C2 · ProficientPortuguese

Elipse e retomada em orações relativas

By the flumi team About 9 min read Practice exercises

Comparar três estratégias de relativização

Uma oração relativa liga um antecedente a uma posição interna. Quando essa posição exige preposição, o português dispõe de estratégias diferentes na fala e na escrita.

Estratégia Exemplo O que aparece na posição interna
padrão com lacuna a colega com quem falei __ uma lacuna ligada a com quem
cortadora a colega que falei __ lacuna sem a preposição esperada
resumptiva a colega que falei com ela pronome forte com a preposição

O traço __ serve apenas para mostrar o lugar interpretado; não se escreve na frase. Na estratégia padrão, com quem representa o complemento de falei. Na cortadora, a preposição com não é expressa. Na resumptiva, com ela retoma o antecedente dentro da oração.

Uma relativa cortadora e uma resumptiva não são lapsos aleatórios. São estratégias documentadas no uso, com distribuição própria. Isso não significa que tenham o mesmo estatuto da relativa padrão em todos os géneros.

Distinguir lacuna de elipse

Na relativa padrão, a lacuna corresponde à função representada pelo elemento relativo:

  • a pessoa que __ chegou — sujeito;
  • o relatório que revimos __ — complemento direto;
  • a investigadora com quem trabalhámos __ — complemento de trabalhar com;
  • o tema sobre o qual escreveste __ — complemento preposicionado.

A lacuna faz parte da dependência relativa; não é simplesmente material repetido que se decidiu omitir. Por isso, a oração finita continua a precisar de um marcador relativo. O relatório revi ontem é uma oração principal com ordem marcada, não a versão elíptica de o relatório que revi ontem.

Já numa elipse discursiva, uma expressão anteriormente disponível pode ficar sem realização fonética:

Há quem concorde e quem não [concorde].

O segundo predicado é recuperado por paralelismo. Os parênteses retos mostram a reconstrução para fins de análise; não pertencem ao texto final.

Pergunta se a ausência cria a ligação ao antecedente ou se recupera palavras ditas numa estrutura paralela. No primeiro caso, tens uma lacuna relativa; no segundo, pode haver elipse.

Interpretar a retomada pronominal

Na relativa resumptiva, o pronome ou expressão anafórica ocupa uma posição interna e aponta para o antecedente:

  • a pessoa que eu falei com ela;
  • o assunto que ainda não pensei nele;
  • uma proposta que ninguém sabia se a direção concordaria com ela.

A retoma torna local uma relação que pode ser difícil de manter, sobretudo quando a relativa é longa, contém encaixes ou foi construída durante fala espontânea. Também pode manter um tópico ativo ou reparar uma frase já iniciada.

Contudo, a complexidade não explica todas as ocorrências. Estudos de fala europeia e brasileira encontram resumptivas também em estruturas simples, com frequências condicionadas pelo tipo de complemento, pelo antecedente e pela comunidade.

Na escrita formal orientada pelo padrão europeu, preferem-se geralmente:

  • a pessoa com quem falei;
  • o assunto em que ainda não pensei;
  • uma proposta com a qual ninguém sabia se a direção concordaria.

Não mantenhas simultaneamente uma ligação relativa completa e uma segunda retoma sem função: a pessoa com quem falei com ela, o autor cujo livro dele li. Com quem e cujo já representam as relações internas relevantes.

Reconhecer a relativa cortadora

Na estratégia cortadora, o relativo geral que introduz a oração e a preposição selecionada não aparece:

Cortadora Relação recuperada Forma padrão formal
o livro que gosto gostar de o livro de que gosto
a colega que trabalhei trabalhar com a colega com quem trabalhei
a cidade que vivemos viver em a cidade em que vivemos
o dia que chegaram chegar em/no dia o dia em que chegaram

A interpretação apoia-se no verbo, no antecedente e no contexto. Quando há mais de uma relação possível, a omissão aumenta a ambiguidade: o professor que falei pode exigir que o leitor reconstrua rapidamente com quem falei.

As cortadoras estão documentadas no português europeu falado, tanto em relativas restritivas como explicativas e com diferentes tipos de preposição. Também são produtivas no português brasileiro, com distribuições e avaliações próprias. Num texto formal de referência, a preposição diante do relativo continua a ser a opção esperada.

Não se trata de deixar a preposição no fim, como pode acontecer em inglês. A pessoa que falei com não pertence ao padrão português descrito; usa-se com quem falei ou, numa estratégia resumptiva, que falei com ela.

Recuperar material dentro da relativa

A elipse pode ocorrer no interior de relativas coordenadas quando o conteúdo omitido é inequivocamente recuperável.

