Concordância por atração e silepse
Forma, proximidade e sentido
A concordância canónica copia no verbo, no adjetivo ou no particípio os traços do elemento que a controla. Em A lista dos candidatos foi publicada, o núcleo do sujeito é o singular feminino lista; o plural candidatos, embora esteja mais perto do verbo, não é o controlador.
Quando a concordância se afasta deste padrão, é necessário distinguir três fenómenos:
| Fenómeno | Princípio | Estatuto possível |
|---|---|---|
| concordância sintática | segue o núcleo controlador | opção não marcada |
| concordância por atração | segue o termo mais próximo | construção licenciada em certos contextos ou lapso de processamento |
| silepse | segue o referente ou a ideia construída | recurso expressivo, alternância limitada ou forma não padrão |
As fronteiras não são idênticas em todas as gramáticas. Concordância semântica, lógica, ad sensum e silepse podem sobrepor-se parcialmente. Uma análise de nível C2 deve, por isso, identificar a estrutura concreta e avaliar o registo, em vez de aplicar um rótulo como se ele resolvesse a aceitabilidade.
Dois sentidos de atração
Na tradição gramatical, concordância atrativa pode designar uma concordância parcial admitida com o elemento mais próximo. Perante nomes coordenados, um adjetivo anteposto ocorre normalmente no singular e concorda com o primeiro:
- Revelou profunda coragem e discernimento.
- Demonstrou extraordinário rigor e paciência.
Com o adjetivo posposto, a concordância global é mais transparente: coragem e discernimento profundos; rigor e paciência extraordinários. A concordância apenas com o nome adjacente encontra-se em certos usos e tradições estilísticas, mas pode criar a impressão de que o adjetivo só modifica esse nome.
Na psicolinguística, atração designa antes a interferência de um nome que não controla a concordância:
- A lista dos candidatos foi publicada.
- A lista dos candidatos foram publicados.
O asterisco assinala aqui uma forma a evitar na norma monitorizada: o plural próximo invadiu a concordância do verbo e do particípio. Quanto maior for a distância entre o núcleo e o alvo, maior pode ser a pressão do nome interveniente.
Uma opção atrativa autorizada numa coordenação e um erro de atração dentro de um grupo nominal não são a mesma coisa. O primeiro pertence ao repertório gramatical; o segundo revela uma recuperação incorreta do controlador.
Encontrar o verdadeiro controlador
Os complementos introduzidos por de são fontes frequentes de atração. Para rever a frase, reduza o grupo nominal ao seu núcleo:
| Grupo completo | Núcleo isolado | Concordância |
|---|---|---|
| O relatório dos peritos | o relatório | chegou |
| A descrição das falhas | a descrição | parecia incompleta |
| Os efeitos da medida | os efeitos | foram avaliados |
| A sucessão de incidentes | a sucessão | provocou atrasos |
Esta redução não se aplica cegamente às expressões partitivas e quantitativas. Em A maioria dos deputados votou/votaram a favor, o singular e o plural podem corresponder a modos diferentes, mas licenciados, de conceptualizar o conjunto. Não se deve classificar automaticamente o plural como lapso de proximidade.
O diagnóstico combina três perguntas:
- Qual é o núcleo sintático do sujeito?
- A construção admite concordância semântica ou variável?
- A mudança de número produz uma interpretação coerente ou apenas copia o nome vizinho?
Na revisão de textos extensos, sublinhe separadamente cada sujeito e o respetivo verbo. A leitura silenciosa tende a mascarar a atração porque o plural interveniente permanece ativo na memória.
Orações relativas e níveis de concordância
Uma frase pode conter mais de uma relação de concordância. Em Um dos relatórios que chegaram ontem desapareceu, há dois alvos:
- chegaram concorda com o antecedente plural relatórios;
- desapareceu concorda com o núcleo singular um do sujeito da oração principal.
É precisamente esta alternância plural–singular que favorece lapsos. Em Foi uma das investigadoras que assinaram o parecer, a relativa caracteriza o conjunto das investigadoras que assinaram. Se se escrever a única das investigadoras que assinou, a estrutura pode selecionar como antecedente a única, singular. Não basta, portanto, escolher o nome mais próximo de que; é necessário determinar a que constituinte a relativa se liga e que leitura resulta dessa ligação.
Compare ainda A fotografia dos atletas que foi publicada com A fotografia dos atletas que foram premiados. No primeiro caso, que retoma fotografia; no segundo, retoma atletas. A forma verbal é uma pista da estrutura pretendida, não mera decoração morfológica.
