C2 · ProficientPortuguese

Pronomes e determinantes de uso arcaico

By the flumi team About 7 min read Practice exercises

Arcaico em relação a quê?

Uma forma pode desaparecer da fala geral e conservar-se num provérbio, num texto jurídico, numa variedade regional ou numa tradição literária. Além disso, português antigo e português clássico designam fases diferentes; não existe um pacote único de formas “antigas”.

Situação Exemplo Leitura adequada
forma histórica aqueste demonstrativo reforçado próximo de este
sobrevivência formal outrem outra pessoa ou outras pessoas
expressão lexicalizada el-rei designação tradicional do rei
grafia antiga elle grafia histórica de ele, não outro pronome

Antes de modernizar ou imitar, é preciso datar o texto, reconhecer a variedade e distinguir forma gramatical, grafia e efeito estilístico.

Demonstrativos reforçados

O português medieval conheceu séries como aqueste, aquesta, aquesto e aquesse, aquessa, aquesso, ao lado de formas mais breves. Em muitos contextos, aqueste aproxima-se de este, e aquesse, de esse. A distribuição efetiva varia com a época, o género textual e o manuscrito.

Também se encontram combinações com outro:

  • estoutro / estoutra — este outro / esta outra;
  • essoutro / essoutra — esse outro / essa outra;
  • aqueloutro / aqueloutra — aquele outro / aquela outra.

Estas últimas formas não estão totalmente extintas: permanecem registadas e podem ocorrer em prosa cuidada ou literária. A raridade não as torna equivalentes a qualquer demonstrativo antigo.

Não modernizes aqueste automaticamente sem verificar a oposição no texto. Se a passagem contrasta aqueste com aquel, a relação de proximidade faz parte da organização referencial.

Indefinidos: al e outrem

Al era um pronome indefinido com o sentido de outra coisa. É hoje arcaico ou literário e aparece por vezes em estruturas negativas ou formulares: não pretendia al senão justiça pode ser parafraseado por não pretendia outra coisa senão justiça.

Outrem refere-se a outra pessoa ou a pessoas diferentes do sujeito. Continua disponível em registos formais, jurídicos e literários:

Forma Exemplo atual possível Paráfrase
outrem Não atribuas a outrem o trabalho que fizeste. a outra pessoa
de outrem Apropriou-se de bens de outrem. pertencentes a outra pessoa
por outrem O ato foi praticado por outrem. por outra pessoa
noutrem Procurava noutrem a confirmação. em outra pessoa

Outrem é raro, mas não simplesmente “incorreto” ou medieval. Não costuma receber artigo nem ter plural; o contexto fornece uma leitura singular ou genérica.

Possessivos fracos medievais

Nos textos medievais, existiram formas possessivas femininas átonas ma, ta, sa, a par de formas fortes como mia/minha, tua, sua. Sequências como ma senhor podem corresponder a minha senhora. A oposição já variava nos textos antigos e foi desaparecendo ao longo do português médio.

A estrutura do grupo nominal também mudou. Em textos do século XIII, o possessivo ocorria sistematicamente sem o artigo definido em contextos nos quais o português europeu atual usa geralmente o meu livro, a sua casa.

Ao editar uma sequência medieval equivalente a mia casa, há pelo menos duas decisões diferentes:

  • transcrição conservadora: mantém a forma e a grafia do testemunho;
  • modernização: escolhe a minha casa se o objetivo for reproduzir a sintaxe europeia contemporânea.

Acrescentar o artigo não é apenas atualizar letras; altera a estrutura histórica.

A ausência de artigo antes de possessivo não é, por si só, arcaica em todo o português atual. É corrente em muitas variedades brasileiras e ocorre em contextos específicos noutras variedades. A mesma superfície pode resultar de histórias gramaticais distintas.

Formas distributivas e interrogativas

Alguns determinantes desapareceram do uso geral, mas ajudam a interpretar textos antigos.

Forma Função histórica Paráfrase moderna
senhos / senhas distribuição por vários participantes um para cada / respetivos
quejando/a/os/as pergunta ou caracterização de tipo que espécie de / de que natureza
atal identificação ou caracterização tal / semelhante

Numa frase reconstruída como os cavaleiros levavam senhas lanças, entende-se que cada cavaleiro levava a sua lança. Senhos/senhas concordam com o nome e codificam a distribuição; não correspondem ao plural contemporâneo do nome senha.

Uma pergunta como Quejanda resposta esperais? pede o tipo de resposta, não apenas a escolha entre respostas já identificadas. Estas paráfrases esclarecem a função, mas uma edição filológica deve respeitar a forma atestada e a sintaxe do original.

Pronomes locativos e indeterminação por homem

O português antigo dispunha de formas pronominais como ende/en, que podiam retomar uma origem, um lugar ou um complemento introduzido por de, com valores próximos de daí, de lá, disso. A sua posição e interpretação dependem da sintaxe medieval; substituí-las palavra por palavra pode produzir uma frase moderna artificial.

Também se documenta homem sem artigo como recurso de sujeito genérico, historicamente comparável ao francês on:

homem deve guardar a palavra dadadeve guardar-se a palavra dada / uma pessoa deve guardar a palavra dada.

É preciso distingui-lo do nome lexical em o homem entrou. O artigo, a referência a um indivíduo e o contexto ajudam a decidir. No português atual, se, uma pessoa, alguém ou uma construção genérica costumam traduzir melhor a função.

Se uma palavra antiga parece não ter referente concreto, testa primeiro uma leitura discursiva: outra coisa, outra pessoa, daí/disso ou uma pessoa em geral.

Sobrevivências não formam um único sistema

Expressões como de per si, cada qual, quem quer que seja, por outrem e aqueloutro têm graus diferentes de vitalidade. Algumas são formais, outras formulares ou literárias; não pertencem necessariamente à mesma época.

El-rei é uma expressão histórica lexicalizada. Não autoriza criar livremente el-diretor ou analisar el como pronome produtivo do português contemporâneo. Da mesma forma, escrever elle, ella, aquelle reproduz convenções ortográficas anteriores; não recupera sozinho a gramática de um período.

As tradições também atravessam fronteiras. Formas partilhadas pelo galego e pelo português podem refletir a história medieval comum ou conservações paralelas. A ocorrência numa obra brasileira, angolana ou moçambicana pode ser citação, herança literária, regionalismo ou criação estilística; exige análise local.

Ler, editar e recriar

Perante uma forma rara:

  1. confirma a leitura no manuscrito ou numa edição fiável;
  2. data o testemunho e a cópia, não apenas a obra atribuída;
  3. identifica a classe e a função no contexto;
  4. procura contrastes dentro do mesmo texto;
  5. separa grafia antiga de morfologia antiga;
  6. decide se a edição transcreve, regulariza ou moderniza;
  7. explica perdas de informação na paráfrase;
  8. evita misturar formas de séculos diferentes sem intenção estética.

Num texto literário contemporâneo, uma forma arcaizante pode construir solenidade, comicidade, distância ou memória cultural. O efeito será mais convincente se a seleção for historicamente orientada, e não uma acumulação aleatória de palavras raras.

Ready to practise?

Test what you've learned with interactive fill-in-the-blank exercises.

Start exercises

Vocabulary in this lesson

Play a word to hear it, then mark it as known or save it to study.

Last updated July 20, 2026

© 2026 flumi. All rights reserved.