Frase Material recuperado
Há quem concorde e quem não [concorde]. verbo da primeira relativa livre
Escolhi as propostas que eram claras, não as que não [eram claras]. predicado nominal
Uns entregaram o que deviam; outros, apenas o que podiam [entregar]. infinitivo selecionado pelo modal
Estas são as medidas que a equipa apoiou e a direção não [apoiou]. verbo na segunda oração coordenada, com polaridade oposta

A negação, o tempo e a modalidade têm de continuar interpretáveis. Em os artigos que a Ana pode rever e os que o Rui não, pode recuperar-se pode rever ou apenas rever, consoante o contexto. Se as leituras produzirem compromissos diferentes, repõe o verbo.

Há candidatos que podem entregar hoje e outros que só amanhã.

A frase pode omitir podem entregar. O advérbio e o contraste hoje/amanhã tornam a reconstrução natural. Se o segundo grupo tiver outra obrigação — por exemplo, só podem pagar amanhã —, a elipse deixa de ser segura.

Coordenar uma ou várias lacunas

Um antecedente pode relacionar-se com mais de uma posição em estruturas coordenadas:

  • o relatório que li __ e resumi __ — dois verbos coordenados partilham o mesmo antecedente;
  • o relatório que eu li __ e a Ana resumiu __ — duas orações coordenadas contêm lacunas paralelas;
  • o relatório que eu li __ e que a Ana resumiu __ — a repetição de que torna a fronteira entre relativas mais visível.

As funções devem ser compatíveis. Em a pessoa que admiro __ e confio __, o primeiro verbo seleciona complemento direto, mas confiar exige em. A coordenação encobre a diferença. Reformula:

  • a pessoa que admiro e em quem confio;
  • a pessoa que admiro e na qual deposito confiança.

Uma combinação de lacuna e retoma — o tema que estudámos __ e depois escrevemos sobre ele — pode ocorrer no discurso, mas perde paralelismo. Num texto planeado, o tema que estudámos e sobre o qual depois escrevemos torna as duas relações explícitas.

Evitar retomas aparentes

Nem todo elemento anafórico dentro de uma relativa é um pronome resumptivo.

Exemplo Análise
O prazo terminou, o que criou problemas. o que retoma toda a oração anterior.
Conheci a autora, que ela própria apresentou o livro. ela própria pode ter valor enfático; a construção exige análise de ordem e variedade.
A cidade onde lá nasci mudou muito. onde e duplicam a relação locativa no padrão formal.
O autor cujo livro li chegou. cujo codifica o possuidor; não é preciso dele.

Uma expressão como ele próprio pode acrescentar contraste — foi ele, não um assistente — e não apenas copiar o antecedente. Para decidir, testa se a forma tem função enfática independente ou se serve unicamente para preencher a posição relativizada.

Na fala, onde lá ou que… nele podem funcionar como reforço ou reparação. Na escrita formal, a duplicação deve ser conservada apenas se tiver efeito discursivo claro.

Avaliar aceitabilidade e voz

A aceitabilidade destas estruturas é gradual e pluricêntrica:

  • a relativa padrão com preposição é a escolha de referência na escrita formal europeia;
  • cortadoras e resumptivas estão documentadas na fala europeia, mas não têm distribuição idêntica;
  • no português brasileiro, a cortadora é muito produtiva em muitos contextos; a resumptiva também existe, embora estudos recentes a encontrem com frequência baixa em certos grupos muito escolarizados;
  • variedades africanas e contextos de contacto exigem descrição própria, não uma projeção automática do português europeu ou brasileiro;
  • na literatura, uma estrutura não padrão pode representar oralidade, ritmo, reparação ou identidade social.

Evita associar diretamente uma estratégia a falta de escolaridade. O mesmo falante pode usar uma cortadora numa conversa e uma relativa preposicionada num artigo. A alternância revela domínio de géneros, não necessariamente desconhecimento de uma regra.

Ao editar uma relativa:

  1. identifica o antecedente e a função interna que ele representa;
  2. reconstrói a regência do verbo, nome ou adjetivo;
  3. distingue lacuna relativa, preposição cortada e pronome resumptivo;
  4. verifica se uma elipse preserva tempo, negação e modalidade;
  5. mantém paralelas as funções em estruturas coordenadas;
  6. elimina duplicações que quem, onde ou cujo já tornam explícitas;
  7. considera variedade, modalidade, género e intenção literária;
  8. preserva em citação aquilo que caracteriza a voz da fonte.

Uma análise de C2 não transforma toda ausência em erro nem toda retoma em redundância. Reconstrói a dependência e pergunta que estratégia tornou o antecedente interpretável dentro da relativa.

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Last updated July 20, 2026

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