Elipse e retomada em orações relativas
Comparar três estratégias de relativização
Uma oração relativa liga um antecedente a uma posição interna. Quando essa posição exige preposição, o português dispõe de estratégias diferentes na fala e na escrita.
| Estratégia | Exemplo | O que aparece na posição interna |
|---|---|---|
| padrão com lacuna | a colega com quem falei __ | uma lacuna ligada a com quem |
| cortadora | a colega que falei __ | lacuna sem a preposição esperada |
| resumptiva | a colega que falei com ela | pronome forte com a preposição |
O traço __ serve apenas para mostrar o lugar interpretado; não se escreve na frase. Na estratégia padrão, com quem representa o complemento de falei. Na cortadora, a preposição com não é expressa. Na resumptiva, com ela retoma o antecedente dentro da oração.
Uma relativa cortadora e uma resumptiva não são lapsos aleatórios. São estratégias documentadas no uso, com distribuição própria. Isso não significa que tenham o mesmo estatuto da relativa padrão em todos os géneros.
Distinguir lacuna de elipse
Na relativa padrão, a lacuna corresponde à função representada pelo elemento relativo:
- a pessoa que __ chegou — sujeito;
- o relatório que revimos __ — complemento direto;
- a investigadora com quem trabalhámos __ — complemento de trabalhar com;
- o tema sobre o qual escreveste __ — complemento preposicionado.
A lacuna faz parte da dependência relativa; não é simplesmente material repetido que se decidiu omitir. Por isso, a oração finita continua a precisar de um marcador relativo. O relatório revi ontem é uma oração principal com ordem marcada, não a versão elíptica de o relatório que revi ontem.
Já numa elipse discursiva, uma expressão anteriormente disponível pode ficar sem realização fonética:
Há quem concorde e quem não [concorde].
O segundo predicado é recuperado por paralelismo. Os parênteses retos mostram a reconstrução para fins de análise; não pertencem ao texto final.
Pergunta se a ausência cria a ligação ao antecedente ou se recupera palavras ditas numa estrutura paralela. No primeiro caso, tens uma lacuna relativa; no segundo, pode haver elipse.
Interpretar a retomada pronominal
Na relativa resumptiva, o pronome ou expressão anafórica ocupa uma posição interna e aponta para o antecedente:
- a pessoa que eu falei com ela;
- o assunto que ainda não pensei nele;
- uma proposta que ninguém sabia se a direção concordaria com ela.
A retoma torna local uma relação que pode ser difícil de manter, sobretudo quando a relativa é longa, contém encaixes ou foi construída durante fala espontânea. Também pode manter um tópico ativo ou reparar uma frase já iniciada.
Contudo, a complexidade não explica todas as ocorrências. Estudos de fala europeia e brasileira encontram resumptivas também em estruturas simples, com frequências condicionadas pelo tipo de complemento, pelo antecedente e pela comunidade.
Na escrita formal orientada pelo padrão europeu, preferem-se geralmente:
- a pessoa com quem falei;
- o assunto em que ainda não pensei;
- uma proposta com a qual ninguém sabia se a direção concordaria.
Não mantenhas simultaneamente uma ligação relativa completa e uma segunda retoma sem função: a pessoa com quem falei com ela, o autor cujo livro dele li. Com quem e cujo já representam as relações internas relevantes.
Reconhecer a relativa cortadora
Na estratégia cortadora, o relativo geral que introduz a oração e a preposição selecionada não aparece:
| Cortadora | Relação recuperada | Forma padrão formal |
|---|---|---|
| o livro que gosto | gostar de | o livro de que gosto |
| a colega que trabalhei | trabalhar com | a colega com quem trabalhei |
| a cidade que vivemos | viver em | a cidade em que vivemos |
| o dia que chegaram | chegar em/no dia | o dia em que chegaram |
A interpretação apoia-se no verbo, no antecedente e no contexto. Quando há mais de uma relação possível, a omissão aumenta a ambiguidade: o professor que falei pode exigir que o leitor reconstrua rapidamente com quem falei.
As cortadoras estão documentadas no português europeu falado, tanto em relativas restritivas como explicativas e com diferentes tipos de preposição. Também são produtivas no português brasileiro, com distribuições e avaliações próprias. Num texto formal de referência, a preposição diante do relativo continua a ser a opção esperada.
Não se trata de deixar a preposição no fim, como pode acontecer em inglês. A pessoa que falei com não pertence ao padrão português descrito; usa-se com quem falei ou, numa estratégia resumptiva, que falei com ela.
