C1 · AdvancedPortuguese

Flexão opcional do infinitivo pessoal

By the flumi team About 6 min read Practice exercises

Opcional não significa indiferente

Em certos contextos, o português admite tanto o infinitivo não flexionado como o flexionado:

Chegámos cedo para preparar a sala.

Chegámos cedo para prepararmos a sala.

As duas frases ligam preparar ao sujeito nós. A primeira apresenta a finalidade de forma compacta; a segunda torna a pessoa mais visível e pode dar-lhe contraste ou autonomia. A escolha depende da estrutura, da clareza e do efeito discursivo — não apenas de uma regra “mesmo sujeito/diferente sujeito”.

O mesmo sujeito favorece a forma simples

Quando o sujeito da oração principal controla sem dificuldade o infinitivo, a forma não flexionada é geralmente a opção neutra.

Não flexionado Flexionado também possível
Saímos sem dizer nada. Saímos sem dizermos nada.
Ficámos para terminar o trabalho. Ficámos para terminarmos o trabalho.
Depois de rever o texto, enviámo-lo. Depois de revermos o texto, enviámo-lo.

Na coluna da esquerda, o leitor recupera o sujeito a partir de saímos, ficámos, enviámos. A flexão não muda necessariamente quem age; marca essa relação na própria oração infinitiva.

Se o sujeito é o mesmo, está próximo e não há contraste, começa pelo infinitivo não flexionado. Acrescenta a flexão quando ela produzir um ganho identificável.

Razões para tornar a pessoa visível

A flexão opcional pode servir vários objetivos:

  • contraste: Nós ficámos para tratarmos da logística; eles saíram para receberem os convidados;
  • paralelismo: Sem hesitarem e sem perderem o ritmo, os atletas avançaram;
  • retoma após distância: Os investigadores alteraram o calendário, perante os atrasos acumulados, para concluírem o estudo;
  • ênfase no agente: Foram eles que saíram sem se despedirem;
  • separação de planos: Apesar de reconhecermos o risco, decidimos avançar.

O não flexionado continua possível em muitos destes exemplos, mas pode pôr maior foco na ação: para concluir, sem hesitar, apesar de reconhecer. O resultado deve ser avaliado no período completo.

Uma sequência de infinitivos flexionados pode tornar o texto pesado. Não marques repetidamente um sujeito que já permanece inequívoco só para exibir concordância.

Depois de nomes e expressões avaliativas

Também há variação quando a oração infinitiva depende de um nome ou de certas expressões:

Forma não flexionada Forma flexionada
Os leitores têm a possibilidade de consultar o arquivo. Os leitores têm a possibilidade de consultarem o arquivo.
Os alunos criaram o hábito de ler diariamente. Os alunos criaram o hábito de lerem diariamente.
Foi útil rever os critérios antes da reunião. Foi útil revermos os critérios antes da reunião.

Nas duas primeiras linhas, o plural da oração principal fornece o sujeito interpretado; a flexão destaca-o. Na última, rever permite uma leitura genérica, ao passo que revermos identifica nós como participantes.

Por isso, a alternância pode conservar o referente ou torná-lo mais específico. Antes de a chamar puramente estilística, verifica se as duas versões dizem realmente o mesmo.

Com verbos causativos e percetivos

Depois de ver, ouvir, sentir, fazer, mandar e deixar, um grupo nominal pode ser interpretado como realizador do infinitivo.

Vimos os músicos entrar no palco.

Vimos os músicos entrarem no palco.

A forma não flexionada integra mais estreitamente a perceção e a entrada; a flexionada explicita a autonomia do sujeito os músicos. Ambas ocorrem em português europeu.

Com um pronome átono ligado ao primeiro verbo, a forma não flexionada é a solução neutra: vimo-los entrar, mandámo-los esperar, deixaram-nos sair. Evita vimo-los entrarem, porque a estrutura com clítico favorece fortemente a integração verbal.

A opção observada com um sujeito nominal — vimos os músicos entrar/entrarem — não deve ser transferida mecanicamente para todas as estruturas causativas ou percetivas.

Onde a flexão não é uma alternativa livre

Num complexo com auxiliar, modal ou verbo aspetual, o infinitivo não recebe a concordância do sujeito:

  • podemos sair, não podemos sairmos;
  • devemos rever o plano, não devemos revermos;
  • vamos trabalhar, não vamos trabalharmos;
  • começámos a discutir, não começámos a discutirmos;
  • acabaram de chegar, não acabaram de chegarem.

Também se usa normalmente a forma não flexionada em complementos de controlo estreito: queremos participar, tentámos resolver, decidimos ficar. A preposição, por si só, não licencia flexão: temos de sair funciona como uma unidade modal.

Pessoal sem terminação visível

As designações pessoal e flexionado nem sempre coincidem na superfície. Em para eu sair e antes de ela chegar, o infinitivo tem sujeito próprio, embora a primeira e a terceira pessoas do singular não apresentem terminação.

O inverso também merece atenção: em nós queremos sair, o sujeito é plural, mas sair integra o complemento de querer e permanece impessoal. Não se identifica o tipo de infinitivo apenas olhando para o número do sujeito da frase.

Pergunta Consequência
há sujeito próprio na oração infinitiva? pode haver infinitivo pessoal mesmo sem marca visível
o infinitivo integra um complexo verbal? mantém-se não flexionado
a flexão contrasta ou esclarece o agente? pode justificar a variante flexionada

Rever sem aplicar uma fórmula

Ao escolher:

  1. delimita a oração infinitiva;
  2. identifica o seu sujeito interpretado;
  3. verifica se há auxiliar, modal ou integração verbal forte;
  4. confirma se as duas formas são de facto gramaticais nesse contexto;
  5. compara o foco na ação com o foco no agente;
  6. observa distância, contraste e paralelismo;
  7. mantém um padrão coerente em estruturas coordenadas.

Em síntese, saímos para trabalhar é a base compacta; saímos para trabalharmos pode realçar quem trabalha. A flexão opcional é um recurso de organização da informação, não concordância decorativa.

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Last updated July 20, 2026

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