Silepse de número: o grupo e os seus membros
Na silepse de número, uma expressão singular pode ativar uma pluralidade conceptual. A escrita literária encontra sequências como A multidão avançou pela praça; junto ao palco, começaram a empurrar-se, nas quais o discurso passa do coletivo para os indivíduos que o compõem. Contudo, nem toda a mudança aparente constitui concordância entre o mesmo sujeito e dois verbos: na segunda oração pode haver um novo sujeito, expresso ou implícito.
É útil separar três casos:
| Construção | Análise prudente |
|---|---|
| A maioria dos presentes saiu/saíram. | alternância de concordância licenciada |
| A equipa entrou em campo. Começaram a aquecer. | mudança anafórica: os jogadores tornam-se o referente |
| A equipa entraram em campo. | plural não padrão no português europeu monitorizado |
Assim, invocar a silepse não transforma qualquer discordância em recurso estilístico. A distância entre o coletivo e o plural, a existência de uma nova oração e a clareza da passagem dos conjuntos aos membros influenciam a aceitabilidade.
Silepse de pessoa e inclusão do locutor
Na silepse de pessoa, a flexão verbal inclui o locutor ou o interlocutor apesar de o grupo nominal estar formalmente na terceira pessoa. O exemplo tradicional Os portugueses somos do Ocidente contém um nós conceptual: quem fala inclui-se entre os portugueses.
No português europeu contemporâneo, esta construção isolada soa geralmente solene, histórica ou deliberadamente retórica. A formulação Nós, os portugueses, somos do Ocidente explicita a primeira pessoa e é mais natural. Compare:
Todos conhecemos o custo desta decisão.
O locutor inclui-se no conjunto delimitado por todos; a primeira pessoa do plural é interpretada sem esforço.
Todos conhecem o custo desta decisão.
O locutor apresenta o conjunto a partir de fora, ou deixa a inclusão indeterminada.
Em discursos institucionais, a alternância pode construir pertença e solidariedade. Fora desse enquadramento, uma mudança inesperada de terceira para primeira pessoa pode parecer erro ou produzir ambiguidade.
Silepse de género e referência humana
As formas de tratamento oferecem um contexto clássico de concordância pelo referente. O verbo mantém a terceira pessoa exigida pela expressão, mas o predicativo pode refletir o género da pessoa:
- dirigindo-se a um homem: Vossa Excelência parece preocupado;
- dirigindo-se a uma mulher: Vossa Excelência parece preocupada.
O nome Excelência é feminino nos dois casos; preocupado/preocupada descreve o referente humano. Certas gramáticas chamam a este padrão silepse de género; outras analisam-no como concordância semântica regular de predicativos com expressões de tratamento.
Não se deve generalizar livremente o modelo. Nomes comuns de género fixo, como a testemunha ou a vítima, mantêm normalmente a concordância gramatical nos determinantes e modificadores: a testemunha nervosa, mesmo quando o referente é um homem. Se for essencial tornar o género explícito, reformule: o homem que testemunhou parecia nervoso.
O rótulo silepse descreve uma relação entre forma e interpretação; não concede licença para ignorar a concordância. Em textos jurídicos, científicos ou administrativos, prefira a construção mais inequívoca, salvo quando a alternativa semântica estiver estabilizada.
Registo, variação e revisão final
O estatuto destas concordâncias varia entre géneros textuais, épocas e variedades do português. Uma silepse de pessoa consagrada pela retórica pode soar arcaizante numa conversa atual; padrões coloquiais com coletivos ou com a gente não têm a mesma aceitação na escrita monitorizada europeia, brasileira, angolana ou moçambicana. Para descrever outra variedade, são necessários dados dessa comunidade.
Antes de conservar uma discordância aparente, verifique:
- Controlador: que núcleo desencadeia formalmente a concordância?
- Interveniente: há um nome mais próximo a exercer atração indevida?
- Leitura: a flexão exprime conjunto, membros, inclusão pessoal ou género do referente?
- Estrutura: existe realmente um único sujeito ou houve mudança anafórica?
- Registo: a forma é neutra, literária, retórica, coloquial ou estigmatizada?
- Alternativa: uma reformulação preserva o efeito e reduz a ambiguidade?
O uso competente não consiste em preferir sempre a forma literal nem em defender toda a concordância pelo sentido. Consiste em saber onde a gramática admite variação, onde o discurso motiva uma silepse e onde a proximidade apenas fez o falante perder de vista o verdadeiro controlador.
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Vocabulary in this lesson
Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.
Last updated July 20, 2026