C2 · ProficientPortuguese

Gerúndio e infinitivo em construções não canónicas

By the flumi team About 7 min read Practice exercises

Não canónico não significa aleatório

O infinitivo e o gerúndio surgem em construções que não correspondem ao modelo mais simples de subordinação. Algumas pertencem ao padrão, mas são marcadas pelo registo; outras são históricas, regionais ou próprias de uma variedade.

Construção Exemplo Fator que a legitima
infinitivo diretivo Não fumar. instrução com destinatário implícito
infinitivo deliberativo Aceitar já? pergunta dependente da situação
infinitivo exclamativo Tu dizeres isso! avaliação modal e sujeito expresso
em + gerúndio Em chegando a casa, telefono. enquadramento temporal marcado
gerúndio flexionado dialetal Em eles chegandem, jantamos. concordância numa gramática regional

O termo não canónico descreve o afastamento de um padrão de referência. Não autoriza a juntar formas de variedades diferentes nem a corrigi-las sem localizar o uso.

Infinitivos que funcionam como enunciados

Em placas, receitas e instruções, o infinitivo impessoal pode realizar uma ordem:

  • Agitar antes de usar.
  • Não ultrapassar a linha amarela.
  • Meninos, sair imediatamente da sala.

Mesmo quando o destinatário é plural, a forma diretiva permanece não flexionada. Meninos, saírem não é a versão plural do mesmo imperativo. O infinitivo apresenta a ação a cumprir; o contexto identifica quem a deve realizar.

Em perguntas deliberativas, o falante avalia uma ação futura: Telefonar agora ou esperar até amanhã?; Como responder sem confirmar os dados? O sujeito costuma ser o falante ou um participante acessível, mas não está expresso gramaticalmente.

Estes infinitivos parecem independentes, mas dependem fortemente do género textual, da entoação e da situação. Uma sequência como Entregar o formulário é uma instrução num aviso, uma entrada numa lista de tarefas e apenas um fragmento noutro contexto.

Exclamações com infinitivo pessoal

O infinitivo flexionado pode ocorrer com sujeito lexical em exclamações de surpresa, censura ou admiração:

Tu fazeres-me isso na véspera da viagem!

A frase não afirma simplesmente tu fizeste-me isso. Apresenta o acontecimento como incompatível com uma expectativa do falante. O tempo passado e a atitude de censura vêm do contexto e da entoação.

Compara:

  • Eles chegarem antes de nós! — surpresa perante o acontecimento;
  • Eu acreditar numa história dessas! — rejeição ou espanto; a 1.ª e a 3.ª pessoas do singular não têm terminação visível;
  • Nós aceitarmos estas condições! — incredulidade ou recusa enfática;
  • E tu a dizeres que não tens tempo! — construção exclamativa com a + infinitivo pessoal, particularmente natural em PE.

Não se trata de uma declaração neutra sem verbo finito. A modalidade exclamativa licencia a estrutura e orienta a referência temporal.

Depois de verbos de perceção

Com ver, ouvir, sentir, diferentes formas apresentam perspetivas aspetuais distintas.

Construção Leitura favorecida
Vi a Ana atravessar a rua. evento apreendido como unidade
Vi a Ana a atravessar a rua. fase em curso; muito produtiva em PE
Vi a Ana atravessando a rua. fase em curso; produtiva em PB e possível noutros usos

O grupo a Ana é objeto de vi e participante de atravessar. Estas são construções predicativas selecionadas pelo verbo, não orações absolutas. A diferença entre infinitivo simples e forma progressiva pode desaparecer em certos contextos, mas não deve ser pressuposta.

Em Vi o diretor saindo do edifício, a variedade e o contexto podem favorecer “vi o diretor quando ele saía”; também pode surgir uma ligação ambígua ao observador. Se a identidade de quem sai for decisiva, desenvolve a oração.

Preposições e seleção da forma

No português de referência, várias preposições selecionam normalmente o infinitivo: ao chegar, antes de sair, sem responder, por insistir. A substituição pelo gerúndio não é livre: sem respondendo não equivale a sem responder.

O gerúndio adverbial pode ser precedido por em, numa construção hoje rara ou marcada em muitos registos:

  • Em chegando a primavera, reabrimos a casa. — quando chegar / logo que chegue;
  • Em sendo necessário, voltaremos a reunir. — se for necessário;
  • Em querendo ele colaborar, haverá acordo. — se ele quiser colaborar.

Em + gerúndio pode enquadrar tempo, condição ou hipótese. Não é uma alternativa automaticamente mais antiga ou mais elegante a ao + infinitivo; a naturalidade varia com tradição textual e região.

Se encontrares preposição + forma não finita, identifica primeiro o constituinte selecionado. Em com a equipa a trabalhar / com a equipe trabalhando, com introduz uma pequena oração inteira; não substitui simplesmente em diante do gerúndio.

Pequenas orações e padrões pluricêntricos

Uma construção com com pode apresentar um cenário cujo sujeito é expresso:

PE de referência PB de referência Valor
Com os técnicos a rever os dados, o prazo é curto. Com os técnicos revendo os dados, o prazo é curto. processo simultâneo
A Marta ficou a olhar para o ecrã. Marta ficou olhando para a tela. estado ou atividade prolongada
A procura continua a crescer. A procura continua crescendo. continuidade gradual

Estas correspondências são tendências, não traduções palavra por palavra. Começou a trabalhar marca o início da atividade; no PB, começou trabalhando no arquivo pode significar “começou por trabalhar no arquivo”, isto é, primeira etapa de uma sequência.

As variedades africanas e asiáticas do português têm distribuições próprias, influenciadas por história, contacto e registo. Não devem ser colocadas num eixo simples entre PE e PB sem dados locais.

Gerúndios com concordância regional

Na variedade de referência, o gerúndio não se flexiona: chegando eu, chegando nós, chegando eles. Contudo, corpora dialetais registam gerúndios com marcas de pessoa em variedades meridionais e insulares de Portugal, por analogia com o infinitivo pessoal:

  • em tu querendos;
  • nós chegândomos;
  • em eles chegandem.

Estas formas pertencem a sistemas regionais e surgem sobretudo em contextos gerundivos específicos. Não são gralhas nem flexões previstas pelo padrão escrito geral. Também não se deve concluir que todo o Sul ou todas as ilhas usam o mesmo paradigma.

Historicamente, a ordem do sujeito nas gerundivas e a presença de conectores mudaram. Uma forma dialetal contemporânea pode conservar ou reorganizar material antigo, mas não é uma reprodução intacta do português medieval.

Diagnosticar antes de normalizar

Ao analisar uma construção marcada:

  1. determina se o infinitivo realiza ordem, pergunta, exclamação ou subordinação;
  2. identifica o sujeito, mesmo quando é apenas contextual;
  3. verifica se há flexão pessoal e o que ela sinaliza;
  4. distingue predicação selecionada de oração adverbial;
  5. testa o valor aspetual do infinitivo e do gerúndio;
  6. localiza variedade, região, época e género textual;
  7. não converte automaticamente em + gerúndio em progressivo;
  8. normaliza apenas de acordo com o público e o objetivo editorial.

Uma análise C2 pergunta não só “esta forma existe?”, mas que estrutura a licencia, em que gramática ocorre e que leitura deixa de existir quando a substituímos.

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Last updated July 20, 2026

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