Recuperar material dentro da relativa
A elipse pode ocorrer no interior de relativas coordenadas quando o conteúdo omitido é inequivocamente recuperável.
| Frase | Material recuperado |
|---|---|
| Há quem concorde e quem não [concorde]. | verbo da primeira relativa livre |
| Escolhi as propostas que eram claras, não as que não [eram claras]. | predicado nominal |
| Uns entregaram o que deviam; outros, apenas o que podiam [entregar]. | infinitivo selecionado pelo modal |
| Estas são as medidas que a equipa apoiou e a direção não [apoiou]. | verbo na segunda oração coordenada, com polaridade oposta |
A negação, o tempo e a modalidade têm de continuar interpretáveis. Em os artigos que a Ana pode rever e os que o Rui não, pode recuperar-se pode rever ou apenas rever, consoante o contexto. Se as leituras produzirem compromissos diferentes, repõe o verbo.
Há candidatos que podem entregar hoje e outros que só amanhã.
A frase pode omitir podem entregar. O advérbio só e o contraste hoje/amanhã tornam a reconstrução natural. Se o segundo grupo tiver outra obrigação — por exemplo, só podem pagar amanhã —, a elipse deixa de ser segura.
Coordenar uma ou várias lacunas
Um antecedente pode relacionar-se com mais de uma posição em estruturas coordenadas:
- o relatório que li __ e resumi __ — dois verbos coordenados partilham o mesmo antecedente;
- o relatório que eu li __ e a Ana resumiu __ — duas orações coordenadas contêm lacunas paralelas;
- o relatório que eu li __ e que a Ana resumiu __ — a repetição de que torna a fronteira entre relativas mais visível.
As funções devem ser compatíveis. Em a pessoa que admiro __ e confio __, o primeiro verbo seleciona complemento direto, mas confiar exige em. A coordenação encobre a diferença. Reformula:
- a pessoa que admiro e em quem confio;
- a pessoa que admiro e na qual deposito confiança.
Uma combinação de lacuna e retoma — o tema que estudámos __ e depois escrevemos sobre ele — pode ocorrer no discurso, mas perde paralelismo. Num texto planeado, o tema que estudámos e sobre o qual depois escrevemos torna as duas relações explícitas.
Evitar retomas aparentes
Nem todo elemento anafórico dentro de uma relativa é um pronome resumptivo.
| Exemplo | Análise |
|---|---|
| O prazo terminou, o que criou problemas. | o que retoma toda a oração anterior. |
| Conheci a autora, que ela própria apresentou o livro. | ela própria pode ter valor enfático; a construção exige análise de ordem e variedade. |
| A cidade onde lá nasci mudou muito. | onde e lá duplicam a relação locativa no padrão formal. |
| O autor cujo livro li chegou. | cujo codifica o possuidor; não é preciso dele. |
Uma expressão como ele próprio pode acrescentar contraste — foi ele, não um assistente — e não apenas copiar o antecedente. Para decidir, testa se a forma tem função enfática independente ou se serve unicamente para preencher a posição relativizada.
Na fala, onde lá ou que… nele podem funcionar como reforço ou reparação. Na escrita formal, a duplicação deve ser conservada apenas se tiver efeito discursivo claro.
Avaliar aceitabilidade e voz
A aceitabilidade destas estruturas é gradual e pluricêntrica:
- a relativa padrão com preposição é a escolha de referência na escrita formal europeia;
- cortadoras e resumptivas estão documentadas na fala europeia, mas não têm distribuição idêntica;
- no português brasileiro, a cortadora é muito produtiva em muitos contextos; a resumptiva também existe, embora estudos recentes a encontrem com frequência baixa em certos grupos muito escolarizados;
- variedades africanas e contextos de contacto exigem descrição própria, não uma projeção automática do português europeu ou brasileiro;
- na literatura, uma estrutura não padrão pode representar oralidade, ritmo, reparação ou identidade social.
Evita associar diretamente uma estratégia a falta de escolaridade. O mesmo falante pode usar uma cortadora numa conversa e uma relativa preposicionada num artigo. A alternância revela domínio de géneros, não necessariamente desconhecimento de uma regra.
Ao editar uma relativa:
- identifica o antecedente e a função interna que ele representa;
- reconstrói a regência do verbo, nome ou adjetivo;
- distingue lacuna relativa, preposição cortada e pronome resumptivo;
- verifica se uma elipse preserva tempo, negação e modalidade;
- mantém paralelas as funções em estruturas coordenadas;
- elimina duplicações que quem, onde ou cujo já tornam explícitas;
- considera variedade, modalidade, género e intenção literária;
- preserva em citação aquilo que caracteriza a voz da fonte.
Uma análise de C2 não transforma toda ausência em erro nem toda retoma em redundância. Reconstrói a dependência e pergunta que estratégia tornou o antecedente interpretável dentro da relativa.
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Vocabulary in this lesson
Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.
Last updated July 20, 2026