Flexão opcional do infinitivo pessoal
Opcional não significa indiferente
Em certos contextos, o português admite tanto o infinitivo não flexionado como o flexionado:
Chegámos cedo para preparar a sala.
Chegámos cedo para prepararmos a sala.
As duas frases ligam preparar ao sujeito nós. A primeira apresenta a finalidade de forma compacta; a segunda torna a pessoa mais visível e pode dar-lhe contraste ou autonomia. A escolha depende da estrutura, da clareza e do efeito discursivo — não apenas de uma regra “mesmo sujeito/diferente sujeito”.
O mesmo sujeito favorece a forma simples
Quando o sujeito da oração principal controla sem dificuldade o infinitivo, a forma não flexionada é geralmente a opção neutra.
| Não flexionado | Flexionado também possível |
|---|---|
| Saímos sem dizer nada. | Saímos sem dizermos nada. |
| Ficámos para terminar o trabalho. | Ficámos para terminarmos o trabalho. |
| Depois de rever o texto, enviámo-lo. | Depois de revermos o texto, enviámo-lo. |
Na coluna da esquerda, o leitor recupera o sujeito a partir de saímos, ficámos, enviámos. A flexão não muda necessariamente quem age; marca essa relação na própria oração infinitiva.
Se o sujeito é o mesmo, está próximo e não há contraste, começa pelo infinitivo não flexionado. Acrescenta a flexão quando ela produzir um ganho identificável.
Razões para tornar a pessoa visível
A flexão opcional pode servir vários objetivos:
- contraste: Nós ficámos para tratarmos da logística; eles saíram para receberem os convidados;
- paralelismo: Sem hesitarem e sem perderem o ritmo, os atletas avançaram;
- retoma após distância: Os investigadores alteraram o calendário, perante os atrasos acumulados, para concluírem o estudo;
- ênfase no agente: Foram eles que saíram sem se despedirem;
- separação de planos: Apesar de reconhecermos o risco, decidimos avançar.
O não flexionado continua possível em muitos destes exemplos, mas pode pôr maior foco na ação: para concluir, sem hesitar, apesar de reconhecer. O resultado deve ser avaliado no período completo.
Uma sequência de infinitivos flexionados pode tornar o texto pesado. Não marques repetidamente um sujeito que já permanece inequívoco só para exibir concordância.
Depois de nomes e expressões avaliativas
Também há variação quando a oração infinitiva depende de um nome ou de certas expressões:
| Forma não flexionada | Forma flexionada |
|---|---|
| Os leitores têm a possibilidade de consultar o arquivo. | Os leitores têm a possibilidade de consultarem o arquivo. |
| Os alunos criaram o hábito de ler diariamente. | Os alunos criaram o hábito de lerem diariamente. |
| Foi útil rever os critérios antes da reunião. | Foi útil revermos os critérios antes da reunião. |
Nas duas primeiras linhas, o plural da oração principal fornece o sujeito interpretado; a flexão destaca-o. Na última, rever permite uma leitura genérica, ao passo que revermos identifica nós como participantes.
Por isso, a alternância pode conservar o referente ou torná-lo mais específico. Antes de a chamar puramente estilística, verifica se as duas versões dizem realmente o mesmo.
Com verbos causativos e percetivos
Depois de ver, ouvir, sentir, fazer, mandar e deixar, um grupo nominal pode ser interpretado como realizador do infinitivo.
Vimos os músicos entrar no palco.
Vimos os músicos entrarem no palco.
A forma não flexionada integra mais estreitamente a perceção e a entrada; a flexionada explicita a autonomia do sujeito os músicos. Ambas ocorrem em português europeu.
Com um pronome átono ligado ao primeiro verbo, a forma não flexionada é a solução neutra: vimo-los entrar, mandámo-los esperar, deixaram-nos sair. Evita vimo-los entrarem, porque a estrutura com clítico favorece fortemente a integração verbal.
A opção observada com um sujeito nominal — vimos os músicos entrar/entrarem — não deve ser transferida mecanicamente para todas as estruturas causativas ou percetivas.
Onde a flexão não é uma alternativa livre
Num complexo com auxiliar, modal ou verbo aspetual, o infinitivo não recebe a concordância do sujeito:
- podemos sair, não podemos sairmos;
- devemos rever o plano, não devemos revermos;
- vamos trabalhar, não vamos trabalharmos;
- começámos a discutir, não começámos a discutirmos;
- acabaram de chegar, não acabaram de chegarem.
Também se usa normalmente a forma não flexionada em complementos de controlo estreito: queremos participar, tentámos resolver, decidimos ficar. A preposição, por si só, não licencia flexão: temos de sair funciona como uma unidade modal.
Pessoal sem terminação visível
As designações pessoal e flexionado nem sempre coincidem na superfície. Em para eu sair e antes de ela chegar, o infinitivo tem sujeito próprio, embora a primeira e a terceira pessoas do singular não apresentem terminação.
O inverso também merece atenção: em nós queremos sair, o sujeito é plural, mas sair integra o complemento de querer e permanece impessoal. Não se identifica o tipo de infinitivo apenas olhando para o número do sujeito da frase.
| Pergunta | Consequência |
|---|---|
| há sujeito próprio na oração infinitiva? | pode haver infinitivo pessoal mesmo sem marca visível |
| o infinitivo integra um complexo verbal? | mantém-se não flexionado |
| a flexão contrasta ou esclarece o agente? | pode justificar a variante flexionada |
Rever sem aplicar uma fórmula
Ao escolher:
- delimita a oração infinitiva;
- identifica o seu sujeito interpretado;
- verifica se há auxiliar, modal ou integração verbal forte;
- confirma se as duas formas são de facto gramaticais nesse contexto;
- compara o foco na ação com o foco no agente;
- observa distância, contraste e paralelismo;
- mantém um padrão coerente em estruturas coordenadas.
Em síntese, saímos para trabalhar é a base compacta; saímos para trabalharmos pode realçar quem trabalha. A flexão opcional é um recurso de organização da informação, não concordância decorativa.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026