Clíticos no português europeu e no português brasileiro
Comparar sistemas, não apenas posições
Os clíticos são pronomes átonos que dependem fonologicamente de um verbo: me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes. O português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) diferem não só na posição destes pronomes, mas também na sua frequência, nas formas preferidas e nas alternativas usadas para retomar um referente.
PE: A investigadora entregou-me o relatório e eu li-o ontem.
PB corrente: A pesquisadora me entregou o relatório e eu li ontem.
PB monitorado: A pesquisadora me entregou o relatório e eu o li ontem.
Estas frases não representam todos os falantes nem todos os contextos. Mostram três possibilidades estruturadas: ênclise e clíticos de terceira pessoa produtivos no PE; próclise alargada no PB; omissão ou realização diferente do complemento em certos contextos brasileiros.
Formas de tratamento e paradigmas pronominais
A referência ao interlocutor organiza-se de maneira diferente conforme a região, a relação social e o registo. Por isso, o sujeito e o clítico nem sempre pertencem ao paradigma que uma tabela escolar faria prever.
| Configuração | Exemplo possível | Observação |
|---|---|---|
| tu + segunda pessoa | Tu sabes que te apoio. | combinação regular e produtiva no PE e em várias regiões do Brasil |
| tratamento de terceira pessoa no PE | A senhora quer que eu a acompanhe? | o clítico concorda gramaticalmente com a terceira pessoa |
| você + te no PB | Você sabe que eu te apoio. | combinação corrente em muitos usos brasileiros |
| interlocutor retomado por lhe | Eu lhe envio os dados amanhã. | pode marcar o destinatário sem repetir a forma de tratamento |
No PE, você não é uma escolha neutra em todas as relações e pode adquirir valores pragmáticos diferentes. No PB, é muito mais amplo, mas alterna com tu e com outras formas segundo a região. A sequência você + te não deve ser analisada automaticamente como distração ou erro: pode integrar um paradigma de uso estável.
As etiquetas “segunda pessoa” e “terceira pessoa” podem descrever duas dimensões diferentes. Você refere-se ao interlocutor, mas exige verbo na terceira pessoa: você sabe. A escolha dos clíticos acrescenta uma dimensão regional e social.
Próclise e ênclise em orações finitas
No padrão europeu, uma oração principal afirmativa sem fator de próclise apresenta geralmente ênclise: A Marta telefonou-me. Negação, subordinação, relativos, interrogativos e certos elementos de foco desencadeiam próclise: A Marta não me telefonou; Sei que me telefonou.
No PB falado, a próclise é muito mais ampla e ocorre normalmente depois de um sujeito expresso: A Marta me telefonou. Em registos informais, também pode iniciar uma oração: Me avisa quando chegar. A escrita brasileira muito monitorizada conserva mais padrões prescritos, mas não reproduz simplesmente a distribuição europeia.
| Contexto | PE de referência | PB corrente |
|---|---|---|
| principal afirmativa | Ela contou-me tudo. | Ela me contou tudo. |
| início absoluto informal | Conta-me tudo. | Me conta tudo. |
| negação | Ela não me contou. | Ela não me contou. |
| subordinada | Espero que me conte. | Espero que me conte. |
O contraste é, portanto, uma diferença de distribuição, não uma oposição absoluta. Há contextos de próclise partilhados e há variação interna nas duas variedades.
Retomar um complemento de terceira pessoa
No PE, o, a, os, as são produtivos na fala e na escrita: Conheces a Ana? Conheço-a. No PB, estas formas são mais frequentes na escrita formal e em estilos monitorizados: Eu a conheço. Na conversa, há outras estratégias, cuja escolha depende da animacidade, do contexto e da região:
- pronome forte: Eu conheço ela;
- grupo preposicionado, sobretudo com complemento indireto: Entreguei o documento para ela;
- complemento não expresso quando o referente é recuperável: Você já leu o relatório? Já li.;
- repetição lexical ou demonstrativo: Já li o relatório; Já li isso.
Também lhe apresenta variação. Na norma de referência, marca complemento indireto: Entreguei-lhe o documento. Em certos usos brasileiros, pode referir-se ao interlocutor e ocorrer com verbos cujo complemento seria tradicionalmente direto. Esta extensão não tem a mesma distribuição em todo o Brasil nem o mesmo estatuto em todos os registos.
Não substitua mecanicamente todo o/a europeu por ele/ela brasileiro, nem todo lhe por para ele/ela. A naturalidade depende da função sintática, do referente, do género textual e da região.
Complexos verbais e sequências de clíticos
Com dois verbos, o PE pode permitir mais de uma ligação, desde que a construção aceite a chamada subida do clítico:
- Vou-lhe explicar o problema.
- Vou explicar-lhe o problema.
- Não lhe vou explicar o problema.
No PB corrente, é frequente o clítico surgir antes do verbo principal, sem se ligar graficamente ao auxiliar: Eu vou te explicar; Ela estava me esperando. Em escrita formal, também aparecem soluções como eu lhe vou explicar, eu o estava analisando ou construções reformuladas segundo o padrão adotado.
As combinações mo, to, lho, no-lo e semelhantes pertencem ao sistema europeu: Já lho entreguei significa “já o entreguei a ele/ela”. Mesmo no PE, uma alternativa analítica pode ser mais transparente: Já lhe entreguei o documento. No PB contemporâneo, estas sequências são raras e soam geralmente literárias, arcaizantes ou fortemente monitorizadas.
A mesóclise — dir-lhe-ei — está circunscrita a registos formais e a condições sintáticas específicas. Tanto no PE como no PB, muitos falantes preferem perífrases: vou dizer-lhe ou vou lhe dizer, conforme a variedade.
Norma, registo e espaço lusófono
“Português europeu” e “português brasileiro” designam conjuntos heterogéneos. Uma conversa, uma decisão judicial e uma mensagem publicitária não mobilizam necessariamente o mesmo repertório. Além disso, idade, região, escolarização, meio e identidade influenciam as escolhas.
Nas variedades africanas, a escrita formal foi historicamente influenciada pelo modelo europeu, mas os usos efetivos apresentam padrões próprios e situações de contacto linguístico distintas. Pode haver próclise alargada ou outras reorganizações, mas uma observação feita em Angola não deve ser projetada sobre Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe.
Ao comparar variedades, separe sempre três perguntas: que formas existem?, onde se colocam? e em que registos são usadas? Uma resposta sobre a escrita formal não descreve automaticamente a conversa espontânea.
Analisar e adaptar um texto
Para rever clíticos num texto pluricêntrico:
- identifique a variedade e o público de referência;
- confirme a função: complemento direto, indireto, reflexo ou parte do verbo;
- delimite a oração e procure fatores de próclise;
- observe se há um complexo verbal e mais de uma posição possível;
- verifique como o texto retoma complementos de terceira pessoa;
- mantenha coerentes as formas de tratamento, sem apagar combinações regionais legítimas;
- reformule quando uma sequência correta for pouco transparente para o público.
Adaptar não é trocar pronomes palavra por palavra. É reconstruir a referência, a colocação e o registo dentro do sistema da variedade escolhida.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026