-se «me», «te», «se», «o», «a» e «lhe».

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Complexos verbais e sequências de clíticos

Com dois verbos, o PE pode permitir mais de uma ligação, desde que a construção aceite a chamada subida do clítico:

  • Vou-lhe explicar o problema.
  • Vou explicar-lhe o problema.
  • Não lhe vou explicar o problema.

No PB corrente, é frequente o clítico surgir antes do verbo principal, sem se ligar graficamente ao auxiliar: Eu vou te explicar; Ela estava me esperando. Em escrita formal, também aparecem soluções como eu lhe vou explicar, eu o estava analisando ou construções reformuladas segundo o padrão adotado.

As combinações mo, to, lho, no-lo e semelhantes pertencem ao sistema europeu: Já lho entreguei significa “já o entreguei a ele/ela”. Mesmo no PE, uma alternativa analítica pode ser mais transparente: Já lhe entreguei o documento. No PB contemporâneo, estas sequências são raras e soam geralmente literárias, arcaizantes ou fortemente monitorizadas.

A mesóclise — dir-lhe-ei — ocorre apenas no futuro do indicativo e no condicional, em registos formais, quando não há fator de próclise. Por isso, escreve-se dir-lhe-ei, com dupla hifenização, mas não lhe direi. Tanto no PE como no PB, muitos falantes preferem perífrases: vou dizer-lhe ou vou lhe dizer, conforme a variedade.

Norma, registo e espaço lusófono

“Português europeu” e “português brasileiro” designam conjuntos heterogéneos. Uma conversa, uma decisão judicial e uma mensagem publicitária não mobilizam necessariamente o mesmo repertório. Além disso, idade, região, escolarização, meio e identidade influenciam as escolhas.

Esta página compara sobretudo PE e PB. As variedades africanas têm normas, usos e situações de contacto próprios; não se deve generalizar uma observação sobre um país para Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe.

Ao comparar variedades, separe sempre três perguntas: que formas existem?, onde se colocam? e em que registos são usadas? Uma resposta sobre a escrita formal não descreve automaticamente a conversa espontânea.

Analisar e adaptar um texto

Para rever clíticos num texto pluricêntrico:

  1. identifique a variedade e o público de referência;
  2. confirme a função: complemento direto, indireto, reflexo ou parte do verbo;
  3. delimite a oração e procure fatores de próclise;
  4. observe se há um complexo verbal e mais de uma posição possível;
  5. verifique como o texto retoma complementos de terceira pessoa;
  6. mantenha coerentes as formas de tratamento, sem apagar combinações regionais legítimas;
  7. reformule quando uma sequência correta for pouco transparente para o público.

Adaptar não é trocar pronomes palavra por palavra. É reconstruir a referência, a colocação e o registo dentro do sistema da variedade escolhida.

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Last updated October 11, 2026