Gerúndio e infinitivo em construções não canónicas
Não canónico não significa aleatório
O infinitivo e o gerúndio surgem em construções que não correspondem ao modelo mais simples de subordinação. Algumas pertencem ao padrão, mas são marcadas pelo registo; outras são históricas, regionais ou próprias de uma variedade.
| Construção | Exemplo | Fator que a legitima |
|---|---|---|
| infinitivo diretivo | Não fumar. | instrução com destinatário implícito |
| infinitivo deliberativo | Aceitar já? | pergunta dependente da situação |
| infinitivo exclamativo | Tu dizeres isso! | avaliação modal e sujeito expresso |
| em + gerúndio | Em chegando a casa, telefono. | enquadramento temporal marcado |
| gerúndio flexionado dialetal | Em eles chegandem, jantamos. | concordância numa gramática regional |
O termo não canónico descreve o afastamento de um padrão de referência. Não autoriza a juntar formas de variedades diferentes nem a corrigi-las sem localizar o uso.
Infinitivos que funcionam como enunciados
Em placas, receitas e instruções, o infinitivo impessoal pode realizar uma ordem:
- Agitar antes de usar.
- Não ultrapassar a linha amarela.
- Meninos, sair imediatamente da sala.
Mesmo quando o destinatário é plural, a forma diretiva permanece não flexionada. Meninos, saírem não é a versão plural do mesmo imperativo. O infinitivo apresenta a ação a cumprir; o contexto identifica quem a deve realizar.
Em perguntas deliberativas, o falante avalia uma ação futura: Telefonar agora ou esperar até amanhã?; Como responder sem confirmar os dados? O sujeito costuma ser o falante ou um participante acessível, mas não está expresso gramaticalmente.
Estes infinitivos parecem independentes, mas dependem fortemente do género textual, da entoação e da situação. Uma sequência como Entregar o formulário é uma instrução num aviso, uma entrada numa lista de tarefas e apenas um fragmento noutro contexto.
Exclamações com infinitivo pessoal
O infinitivo flexionado pode ocorrer com sujeito lexical em exclamações de surpresa, censura ou admiração:
Tu fazeres-me isso na véspera da viagem!
A frase não afirma simplesmente tu fizeste-me isso. Apresenta o acontecimento como incompatível com uma expectativa do falante. O tempo passado e a atitude de censura vêm do contexto e da entoação.
Compara:
- Eles chegarem antes de nós! — surpresa perante o acontecimento;
- Eu acreditar numa história dessas! — rejeição ou espanto; a 1.ª e a 3.ª pessoas do singular não têm terminação visível;
- Nós aceitarmos estas condições! — incredulidade ou recusa enfática;
- E tu a dizeres que não tens tempo! — construção exclamativa com a + infinitivo pessoal, particularmente natural em PE.
Não se trata de uma declaração neutra sem verbo finito. A modalidade exclamativa licencia a estrutura e orienta a referência temporal.
Depois de verbos de perceção
Com ver, ouvir, sentir, diferentes formas apresentam perspetivas aspetuais distintas.
| Construção | Leitura favorecida |
|---|---|
| Vi a Ana atravessar a rua. | evento apreendido como unidade |
| Vi a Ana a atravessar a rua. | fase em curso; muito produtiva em PE |
| Vi a Ana atravessando a rua. | fase em curso; produtiva em PB e possível noutros usos |
O grupo a Ana é objeto de vi e participante de atravessar. Estas são construções predicativas selecionadas pelo verbo, não orações absolutas. A diferença entre infinitivo simples e forma progressiva pode desaparecer em certos contextos, mas não deve ser pressuposta.
Em Vi o diretor saindo do edifício, a variedade e o contexto podem favorecer “vi o diretor quando ele saía”; também pode surgir uma ligação ambígua ao observador. Se a identidade de quem sai for decisiva, desenvolve a oração.
Preposições e seleção da forma
No português de referência, várias preposições selecionam normalmente o infinitivo: ao chegar, antes de sair, sem responder, por insistir. A substituição pelo gerúndio não é livre: sem respondendo não equivale a sem responder.
O gerúndio adverbial pode ser precedido por em, numa construção hoje rara ou marcada em muitos registos:
- Em chegando a primavera, reabrimos a casa. — quando chegar / logo que chegue;
- Em sendo necessário, voltaremos a reunir. — se for necessário;
- Em querendo ele colaborar, haverá acordo. — se ele quiser colaborar.
Em + gerúndio pode enquadrar tempo, condição ou hipótese. Não é uma alternativa automaticamente mais antiga ou mais elegante a ao + infinitivo; a naturalidade varia com tradição textual e região.
Se encontrares preposição + forma não finita, identifica primeiro o constituinte selecionado. Em com a equipa a trabalhar / com a equipe trabalhando, com introduz uma pequena oração inteira; não substitui simplesmente em diante do gerúndio.
Pequenas orações e padrões pluricêntricos
Uma construção com com pode apresentar um cenário cujo sujeito é expresso:
| PE de referência | PB de referência | Valor |
|---|---|---|
| Com os técnicos a rever os dados, o prazo é curto. | Com os técnicos revendo os dados, o prazo é curto. | processo simultâneo |
| A Marta ficou a olhar para o ecrã. | Marta ficou olhando para a tela. | estado ou atividade prolongada |
| A procura continua a crescer. | A procura continua crescendo. | continuidade gradual |
Estas correspondências são tendências, não traduções palavra por palavra. Começou a trabalhar marca o início da atividade; no PB, começou trabalhando no arquivo pode significar “começou por trabalhar no arquivo”, isto é, primeira etapa de uma sequência.
As variedades africanas e asiáticas do português têm distribuições próprias, influenciadas por história, contacto e registo. Não devem ser colocadas num eixo simples entre PE e PB sem dados locais.
Gerúndios com concordância regional
Na variedade de referência, o gerúndio não se flexiona: chegando eu, chegando nós, chegando eles. Contudo, corpora dialetais registam gerúndios com marcas de pessoa em variedades meridionais e insulares de Portugal, por analogia com o infinitivo pessoal:
- em tu querendos;
- nós chegândomos;
- em eles chegandem.
Estas formas pertencem a sistemas regionais e surgem sobretudo em contextos gerundivos específicos. Não são gralhas nem flexões previstas pelo padrão escrito geral. Também não se deve concluir que todo o Sul ou todas as ilhas usam o mesmo paradigma.
Historicamente, a ordem do sujeito nas gerundivas e a presença de conectores mudaram. Uma forma dialetal contemporânea pode conservar ou reorganizar material antigo, mas não é uma reprodução intacta do português medieval.
Diagnosticar antes de normalizar
Ao analisar uma construção marcada:
- determina se o infinitivo realiza ordem, pergunta, exclamação ou subordinação;
- identifica o sujeito, mesmo quando é apenas contextual;
- verifica se há flexão pessoal e o que ela sinaliza;
- distingue predicação selecionada de oração adverbial;
- testa o valor aspetual do infinitivo e do gerúndio;
- localiza variedade, região, época e género textual;
- não converte automaticamente em + gerúndio em progressivo;
- normaliza apenas de acordo com o público e o objetivo editorial.
Uma análise C2 pergunta não só “esta forma existe?”, mas que estrutura a licencia, em que gramática ocorre e que leitura deixa de existir quando a substituímos.
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Vocabulary in this lesson
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Last updated July 20, 2026