Concessivas intensivas e inversão concessiva
Um obstáculo em qualquer grau
Uma concessiva intensiva percorre diferentes graus ou possibilidades e afirma que nenhum deles impede o resultado da oração principal:
- Por mais que insistas, não mudarei de opinião.
- Por muito difícil que seja, o problema tem solução.
- Por maiores que sejam os custos, o projeto continuará.
A insistência pode aumentar, a dificuldade pode atingir um grau elevado e os custos podem variar; a conclusão mantém-se. Por isso, estas construções também são chamadas condicional-concessivas universais.
A oração não afirma necessariamente que o grau máximo se verifica. Apresenta todos os graus relevantes como insuficientes para alterar o resultado.
Por mais que e por muito que
As duas locuções introduzem verbo no conjuntivo, mas combinam-se de maneiras diferentes.
| Estrutura | Exemplo |
|---|---|
| por mais que + verbo | Por mais que explique, eles não compreendem. |
| por muito que + verbo | Por muito que estude, continua inseguro. |
| por mais + adjetivo/advérbio + que | Por mais cuidadosamente que trabalhe, pode errar. |
| por muito + nome + que | Por muito dinheiro que ofereçam, não venderemos. |
| por + adjetivo + que | Por estranho que pareça, é verdade. |
Com um adjetivo graduável, por mais percorre uma escala: por mais caro que seja. Por muito pode quantificar uma atividade ou um nome: por muito que tente; por muito apoio que receba.
Evite duplicar a intensidade: por mais muito difícil que seja e por muito que estude muito são redundantes. Diga por mais difícil que seja ou por muito que estude.
Tempo, factualidade e hipótese
O tempo do conjuntivo ajuda a situar e a avaliar a situação concessiva:
- Por mais que tente, não consigo. — presente ou repetição atual.
- Por mais que tenha tentado, não conseguiu. — tentativa passada apresentada como factual.
- Por mais que tentasse, não conseguia. — situação passada habitual ou enquadrada.
- Por mais que tivesse tentado, não teria conseguido. — cenário passado contrafactual.
O mais-que-perfeito do conjuntivo favorece uma leitura hipotética ou contrária aos factos. Por isso, combina naturalmente com condicional na oração principal. Para uma concessão passada assumida como real, o perfeito do conjuntivo é frequentemente mais claro: Por maiores que tenham sido os problemas, ela não desistiu.
Concessivas com repetição do verbo
O português dispõe de construções em que um verbo no presente do conjuntivo é retomado pelo futuro do conjuntivo:
| Construção | Sentido aproximado |
|---|---|
| Venha quem vier, será recebido. | Independentemente de quem vier. |
| Aconteça o que acontecer, continuaremos. | Independentemente do que acontecer. |
| Diga o que disser, não me convence. | Independentemente do que disser. |
| Esteja onde estiver, telefono-lhe. | Independentemente do lugar onde estiver. |
| Custe o que custar, terminaremos. | Independentemente do custo ou esforço. |
Faça o tempo que fizer, sairei para caminhar.
O primeiro faça abre o conjunto de possibilidades; que fizer é uma relativa livre com futuro do conjuntivo. A construção equivale aproximadamente a Mesmo que esteja mau tempo, sairei.
Estas fórmulas estabelecem uma relação concessivo-condicional, embora nem todas sejam subordinadas introduzidas por conjunção. Funcionam muitas vezes como unidades relativamente autónomas, ligadas à oração seguinte pelo sentido.
Inversão do verbo e do sujeito
Em registos formais, retóricos ou literários, o verbo no conjuntivo pode preceder um sujeito expresso:
- Diga ele o que disser, não alteraremos o plano.
- Faça a direção o que fizer, haverá oposição.
- Seja a decisão qual for, respeitá-la-emos.
- Embora estivesse ele cansado, terminou o trabalho.
A ordem neutra seria embora ele estivesse cansado. A inversão dá relevo ao contraste e cria um ritmo mais solene. Nas fórmulas universais, como seja a decisão qual for, a ordem invertida está mais estabilizada.
Use a inversão apenas quando o efeito discursivo for intencional. Num relatório corrente, Embora ele estivesse cansado é mais transparente do que Embora estivesse ele cansado.
Concessão, condição ou alternativa
Compare:
- Se vier a diretora, começamos. — A vinda é uma condição que pode alterar o resultado.
- Venha quem vier, começamos às nove. — A identidade de quem vem não altera o resultado.
- Quer venha a diretora, quer não venha, começamos às nove. — As duas alternativas conduzem à mesma conclusão.
As três estruturas usam conjuntivo, mas organizam possibilidades de modo diferente. A condicional seleciona um cenário; a concessiva universal neutraliza todos os cenários relevantes; a construção quer... quer... enumera alternativas.
Outras fórmulas cristalizadas, como seja como for e doa a quem doer, também indicam que a conclusão se mantém apesar da circunstância considerada.
Registo e clareza
As concessivas intensivas são produtivas na fala e na escrita. As fórmulas repetitivas podem ser enfáticas ou idiomáticas; a inversão livre do sujeito é mais marcada. Uma acumulação destas estratégias pode tornar a frase teatral: Por mais difícil que seja, custe o que custar, faça a equipa o que fizer...
Ao rever:
- identifique a escala ou o conjunto de alternativas;
- confirme o conjuntivo exigido pela construção;
- alinhe o tempo da concessiva com a factualidade pretendida;
- distinga uma condição que altera o resultado de uma concessão que não o altera;
- substitua a inversão pela ordem neutra se não houver razão estilística para a manter.
A força destas construções está em mostrar que um obstáculo foi considerado e superado argumentativamente. A forma deve tornar essa relação mais nítida, não apenas mais ornamentada.
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Last updated July 20, 2026