Pronomes e determinantes de uso arcaico
Arcaico em relação a quê?
Uma forma pode desaparecer da fala geral e conservar-se num provérbio, num texto jurídico, numa variedade regional ou numa tradição literária. Além disso, português antigo e português clássico designam fases diferentes; não existe um pacote único de formas “antigas”.
| Situação | Exemplo | Leitura adequada |
|---|---|---|
| forma histórica | aqueste | demonstrativo reforçado próximo de este |
| sobrevivência formal | outrem | outra pessoa ou outras pessoas |
| expressão lexicalizada | el-rei | designação tradicional do rei |
| grafia antiga | elle | grafia histórica de ele, não outro pronome |
Antes de modernizar ou imitar, é preciso datar o texto, reconhecer a variedade e distinguir forma gramatical, grafia e efeito estilístico.
Demonstrativos reforçados
O português medieval conheceu séries como aqueste, aquesta, aquesto e aquesse, aquessa, aquesso, ao lado de formas mais breves. Em muitos contextos, aqueste aproxima-se de este, e aquesse, de esse. A distribuição efetiva varia com a época, o género textual e o manuscrito.
Também se encontram combinações com outro:
- estoutro / estoutra — este outro / esta outra;
- essoutro / essoutra — esse outro / essa outra;
- aqueloutro / aqueloutra — aquele outro / aquela outra.
Estas últimas formas não estão totalmente extintas: permanecem registadas e podem ocorrer em prosa cuidada ou literária. A raridade não as torna equivalentes a qualquer demonstrativo antigo.
Não modernizes aqueste automaticamente sem verificar a oposição no texto. Se a passagem contrasta aqueste com aquel, a relação de proximidade faz parte da organização referencial.
Indefinidos: al e outrem
Al era um pronome indefinido com o sentido de outra coisa. É hoje arcaico ou literário e aparece por vezes em estruturas negativas ou formulares: não pretendia al senão justiça pode ser parafraseado por não pretendia outra coisa senão justiça.
Outrem refere-se a outra pessoa ou a pessoas diferentes do sujeito. Continua disponível em registos formais, jurídicos e literários:
| Forma | Exemplo atual possível | Paráfrase |
|---|---|---|
| outrem | Não atribuas a outrem o trabalho que fizeste. | a outra pessoa |
| de outrem | Apropriou-se de bens de outrem. | pertencentes a outra pessoa |
| por outrem | O ato foi praticado por outrem. | por outra pessoa |
| noutrem | Procurava noutrem a confirmação. | em outra pessoa |
Outrem é raro, mas não simplesmente “incorreto” ou medieval. Não costuma receber artigo nem ter plural; o contexto fornece uma leitura singular ou genérica.
Possessivos fracos medievais
Nos textos medievais, existiram formas possessivas femininas átonas ma, ta, sa, a par de formas fortes como mia/minha, tua, sua. Sequências como ma senhor podem corresponder a minha senhora. A oposição já variava nos textos antigos e foi desaparecendo ao longo do português médio.
A estrutura do grupo nominal também mudou. Em textos do século XIII, o possessivo ocorria sistematicamente sem o artigo definido em contextos nos quais o português europeu atual usa geralmente o meu livro, a sua casa.
Ao editar uma sequência medieval equivalente a mia casa, há pelo menos duas decisões diferentes:
- transcrição conservadora: mantém a forma e a grafia do testemunho;
- modernização: escolhe a minha casa se o objetivo for reproduzir a sintaxe europeia contemporânea.
Acrescentar o artigo não é apenas atualizar letras; altera a estrutura histórica.
A ausência de artigo antes de possessivo não é, por si só, arcaica em todo o português atual. É corrente em muitas variedades brasileiras e ocorre em contextos específicos noutras variedades. A mesma superfície pode resultar de histórias gramaticais distintas.
Formas distributivas e interrogativas
Alguns determinantes desapareceram do uso geral, mas ajudam a interpretar textos antigos.
| Forma | Função histórica | Paráfrase moderna |
|---|---|---|
| senhos / senhas | distribuição por vários participantes | um para cada / respetivos |
| quejando/a/os/as | pergunta ou caracterização de tipo | que espécie de / de que natureza |
| atal | identificação ou caracterização | tal / semelhante |
Numa frase reconstruída como os cavaleiros levavam senhas lanças, entende-se que cada cavaleiro levava a sua lança. Senhos/senhas concordam com o nome e codificam a distribuição; não correspondem ao plural contemporâneo do nome senha.
Uma pergunta como Quejanda resposta esperais? pede o tipo de resposta, não apenas a escolha entre respostas já identificadas. Estas paráfrases esclarecem a função, mas uma edição filológica deve respeitar a forma atestada e a sintaxe do original.
Pronomes locativos e indeterminação por homem
O português antigo dispunha de formas pronominais como ende/en, que podiam retomar uma origem, um lugar ou um complemento introduzido por de, com valores próximos de daí, de lá, disso. A sua posição e interpretação dependem da sintaxe medieval; substituí-las palavra por palavra pode produzir uma frase moderna artificial.
Também se documenta homem sem artigo como recurso de sujeito genérico, historicamente comparável ao francês on:
homem deve guardar a palavra dada → deve guardar-se a palavra dada / uma pessoa deve guardar a palavra dada.
É preciso distingui-lo do nome lexical em o homem entrou. O artigo, a referência a um indivíduo e o contexto ajudam a decidir. No português atual, se, uma pessoa, alguém ou uma construção genérica costumam traduzir melhor a função.
Se uma palavra antiga parece não ter referente concreto, testa primeiro uma leitura discursiva: outra coisa, outra pessoa, daí/disso ou uma pessoa em geral.
Sobrevivências não formam um único sistema
Expressões como de per si, cada qual, quem quer que seja, por outrem e aqueloutro têm graus diferentes de vitalidade. Algumas são formais, outras formulares ou literárias; não pertencem necessariamente à mesma época.
El-rei é uma expressão histórica lexicalizada. Não autoriza criar livremente el-diretor ou analisar el como pronome produtivo do português contemporâneo. Da mesma forma, escrever elle, ella, aquelle reproduz convenções ortográficas anteriores; não recupera sozinho a gramática de um período.
As tradições também atravessam fronteiras. Formas partilhadas pelo galego e pelo português podem refletir a história medieval comum ou conservações paralelas. A ocorrência numa obra brasileira, angolana ou moçambicana pode ser citação, herança literária, regionalismo ou criação estilística; exige análise local.
Ler, editar e recriar
Perante uma forma rara:
- confirma a leitura no manuscrito ou numa edição fiável;
- data o testemunho e a cópia, não apenas a obra atribuída;
- identifica a classe e a função no contexto;
- procura contrastes dentro do mesmo texto;
- separa grafia antiga de morfologia antiga;
- decide se a edição transcreve, regulariza ou moderniza;
- explica perdas de informação na paráfrase;
- evita misturar formas de séculos diferentes sem intenção estética.
Num texto literário contemporâneo, uma forma arcaizante pode construir solenidade, comicidade, distância ou memória cultural. O efeito será mais convincente se a seleção for historicamente orientada, e não uma acumulação aleatória de palavras raras.
Ready to practise?
Test what you've learned with interactive fill-in-the-blank exercises.
Vocabulary in this lesson
Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.
Last updated July 20, 2026