Infinitivo pessoal em contextos de aceitabilidade variável
A aceitabilidade forma um contínuo
O infinitivo pessoal pode ter sujeito próprio e, no plural, mostrar terminações: para nós sairmos, antes de eles chegarem. Contudo, a oposição entre forma flexionada e não flexionada não é decidida por uma única regra. Há casos estáveis, alternâncias com diferença de perspetiva e contextos sobre os quais os falantes divergem.
| Zona | Exemplo | Diagnóstico |
|---|---|---|
| flexão claramente motivada | Saí antes de os técnicos chegarem. | sujeito expresso diferente do da principal |
| forma simples estável | Nós podemos sair. | complexo modal, sem oração pessoal autónoma |
| alternância ampla | Saímos para resolver/resolvermos o problema. | mesmo sujeito, com graus diferentes de autonomia |
| juízo variável | Foram os primeiros a chegar/chegarem. | competição entre estrutura fixa e concordância com o plural |
“Atestado”, “aceitável para alguns falantes” e “recomendável num texto formal” não são sinónimos. A análise C2 mantém estes níveis separados.
Casos claros e falsos diagnósticos
Com sujeito expresso, a oração infinitiva é claramente pessoal: É importante tu participares; A hipótese de os dados estarem errados foi considerada. Na primeira e na terceira pessoas do singular, não há terminação especial: para eu sair e antes de ela chegar continuam a conter infinitivo pessoal.
Em contrapartida, um sujeito plural na oração principal não licencia flexão dentro de um complexo verbal:
- Nós queremos participar, não queremos participarmos;
- Podemos rever o texto, não podemos revermos;
- Começámos a trabalhar, não começámos a trabalharmos;
- Temos de sair, não temos de sairmos.
Aqui, querer, poder, começar a e ter de criam dependências estreitas. A terminação de plural no primeiro verbo já codifica o sujeito do complexo.
Não identifique infinitivo pessoal apenas pela presença de nós ou eles na frase. Delimite primeiro a oração a que esse sujeito pertence.
Mesmo sujeito, duas perspetivas
Numa oração adverbial com o mesmo sujeito da principal, as duas formas são muitas vezes possíveis:
Revimos os dados antes de publicar o relatório.
Revimos os dados antes de publicarmos o relatório.
A forma simples favorece integração e continuidade entre as ações. A flexão torna o agente visível dentro da subordinada e pode ganhar naturalidade com contraste, distância ou coordenação:
- Nós ficámos para tratarmos da sala; eles saíram para receberem os convidados.
- Os técnicos reuniram-se, depois de várias reuniões e dois pareceres contraditórios, para alterarem o protocolo.
- Apesar de reconhecermos as limitações, mantemos a conclusão.
No segundo exemplo, para alterar continua disponível. A distância entre os técnicos e o infinitivo pode, contudo, tornar informativa a marca de plural. Em construções de controlo estreito, a situação é diferente: prefere-se os técnicos decidiram alterar, sem flexionar o segundo verbo.
Quando as duas formas forem possíveis, compare o período completo. Distância, contraste e paralelismo podem tornar informativa uma flexão que seria pesada numa frase curta.
Nomes, adjetivos e sequências ambíguas
Depois de um nome, a relação entre o grupo nominal e o infinitivo nem sempre é transparente:
| Construção | Leitura favorecida |
|---|---|
| Os alunos têm oportunidade de consultar o arquivo. | atividade disponível aos alunos, formulação compacta |
| Os alunos têm oportunidade de consultarem o arquivo. | alunos apresentados explicitamente como sujeitos da consulta |
| A oportunidade de os alunos consultarem o arquivo | sujeito expresso dentro da oração infinitiva |
Com sequências como os primeiros a chegar, os únicos a responder ou difíceis de convencer, a forma simples está fortemente estabelecida. Surgem, porém, flexões como os primeiros a chegarem, sobretudo quando o plural é reinterpretado como sujeito autónomo. A aceitação varia entre falantes e contextos.
Em problemas difíceis de resolver, problemas é aquilo que se resolve, não o agente da resolução; problemas difíceis de resolverem altera indevidamente a relação. A proximidade de um plural não basta para desencadear flexão.
Causativos e percetivos
Depois de ver, ouvir, sentir, fazer, mandar e deixar, coexistem estruturas com graus diferentes de integração:
- Ouvi os músicos tocar.
- Ouvi os músicos tocarem.
- Ouvi-os tocar.
Com um grupo nominal, o PE admite infinitivo simples e flexionado; a preferência varia segundo o verbo, a leitura do evento e o falante. Com clítico no verbo principal, ouvi-os tocar é a solução neutra, enquanto ouvi-os tocarem é fortemente rejeitada por muitos falantes porque combina integração pronominal com flexão autónoma.
O português brasileiro (PB) também apresenta alternância, mas dispõe de estratégias pronominais diferentes: vi eles entrarem ocorre em registos correntes, ao passo que a escrita monitorizada pode preferir vi-os entrar, vi que eles entraram ou outra construção. Não se deve transferir diretamente o juízo de uma estrutura nominal para uma estrutura pronominal.
Os verbos percetivos admitem várias análises e leituras: perceção do evento inteiro, processo em curso ou constatação de um facto. Parte da oscilação morfológica acompanha esta diversidade estrutural.
Variedade, frequência e processamento
O infinitivo pessoal existe no PE e no PB, mas a frequência de cada construção, a norma ensinada e os juízos individuais não são idênticos. Também há diversidade nas variedades africanas e em situações de contacto; “português pluricêntrico” não implica uma escala única de aceitabilidade.
Vários fatores interferem num julgamento:
- sujeito expresso ou apenas recuperado;
- identidade ou contraste entre os sujeitos;
- distância entre controlador e infinitivo;
- preposição e tipo de oração subordinada;
- grau de integração semântica com o verbo principal;
- forma nominal ou pronominal do participante;
- registo, frequência e exposição do falante.
Uma frase isolada pode receber avaliações instáveis porque lhe falta o contexto que estabelece contraste ou referência. Antes de marcar uma variante como impossível, teste-a num parágrafo e com mais de um falante da variedade relevante.
Decidir numa revisão formal
Num texto de referência europeia, siga uma hierarquia de decisão:
- use flexão quando há sujeito próprio plural: antes de os convidados chegarem;
- mantenha a forma simples em auxiliares, modais e controlos estreitos: podemos sair, queremos participar;
- em adverbiais correferenciais, escolha a flexão apenas se clarificar ou contrastar o agente;
- com percetivos e causativos, considere a forma do participante e o grau de integração;
- em contextos disputados, prefira a solução mais transparente para o público;
- se a referência continuar ambígua, use uma oração finita.
Ambíguo: A Marta falou com a Joana antes de sair.
Sujeito Marta: A Marta, antes de sair, falou com a Joana.
Sujeito Joana: A Marta falou com a Joana antes de a Joana sair.
O infinitivo pessoal não é concordância ornamental. Torna um sujeito acessível dentro de uma oração não finita; quando essa autonomia compete com uma ligação estrutural forte, nasce a variabilidade.
Ready to practise?
Test what you've learned with interactive fill-in-the-blank exercises.
Vocabulary in this lesson
Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.
Last updated July 20, 2026